terça-feira, 24 de maio de 2005

RESISTÊNCIA DA POESIA

O filósofo francês Jean-Luc Nancy (n. 1940) tem considerável obra publicada sobre Kant, Hegel, Descartes e Heidegger. O seu primeiro livro, Le titre de la lettre, data de 1973. Quase 10 anos depois surgiu La communauté désoeuvrée (1982), trabalho com o qual veio a granjear alguma notoriedade. Especialista em filosofia política, Nancy tem demonstrado igual interesse pela filosofia da arte e, muito especialmente, pela poesia. Em Les Muses (1994) expôs as suas reflexões sobre o estatuto da arte. Com tradução de Bruno Duarte, chega-nos este Resistência da Poesia (Résistance de la Poésie), numa publicação marginalíssima das Edições Vendaval. Trata-se de um pequeno volume que reúne um opúsculo intitulado Fazer, A Poesia (1996) e uma breve entrevista, datada de 1995, a que foi dado o título de Contar Com A Poesia. Dois textos, portanto, posteriores a Les Muses, conjunto de ensaios que serviu de mote para a conversa com Pierre Alférie. No primeiro texto, Jean-Luc Nancy interroga-se sobre a essência da poesia, partindo da noção de poesia enquanto fazer. Todavia, esta noção está carregada de um significado que extravasa a própria palavra «poesia»: «poesia» diz mais do que «poesia» quer dizer (p. 16). O que quer então dizer «poesia»? «Poesia» quer dizer: o primeiro fazer. É desta forma que a poesia é acesso de sentido, pois esse sentido vai-se construindo à medida que a poesia se faz. O tema é aprofundado na entrevista. Podemos resumir a questão da seguinte maneira: «poesia», antes de ser a designação de uma arte particular, é o nome genérico de toda a arte. Isto implica uma essência dinâmica e plural da própria poesia. É como se não fosse possível falar senão de poesias, já que esta se estende a uma pluralidade de aplicações. Assim, ainda que se possa viver sem poesia, não é possível não contar com a poesia. É a poesia que faz o sentido daquilo que se apresenta como indefinível. Daí a «resistência da poesia», a sua necessidade enquanto recurso inconsciente do sentido. Com tudo isto, Jean-Luc Nancy parece reivindicar para a poesia um papel privilegiado na articulação das artes enquanto medidas de sentido. A «resistência» da poesia seria, em suma, a resistência da linguagem à sua própria infinitude, ou seja, uma espécie de delimitação ilimitada do sentido. Faz sentido e, convenhamos, não deixa de ser poético.

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