Sempre que se aproxima o Natal (agora mais cedo que nunca), lembro-me de um filme. É um filme que, à partida, pouco tem que ver com o Natal. No entanto, é desse filme que me lembro. Refiro-me a O Náufrago (Cast Away, 2000) de Robert Zemeckis. Talvez me devesse lembrar antes de Do Céu Caiu Uma Estrela (It’s a Wonderful Life, 1946), de Frank Capra, ou da canção Last Christmas da banda britânica Wham!, ou mesmo dos poemas de natal de Miguel Torga, superiormente musicados por Pedro Caldeira Cabral. Teimo em lembrar-me de O Náufrago. No outro dia perguntei ao meu psicanalista se haveria razão inconsciente (adoro esta expressão) para tal, ao que ele me tentou explicar que sim mas que teria de ser eu a descobri-la por mim. Os psicanalistas têm este vício de saberem tudo mas não dizerem nada. Então, pus-me cá a matutar e acho que alinhavei umas ideias sobre o assunto. Lembro-me sempre de O Náufrago pelo Natal porque, na realidade, eu sinto-me um náufrago no Natal. Não se admirem de até aqui eu ter já escrito Natal uma boa meia dúzia de vezes. É pura terapia, certos fogos apenas se apagam com outros fogos. Vou tentar fazer-me entender. É certo que o filme de Zemeckis, com o impagável Tom Hanks no papel principal, começa muito perto desse dia em que se diz ser o aniversário do senhor bom filho do Deus dos cristãos. Logo no início há uma cena deprimente, quando no meio da ceia de Natal, entre grande fausto consumista, Hanks recebe um toque no pager e tem que se pôr a andar dali para o trabalho. Depois dá-se um acidente e o resto é a história de um homem a sobreviver sozinho numa ilha. No Natal, eu sinto-me assim: a sobreviver sozinho numa ilha. Isto porque, ao contrário do que parece acontecer com todas as pessoas à minha volta, eu não consigo esquecer que também durante o Natal se violam os direitos humanos na Coreia e em Cuba, em Guantánamo e Abu Ghraib, na China e em Angola, etc.; também durante o Natal há os sobreviventes do Tsunami, do Katrina, dos terramotos no Paquistão, tragédias que nos inflamaram com mui nobres emoções, a clamarem pela nossa atenção agora dispersa por entre barbies e consolas; também durante o Natal há milhões de cidadãos a serem roubados por tirânicas sociedades; também durante o Natal há 1000 milhões de pessoas a viverem com um rendimento per capita inferior a 200 dólares; também durante o Natal há 400 milhões de pessoas a carecerem de calorias, enquanto nós esbanjamos peru, bacalhau e doces a rodos; também durante o Natal há milhões de seres humanos a padecerem de fome permanente, e isso provoca-me azia; também durante o Natal há 14 milhões de crianças a morrerem com menos de 5 anos devido a subnutrição e infecções, enquanto a minha filha pode, no conforto do lar, deliciar-se com os fritos da avó. Penso em todas estas coisas, e nas mãos que terão confeccionado grande parte dos brinquedos que damos aos nossos filhos. Depois lembro-me de O Náufrago, que sou um náufrago, que está tudo explicado mas que arranjei um outro problema. Pego na agenda e marco a próxima consulta no meu psicanalista, provavelmente interrompendo a sua faustosa ceia de Natal.
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