Pesquisando um pouco sobre Yves Namur (poeta belga, nascido em 1952) facilmente nos apercebemos que Figures du très obscur (2000) é uma das suas obras mais conceituadas, à qual se deverão juntar Fragments de l’inachevée (1992) e Le livre des apparences (2001). Agora traduzido para português, por Fernando Eduardo Carita, chega às bancas pela Cavalo de Ferro e com prefácio de Nuno Júdice. O prefácio, breve e justamente intitulado O Esplendor do Essencial, pareceu-me bastante exacto: «é uma poesia que vive no ponto mais essencial de uma designação que empresta um novo sentido ao visível». Pena é que a tradução não seja acompanhada de algumas notas explicativas, fundamentais para que um leigo pudesse compreender algumas das opções tomadas. Só para dar um exemplo, não consigo entender por que razão o título da primeira parte - Sept Pas Dans L’Éphémère - foi traduzido para Sete Passos No Inesperado, quando, logo no primeiro poema, se traduz o verso «Les pas de l’inespéré» por «O passo do inesperado» e, alguns poemas depois, o verso «Pour témoigner de l’éphémère» é transformado em «Para dar testemunho do efémero». Já agora, o verso «N’a d’autre nom que «l’inattendu»» foi traduzido assim: «Não possui outro nome senão «o inesperado»». Outros exemplos há que não fica bem a um leigo pôr em causa, embora, por incapacidade própria, me seja tremendamente difícil compreender tais opções. Ainda assim, aquilo que importa, a poesia de Yves Namur, saúda-se. É uma poesia do ínfimo, na medida em que procura, pela sua força sugestiva, tornar visível o invisível, aceder ao sentido do indefinido e do incompreensível. A brevidade dos poemas ajuda a essa concisão reflexiva que, mais do que ecoar o real, através de uma construção imagética e metafórica, torna presente a voz do nada, do silêncio, desse nada que é tudo, na medida em que: «O ínfimo é a única coisa / Que pode engrandecer-nos». A sombra de Rilke paira, realmente, sobre estes versos. Sobretudo na figura do anjo que aparece em vários poemas. Mas o que engrandece esta poesia é a sua minuciosidade, a precisão com que se movimenta no mínimo, a luz que oferece às figuras que, sendo do muito obscuro, não são do inexistente. Ainda que as interrogações prevaleçam.sexta-feira, 27 de maio de 2005
FIGURAS DO MUITO OBSCURO
Pesquisando um pouco sobre Yves Namur (poeta belga, nascido em 1952) facilmente nos apercebemos que Figures du très obscur (2000) é uma das suas obras mais conceituadas, à qual se deverão juntar Fragments de l’inachevée (1992) e Le livre des apparences (2001). Agora traduzido para português, por Fernando Eduardo Carita, chega às bancas pela Cavalo de Ferro e com prefácio de Nuno Júdice. O prefácio, breve e justamente intitulado O Esplendor do Essencial, pareceu-me bastante exacto: «é uma poesia que vive no ponto mais essencial de uma designação que empresta um novo sentido ao visível». Pena é que a tradução não seja acompanhada de algumas notas explicativas, fundamentais para que um leigo pudesse compreender algumas das opções tomadas. Só para dar um exemplo, não consigo entender por que razão o título da primeira parte - Sept Pas Dans L’Éphémère - foi traduzido para Sete Passos No Inesperado, quando, logo no primeiro poema, se traduz o verso «Les pas de l’inespéré» por «O passo do inesperado» e, alguns poemas depois, o verso «Pour témoigner de l’éphémère» é transformado em «Para dar testemunho do efémero». Já agora, o verso «N’a d’autre nom que «l’inattendu»» foi traduzido assim: «Não possui outro nome senão «o inesperado»». Outros exemplos há que não fica bem a um leigo pôr em causa, embora, por incapacidade própria, me seja tremendamente difícil compreender tais opções. Ainda assim, aquilo que importa, a poesia de Yves Namur, saúda-se. É uma poesia do ínfimo, na medida em que procura, pela sua força sugestiva, tornar visível o invisível, aceder ao sentido do indefinido e do incompreensível. A brevidade dos poemas ajuda a essa concisão reflexiva que, mais do que ecoar o real, através de uma construção imagética e metafórica, torna presente a voz do nada, do silêncio, desse nada que é tudo, na medida em que: «O ínfimo é a única coisa / Que pode engrandecer-nos». A sombra de Rilke paira, realmente, sobre estes versos. Sobretudo na figura do anjo que aparece em vários poemas. Mas o que engrandece esta poesia é a sua minuciosidade, a precisão com que se movimenta no mínimo, a luz que oferece às figuras que, sendo do muito obscuro, não são do inexistente. Ainda que as interrogações prevaleçam.terça-feira, 24 de maio de 2005
