Casos, fenómenos e revelações na poesia portuguesa são o que não falta. Cada qual inventa os seus. Um dos mais justos, em mina opinião, é o de Daniel Faria (1971-1999). Viveu pouco, mas deixou uma obra extraordinariamente consistente, quer pela qualidade, quer pela quantidade, se tivermos em conta os parcos vinte e oito anos de idade com que o poeta nos abandonou. Em 2003, a Quasi Edições reuniu-lhe a poesia num belo volume organizado por Vera Vouga. Pouco tempo depois, em colaboração com o município de Penafiel e com os herdeiros do poeta, a mesma editora cria o Prémio Daniel Faria. Não é comum poetas tão jovens, e em tão pouco tempo passado sobre a sua morte, darem nome a prémios, mais ainda quando a obra que outorgaram à posteridade permanece aberta a um debate aprofundado sobre as coordenadas que consolidam a sua verdadeira relevância. Num país paradoxal como é o nosso, um país de poetas avessos à poesia, sobretudo à poesia nova, é de saudar todo e qualquer ímpeto que promova com qualidade a poesia portuguesa. A Nuvem Prateada das Pessoas Graves, de Rui Costa (n. 1972, Porto), é o título do livro vencedor da primeira edição do supracitado prémio. Trata-se de uma obra inicial e, em certa medida, iniciática. Isto porque a linguagem de Rui Costa, não sendo radicalmente inovadora, assume uma clara singularidade no panorama da poesia portuguesa mais recente. Podemos falar, grosso modo, em dois tipos de linguagem disseminados pela nossa poesia de agora: uma linguagem de cariz denotativo e outra de género conotativo. A primeira, encontramo-la nos denominados poetas do real (a designação não é feliz, porque restringe o real ao fenómeno empírico); a segunda, vislumbramo-la nos poetas do surreal (evitemos o emprego do termo num sentido escolástico). Assim, podemos dizer que enquanto os primeiros privilegiam o quotidiano, o confessionalismo, a memória, o sentido literal e explícito do poema, os segundos dão ênfase à imaginação, à metáfora, ao ambíguo, ao implícito. É claro que esta perspectivação será sempre redutora e deverá ser compreendida num contexto aberto às excepções. No caso da poesia que ora nos prende, há uma nova linguagem que põe em tensão as duas anteriormente citadas. Se nos concentrarmos no título da obra, facilmente nos aperceberemos disso. Aquela associação da «nuvem prateada», expressão já de si metafórica, com a noção de «pessoas graves», cria no leitor uma sensação de ampliação da linguagem que resulta do factor sugestivo da tensão vinculada. É esse factor sugestivo, não tanto no sentido evocativo como no sentido inventivo, que prima nesta obra. A relação que se estabelece entre as três partes que compõem o todo final (As Mãos no Fermento da Luz, As Mãos a Bater na Boca, A Contaminação das Mãos), tem qualquer coisa de dialéctico (tese, antítese e síntese) que ocorre sob o signo das mãos - traduzíveis, em campo semântico de teor simbólico, por labor, porventura, poético. A primeira parte resulta de um jogo metafórico constante, a segunda é mais reflexiva, remetendo frequentemente para o poder simbólico do real, a terceira parte funde os dois princípios imitando-se a si própria em poderosas imagens. Não por acaso o primeiro poema desta terceira parte se intitula Biótica, um outro se chama Alquimia, e depois há versos assim, tão próximos do que de melhor nos deixou a poesia de Daniel Faria: «A flor é um animal ao mesmo tempo / doce e profundo. Tem muitos olhos mas / estão todos voltados para dentro e são os teus» (p. 42). Nada do que se diz nestes poemas é traduzível senão à luz desse poder sugestivo que une emoção e razão no interior de cada poema. Cada imagem contribui para um todo que estende o significado do poema no momento da leitura. Note-se como tal acontece neste Poema Inútil Com Montanha que, diga-se, ecoa um dos heterónimos de Pessoa: «Vejo a montanha à minha frente pousada / sobre a água sempre verde e penso na inutilidade / de tudo o que ela é, e na inutilidade de estar pensando nisto, / quando um pensamento inútil me sugere / que a montanha pode ser / um pormenor pensado por ela / na paisagem do meu próprio pensamento, para / com isto me levar a pensar sobre pensamentos, / e não sobre montanhas, ficando ela, como antes, / pousada na água sempre verde sem ser / pensada por ninguém» (p. 28). Direi, em jeito de resumo, que neste livro encontramos uma linguagem à base de imagens poéticas que contribuem para a renovação da nova poesia portuguesa. Não sendo uma poesia de excessos, esta é uma poesia que excede o real e qualquer significação metafórica mais arquetípica. À maneira de Ricoeur, eu diria que este é um livro de metáforas vivas onde «a linguagem poética, enquanto inversão da linguagem comum, não se dirige para fora mas para dentro, em direcção a um interior que nada mais é do que o estado de espírito estruturado e expresso por um poema».quinta-feira, 7 de julho de 2005
A NUVEM PRATEADA DAS PESSOAS GRAVES