RESISTÊNCIA DA POESIA
O filósofo francês Jean-Luc Nancy (n. 1940) tem considerável obra publicada sobre Kant, Hegel, Descartes e Heidegger. O seu primeiro livro, Le titre de la lettre, data de 1973. Quase 10 anos depois surgiu La communauté désoeuvrée (1982), trabalho com o qual veio a granjear alguma notoriedade. Especialista em filosofia política, Nancy tem demonstrado igual interesse pela filosofia da arte e, muito especialmente, pela poesia. Em Les Muses (1994) expôs as suas reflexões sobre o estatuto da arte. Com tradução de Bruno Duarte, chega-nos este Resistência da Poesia (Résistance de la Poésie), numa publicação marginalíssima das Edições Vendaval. Trata-se de um pequeno volume que reúne um opúsculo intitulado Fazer, A Poesia (1996) e uma breve entrevista, datada de 1995, a que foi dado o título de Contar Com A Poesia. Dois textos, portanto, posteriores a Les Muses, conjunto de ensaios que serviu de mote para a conversa com Pierre Alférie. No primeiro texto, Jean-Luc Nancy interroga-se sobre a essência da poesia, partindo da noção de poesia enquanto fazer. Todavia, esta noção está carregada de um significado que extravasa a própria palavra «poesia»: «poesia» diz mais do que «poesia» quer dizer (p. 16). O que quer então dizer «poesia»? «Poesia» quer dizer: o primeiro fazer. É desta forma que a poesia é acesso de sentido, pois esse sentido vai-se construindo à medida que a poesia se faz. O tema é aprofundado na entrevista. Podemos resumir a questão da seguinte maneira: «poesia», antes de ser a designação de uma arte particular, é o nome genérico de toda a arte. Isto implica uma essência dinâmica e plural da própria poesia. É como se não fosse possível falar senão de poesias, já que esta se estende a uma pluralidade de aplicações. Assim, ainda que se possa viver sem poesia, não é possível não contar com a poesia. É a poesia que faz o sentido daquilo que se apresenta como indefinível. Daí a «resistência da poesia», a sua necessidade enquanto recurso inconsciente do sentido. Com tudo isto, Jean-Luc Nancy parece reivindicar para a poesia um papel privilegiado na articulação das artes enquanto medidas de sentido. A «resistência» da poesia seria, em suma, a resistência da linguagem à sua própria infinitude, ou seja, uma espécie de delimitação ilimitada do sentido. Faz sentido e, convenhamos, não deixa de ser poético.quinta-feira, 19 de maio de 2005
SOL A SOL
Passados 40 anos sobre a publicação do seu primeiro livro, Lírica Consumível (1965, Prémio de Revelação da APE), Armando Silva Carvalho (n. 1938) reincide na poesia com um conjunto de poemas que intitulou de Sol a Sol. Repare-se na ausência de preposição. O título, remetendo directamente para a passagem do tempo, pode, no entanto, indiciar outros sentidos. E, de facto, parece ser essa a leitura mais congruente. Na poesia deste autor sempre esteve presente uma intenção cosmogónica que parte de um princípio, não necessariamente dualista, mas antes oposicionista. Tal princípio leva a um entendimento da realidade e da natureza como um todo dinâmico cuja essência será, precisamente, a da oposição de cada coisa consigo mesma. O real é contraditório, assim como qualquer coisa que faça parte desse real. Nomeadamente o homem. Da mesma maneira, tudo parece ser uma extensão de tudo. A utilização constante da palavra «pedra», com toda a carga simbólica que o termo acarreta, é talvez o traço mais evidente disso mesmo. A pedra é, na poesia de Armando Silva Carvalho, uma espécie de arquétipo da vida, um microcosmos que contém a essência do mundo. E o poeta é o tradutor dessa essência: «Lentamente traduzo a ruptura do mundo / Com o novo século. / Escrevo com os olhos ardidos / Pelas novas visões do passado. / Levanto um braço e procuro / Mais uma palavra suada. // Faço o trabalho no brilho embaciado / Da noite. / Retiro lentamente da cabeça / Incrustações de vícios / Pequenas recordações de males menores / Ácidas partículas. // Sorvo o tédio. / Agora que o silêncio é uma crosta de sangue / Nos meus ombros / Recomeço a coçar-me. / Valerá a pena? Não faço disso a festa. / Sou simples. / Sou o intermédio» (p. 23). Esta poesia é uma síntese constante das oposições essenciais da criação poética: a mais torrencial imaginação anda de mãos dadas com um olhar atento sobre o real, sobre o quotidiano, a ironia abraça a melancolia, o físico digladia-se constantemente com o metafísico. Eco das coisas do mundo, do visível, do audível, das sensações que captamos do mundo, a escrita é também uma forma de sentir o corpo das coisas. E esse corpo só pode ser: «Tudo o que a vista toca, a língua cheira, / O ouvido sente, a pele escuta, o nariz fita» (p. 31). Não estranhemos que títulos como A BILHA DE GÁS ou FERRO DE ENGOMAR, convivam tão bem com outros como O CANTO ESCREVE O CISNE e A MONTRA DO SANGUE. «Não sou desses poetas de íris revirada / E testículos leitosos / Que se satisfazem com um uísque / Uma mão de prata / Na braguilha / E um jantar no terraço à luz clara da lua» (p.82) - declara o poeta num poema intitulado O NEGRO. Armando Silva Carvalho é antes um desses poetas que teimam em olhar o mundo pelos seus próprios olhos, vendo o outro rosto que é o rosto de si mesmos nas coisas, porque das coisas àquele que as vê vai todo um trabalho de tradução. É esta a sua PEDAGOGIA: «Contar por cabeça económica / Como tu dizias / Não nos faz mais altos / Nem nos põe de pé, míticos e visuais. / Mas sem a noção de altura / Resolvida / Nunca o ser humano chegará ao tecto de qualquer / Mundo. / Deste ou doutro a haver. // Se atendermos ao modo / Como a natureza humana vai dispondo / Das suas coisas / E a Natureza começa a dispor das dela / Humanos Incluídos» (p. 124). Abrindo com uma homenagem a Fiama, Sol a Sol está em permanente diálogo com outras obras e com os autores dessas outras obras (Gastão Cruz, Ruy Belo, Alexandre O’Neill, Fernando Pessoa, são apenas alguns dos visados). Esse poema de abertura fica em aberto, parecendo alongar-se no interior dos poemas subsequentes, a maior parte deles datados (entre 24.7.2004 e 19.10.2004). Ofício diário, este Sol a Sol é uma visão reflexa e reflexiva do mundo. A memória, quando aparece nestes poemas, é sempre em forma de pensamento sobre o presente. E o presente, mesmo o mais imediato e quotidiano, surge sempre como uma espécie de eco do passado. Filha da terra e do corpo, esta poesia é a pedra que o poeta atira ao leitor.domingo, 15 de maio de 2005
A MINHA VOZ NO TEU NOME
Com um ano de atraso chega-me, por correio tradicional, este A Minha Voz No Teu Nome (Ausência, Maio de 2004) de André Sebastião (n. 1980). Duvido que me pudesse chegar de outra forma. Não me lembro de ter lido qualquer referência a este livro nas páginas da imprensa especializada, tão-pouco me lembro de o ver à venda nas lojas onde costumo comprar livros. Talvez isso se deva ao facto de se tratar de uma primeira obra de um “novíssimo autor”, talvez se deva antes à dificuldade que as colecções de poesia das pequenas editoras têm em impor-se no mercado editorial português. Da pouca poesia portuguesa que se lê em Portugal, aquela que se lê ou é de autores já consagrados (excepção feita a um ou outro dos novos mais facilmente mediatizáveis), ou vem de colecções que, pela tradição, lograram um certo estatuto de qualidade indubitável (o que, diga-se de passagem, muitas vezes fica aquém da realidade). A Minha Voz No Teu Nome divide-se em quatro partes autónomas: O Crepúsculo do Amor ou O Caos da Sensação (a maior de todas elas), Sete Memórias da Solidão, Ponto de Fuga e A Despedida de Coimbra. Pelos próprios títulos não será difícil imaginar o pendor biográfico desta poesia. No entanto, esse pendor biográfico não é aqui sinónimo de "biografismo" ou de "confessionalismo". A poesia de André Sebastião é bastante rica em imagens e metáforas, não se deixando ficar por um real reduzido à noção de coisa exacta ou meramente física. No real, esta poesia incorpora a imaginação, o desejo e, sobretudo, a ausência. Aquilo que está ausente aparece como sendo existente na sua própria natureza de coisa ausente. Daí que, na primeira das quatro partes deste livro, o tom claramente erótico se erga numa permanente confusão entre