Casos, fenómenos e revelações na poesia portuguesa são o que não falta. Cada qual inventa os seus. Um dos mais justos, em mina opinião, é o de Daniel Faria (1971-1999). Viveu pouco, mas deixou uma obra extraordinariamente consistente, quer pela qualidade, quer pela quantidade, se tivermos em conta os parcos vinte e oito anos de idade com que o poeta nos abandonou. Em 2003, a Quasi Edições reuniu-lhe a poesia num belo volume organizado por Vera Vouga. Pouco tempo depois, em colaboração com o município de Penafiel e com os herdeiros do poeta, a mesma editora cria o Prémio Daniel Faria. Não é comum poetas tão jovens, e em tão pouco tempo passado sobre a sua morte, darem nome a prémios, mais ainda quando a obra que outorgaram à posteridade permanece aberta a um debate aprofundado sobre as coordenadas que consolidam a sua verdadeira relevância. Num país paradoxal como é o nosso, um país de poetas avessos à poesia, sobretudo à poesia nova, é de saudar todo e qualquer ímpeto que promova com qualidade a poesia portuguesa. A Nuvem Prateada das Pessoas Graves, de Rui Costa (n. 1972, Porto), é o título do livro vencedor da primeira edição do supracitado prémio. Trata-se de uma obra inicial e, em certa medida, iniciática. Isto porque a linguagem de Rui Costa, não sendo radicalmente inovadora, assume uma clara singularidade no panorama da poesia portuguesa mais recente. Podemos falar, grosso modo, em dois tipos de linguagem disseminados pela nossa poesia de agora: uma linguagem de cariz denotativo e outra de género conotativo. A primeira, encontramo-la nos denominados poetas do real (a designação não é feliz, porque restringe o real ao fenómeno empírico); a segunda, vislumbramo-la nos poetas do surreal (evitemos o emprego do termo num sentido escolástico). Assim, podemos dizer que enquanto os primeiros privilegiam o quotidiano, o confessionalismo, a memória, o sentido literal e explícito do poema, os segundos dão ênfase à imaginação, à metáfora, ao ambíguo, ao implícito. É claro que esta perspectivação será sempre redutora e deverá ser compreendida num contexto aberto às excepções. No caso da poesia que ora nos prende, há uma nova linguagem que põe em tensão as duas anteriormente citadas. Se nos concentrarmos no título da obra, facilmente nos aperceberemos disso. Aquela associação da «nuvem prateada», expressão já de si metafórica, com a noção de «pessoas graves», cria no leitor uma sensação de ampliação da linguagem que resulta do factor sugestivo da tensão vinculada. É esse factor sugestivo, não tanto no sentido evocativo como no sentido inventivo, que prima nesta obra. A relação que se estabelece entre as três partes que compõem o todo final (As Mãos no Fermento da Luz, As Mãos a Bater na Boca, A Contaminação das Mãos), tem qualquer coisa de dialéctico (tese, antítese e síntese) que ocorre sob o signo das mãos - traduzíveis, em campo semântico de teor simbólico, por labor, porventura, poético. A primeira parte resulta de um jogo metafórico constante, a segunda é mais reflexiva, remetendo frequentemente para o poder simbólico do real, a terceira parte funde os dois princípios imitando-se a si própria em poderosas imagens. Não por acaso o primeiro poema desta terceira parte se intitula Biótica, um outro se chama Alquimia, e depois há versos assim, tão próximos do que de melhor nos deixou a poesia de Daniel Faria: «A flor é um animal ao mesmo tempo / doce e profundo. Tem muitos olhos mas / estão todos voltados para dentro e são os teus» (p. 42). Nada do que se diz nestes poemas é traduzível senão à luz desse poder sugestivo que une emoção e razão no interior de cada poema. Cada imagem contribui para um todo que estende o significado do poema no momento da leitura. Note-se como tal acontece neste Poema Inútil Com Montanha que, diga-se, ecoa um dos heterónimos de Pessoa: «Vejo a montanha à minha frente pousada / sobre a água sempre verde e penso na inutilidade / de tudo o que ela é, e na inutilidade de estar pensando nisto, / quando um pensamento inútil me sugere / que a montanha pode ser / um pormenor pensado por ela / na paisagem do meu próprio pensamento, para / com isto me levar a pensar sobre pensamentos, / e não sobre montanhas, ficando ela, como antes, / pousada na água sempre verde sem ser / pensada por ninguém» (p. 28). Direi, em jeito de resumo, que neste livro encontramos uma linguagem à base de imagens poéticas que contribuem para a renovação da nova poesia portuguesa. Não sendo uma poesia de excessos, esta é uma poesia que excede o real e qualquer significação metafórica mais arquetípica. À maneira de Ricoeur, eu diria que este é um livro de metáforas vivas onde «a linguagem poética, enquanto inversão da linguagem comum, não se dirige para fora mas para dentro, em direcção a um interior que nada mais é do que o estado de espírito estruturado e expresso por um poema».
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