memória e imaginação: «Escreveria a minha voz no teu nome / se soubesse que / um momento / existirias // ou se alguém nesta gente que procuro / conhecesse / de perto / o perfil da tua boca / Quero ver-te nos meus passos / em cada minuto / que me atravesso / Quero sossegar / quero pousar-me na curva líquida / de uns olhos que desconheço // quero o mesmo apreço / que toda a gente» (p. 34). A voluptuosidade destes versos anda de mão dada com uma inquietude que aparece frequentemente na figura daquele que procura algo que perdeu ou ainda não teve. Em congruência com a primeira parte, as Sete Memórias da Solidão adensam precisamente esse aspecto daquele que, embora memorando a solidão, permanece escravo da mesma como se esta fosse uma condição de existir. De certa forma, podemos dizer que nestes poemas a solidão é uma espécie de sensação que a memória e a saudade provocam naquele que, escrevendo, lembra: «todas as memórias residem nas veias com um nome / e com as vestes de chapa do confronto / permanecem latentes num círculo de pedras apuradas / à espera / das sensações que transmites / quando concedes umas horas uns anos / ao passado» (p. 52). O mesmo tom povoa as duas últimas partes de A Minha Voz No Teu Nome. A melancolia percorre os versos daquele que inventa «uma existência da sua matéria íntima», pois escrever, ainda para mais escrever poesia, é dar existência a essa mesma matéria íntima. É assim que, em Ponto de Fuga, o próprio acto de escrever se converte em matéria de poesia: escrever como inventar, escrever como tornar presente, escrever como rememorar e quebrar as fronteiras que dividem os tempos passado-presente-futuro. A família é retratada, os espaços geográficos da existência quotidiana também, episódios passados/presentes que são matéria do íntimo, porque «a memória esconde a ponte / entre os sons do passado / e os ecos do / futuro» (p. 76). Por mim, A Minha Voz No Teu Nome terminaria aqui. Mas André Sebastião resolveu acrescentar uma última parte que, a meu ver, só vem empobrecer o conjunto final. A Despedida de Coimbra aparece um pouco desfocada, embora não retire brilho ao que ficou para trás. É tudo muito mais óbvio nesta despedida, o que pode ser exemplificado com este breve O último cortejo: «Hei-de estar / felizmente / bêbado para apreciar / a transição do cortejo // acaba amanhã uma viagem / que começou / há quatro séculos atrás // lágrimas só pela oportunidade / que o futuro / tem / para celebrar um caos» (p. 83). Ainda assim, este livro merecia outra atenção.
quarta-feira, 4 de maio de 2005
p a l a v r a s
Não digas alma, diz corpo. Não digas morte, diz vida. Não digas memória, diz esquecimento. Não digas coração, diz pulmão. Não digas amor, diz ódio. Não digas ideia, diz afecto. Não digas boca, diz mão. Não digas vento, diz respiração. Não digas luz, diz sombra. Não digas noite, diz crepúsculo. Não digas palavra, diz imagem. Não digas casa, diz rua. Não digas outro, diz eu. Não digas heroísmo, diz medo. Não digas mãe, diz poesia. Não digas céu, diz chão. Não digas flor, diz fruto. Não digas silêncio, diz ruído. Não digas ruído, diz eco. Não digas nada, diz tudo.
terça-feira, 3 de maio de 2005
LAOCOONTE
Laocoonte, rimas várias, andamentos graves (Quetzal, 2005), de Vasco Graça Moura (n. 1942), é um dos melhores livros de poesia portuguesa publicados no primeiro trimestre de 2005. Se começo por afirmá-lo, não é apenas por ser um adepto indefectível de livros de poesia longos (este estende-se às quase 200 páginas) e heterogéneos, isto é, livros que reúnam poemas em formato diversificado sob um mesmo tecto temático ou uma mesma ambiência emocional. Afirmo-o, sobretudo, porque este livro oferece-nos um poeta no perfeito domínio da sua arte. Vasco Graça Moura, é de todos sabido, ocupa nas letras portuguesas o lugar do homem dos sete instrumentos: romancista, ensaísta, excelente tradutor, cronista, organizador de antologias e colecções diversas, poeta, actividades às quais se acrescenta a de político militante. É curioso que os poemas deste livro ecoem, de forma mais ou menos subtil, todas essas actividades. Por isso devemos afirmar que esta poesia é essencialmente quotidiana, uma poesia que se faz num diálogo permanente com o vivido e com o revivido.
Reunindo, segundo informação contida nas notas finais, conjuntos de poemas já anteriormente publicados em antologias, revistas, «plaquettes», suplementos literários e weblogs (no caso, a extraordinária sequência aretnap a pantera, um divertimento em ressonâncias sobre o trabalho de tradução de Der Panther, de Rainer Maria Rilke, aparecida, pela primeira vez, no weblog Abrupto), entre outros tantos inéditos, compreende-se a divisão da obra em várias partes: laocoonte, cinco sonetos íntimos, la malinconia, a consistência das sombras, oito canções de outono, termos técnicos, aretnap a pantera mais dois subprodutos e suite horaciana. Formalmente, estes poemas alternam entre o preciosismo métrico e a inclinação narrativa. O tom é quase sempre sombrio e melancólico, mas também irónico, desassossegado, inquietante (em permanente diálogo com outros autores, outras obras, outras artes, com a própria história).
Laocoonte, o conjunto de poemas que abre o volume, inicia-se com uma ars poética onde se pode ler o seguinte: «a poesia revela inesperados / desencontros e neles poderás modular-te, / falar das tuas ilusões, do que te falta até ao osso» (p. 9). Talvez fosse mais convencional falar da poesia como um lugar de encontro, o que releva, desde logo, nesta poesia uma espantosa fuga ao convencional. Esse é, sem dúvida, um dos aspectos a destacar nos poemas de Vasco Graça Moura, poeta a quem dificilmente seria reconhecido qualquer tipo de “heterodoxia”. No entanto, essa “heterodoxia” de carácter íntimo ressalta à vista no tom desassossegado e aparentemente contraditório da relação que estabelece com a história, com o passado, com a memória das coisas vividas e das coisas da vida. Porque é da vida que o poeta escreve, «das suas flores contidas, / do seu rumor nas veias / e dos perfumes leves / do tempo em combustão / que nela se incorpora / depois dos sobressaltos» (p. 12). Mais uma vez o tempo, essa consciência amargurada e desolada da agonia das coisas, do mundo, partindo de um olhar sobre o passar dos séculos, de um olhar que amplia e dá conta do sofrimento humano.
Outro aspecto inquietante nestes poemas é, precisamente, o seu sentido da história, a interrogação sobre os desígnios da humanidade, sobre os sacrifícios e o sofrimento infligidos em nome das ideias e de uma suposta felicidade, sobre a própria essência contraditória do homem (criador/destruidor): «se tudo é bric-à-brac e excesso, exercício de solidão e penitência, / se os tigres nas florestas da noite são apenas / simetrias em brasa, coruscantes e verbais, filmes do esquecimento / atraiçoando o equilíbrio, a ordem que simulamos para o caos, // depois dos ventos da destruição, das catástrofes da ignomínia, / os vencidos não podem ser sacerdotes de apolo, / mesmo que, uma vez desenterrados, / de plínio a lessing sirvam para se falar das artes» (p. 41). Depois há o erotismo dos cinco sonetos íntimos, os episódios e os amigos recordados, as evocações, as «memórias aflitas, arranhadas, indizíveis», em la malinconia e a consistência das sombras, o virtuosismo formal das oito canções de outono - «tanta ilusão a que o real embala, / tanto rumor de súbito se cala / sempre que amor se torna corpo e alma / e disso se constrói» (p. 119) -, a arte de traduzir e escrever poesia transformada, ela mesma, em matéria de poesia: «o decassílabo menos ouvido / na quarta e sétima leva o acento: / possível é, todavia é fodido / em português ir-lhe dando andamento. / com solidão, natural sentimento, / fica erodido, doído, delido: / entre silêncio e ruído é roído / e um solavanco lhe dá o sustento» (p. 129). Por tudo isto, a mais recente recolha poética de Vasco Graça Moura é impreterível.
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