Publicado com discrição, numa editora discreta mas irrepreensível, estes Textos sobre Hölderlin interessarão principalmente aos leitores mais exigentes do poeta alemão. Não sei se haverá muitos, mas sei que, talvez por isso mesmo, estes textos deveriam interessar não só aos leitores de Hölderlin como também aos leitores de filosofia. Isto porque a abordagem de Philippe Lacoue-Labarthe (n. 1940) está muito mais focalizada na dimensão filosófica do que na dimensão lírica da obra hölderliniana. Do mesmo autor, recordo, já as Edições Vendaval haviam publicado entre nós outro livro: Duas Paixões (Artaud, Pasolini). A paixão Hölderlin manifesta-se aqui na reunião de três conferências, aparentemente explícitas no objecto de análise, proferidas em épocas diferentes: Hölderlin e os Gregos (1979), A Cesura do Especulativo (1978) e A Coragem da Poesia (1993). O facto de não terem sido coligidas cronologicamente leva-me a crer numa tentativa de arrumação que favorecesse as interdependências temáticas entre cada uma das conferências. Deste modo, arrisco afirmar, com atrevida simplificação, que as três conferências correspondem respectivamente a abordagens que têm em vista uma relação entre eventuais teses sobre arte, filosofia e política no seio da obra de Hölderlin. Como é sabido, o romantismo e consequente idealismo alemães caracterizaram-se, entre outras coisas, por uma ambicionada revivência do ideal helénico. A obra de Friedrich Hölderlin (1770-1843), de maneira distinta da dos amigos Schelling e Hegel, testemunha precisamente essa demanda de reviver no espírito alemão o espírito da Antiguidade. Para tal era necessário demarcar uma oposição entre o Antigo (Naïf) e o Moderno (Sentimental). A interpretação que Lacoue-Labarthe leva a cabo na primeira das conferências vai no sentido de relevar o papel do idealista alemão num abalo a esta oposição. De facto, a experiência da tradução da Tragédia Grega levou Hölderlin bem mais longe do que os seus pares no que concerne ao pensamento sobre os Gregos. Este, ter-se-á deparado com a impossibilidade limite da tradução daquilo que era em si mesmo «inimitável», ou seja, a Grécia: «aquilo que conhecemos dela, que é talvez o que ela foi ou o que manifestou de si, não é o que ela era na realidade» (p. 19). Tal intuição abrirá as portas a uma singular filosofia que se originará, precisamente, na base de uma noção acerca da tragédia enquanto matriz do pensamento especulativo. Será esse o tema aprofundado na segunda e mais extensa das conferências. A pergunta que Lacoue-Labarthe coloca é: «o que tem a tragédia a ver com o nascimento do pensamento especulativo e da onto-lógica?» (p. 39) A resposta à pergunta está, de certa forma, incutida naquilo que a origina. Isto é: com a experiência da inimitabilidade da tragédia, Hölderlin apercebe-se que uma cultura não pode regressar a si (apropriar-se) «senão sob a condição de se ter inicialmente desapropriado» (p. 20). Deste modo, a tragédia é o lugar por excelência da tensão que define toda e qualquer cultura: «a tragédia expõe a (des)propriação» (p. 69). Restará então aferir o alcance político destas considerações. Para tal, Philippe Lacoue-Labarthe, na terceira e última conferência aqui traduzidas, socorre-se das leituras de Hölderlin realizadas por Heidegger e Benjamin. Em foco estão as versões do poema Coragem de Poeta (há pelo menos uma tradução, de Paulo Quintela, disponível em língua portuguesa). O que se reivindica é uma qualidade «arqui-ética» para a poesia, ou seja, a coragem, pressentida já no poema trágico. Para Heidegger, essa coragem manifesta-se na responsabilidade «de saber se os Alemães têm capacidade ou não para entrar na história (…), tal como os Gregos que, com coragem inaudita que a tragédia testemunha, se tornaram Gregos» (p. 86). O poeta seria, neste sentido, um héros, um «modelo». Já da leitura de Benjamin o que se releva são as noções de testemunho e de mártir, respectivamente pressupostos do poema e do poeta. O pressuposto do poema seria então a tarefa do poeta, ou seja, aquilo que o poema testemunha. A conclusão do filósofo francês é a seguinte: «o que foi testemunhado é a «falta de Deus», como dizia Hölderlin, ou – o que vai dar ao mesmo – da nossa condição a-teia (gr. Á-theos)» (p. 105). Resta dizer que coube a Bruno Duarte a tradução da primeira das três conferências e a Joaquim Afonso a tradução das restantes.quarta-feira, 8 de março de 2006
TEXTOS SOBRE HÖLDERLIN
Publicado com discrição, numa editora discreta mas irrepreensível, estes Textos sobre Hölderlin interessarão principalmente aos leitores mais exigentes do poeta alemão. Não sei se haverá muitos, mas sei que, talvez por isso mesmo, estes textos deveriam interessar não só aos leitores de Hölderlin como também aos leitores de filosofia. Isto porque a abordagem de Philippe Lacoue-Labarthe (n. 1940) está muito mais focalizada na dimensão filosófica do que na dimensão lírica da obra hölderliniana. Do mesmo autor, recordo, já as Edições Vendaval haviam publicado entre nós outro livro: Duas Paixões (Artaud, Pasolini). A paixão Hölderlin manifesta-se aqui na reunião de três conferências, aparentemente explícitas no objecto de análise, proferidas em épocas diferentes: Hölderlin e os Gregos (1979), A Cesura do Especulativo (1978) e A Coragem da Poesia (1993). O facto de não terem sido coligidas cronologicamente leva-me a crer numa tentativa de arrumação que favorecesse as interdependências temáticas entre cada uma das conferências. Deste modo, arrisco afirmar, com atrevida simplificação, que as três conferências correspondem respectivamente a abordagens que têm em vista uma relação entre eventuais teses sobre arte, filosofia e política no seio da obra de Hölderlin. Como é sabido, o romantismo e consequente idealismo alemães caracterizaram-se, entre outras coisas, por uma ambicionada revivência do ideal helénico. A obra de Friedrich Hölderlin (1770-1843), de maneira distinta da dos amigos Schelling e Hegel, testemunha precisamente essa demanda de reviver no espírito alemão o espírito da Antiguidade. Para tal era necessário demarcar uma oposição entre o Antigo (Naïf) e o Moderno (Sentimental). A interpretação que Lacoue-Labarthe leva a cabo na primeira das conferências vai no sentido de relevar o papel do idealista alemão num abalo a esta oposição. De facto, a experiência da tradução da Tragédia Grega levou Hölderlin bem mais longe do que os seus pares no que concerne ao pensamento sobre os Gregos. Este, ter-se-á deparado com a impossibilidade limite da tradução daquilo que era em si mesmo «inimitável», ou seja, a Grécia: «aquilo que conhecemos dela, que é talvez o que ela foi ou o que manifestou de si, não é o que ela era na realidade» (p. 19). Tal intuição abrirá as portas a uma singular filosofia que se originará, precisamente, na base de uma noção acerca da tragédia enquanto matriz do pensamento especulativo. Será esse o tema aprofundado na segunda e mais extensa das conferências. A pergunta que Lacoue-Labarthe coloca é: «o que tem a tragédia a ver com o nascimento do pensamento especulativo e da onto-lógica?» (p. 39) A resposta à pergunta está, de certa forma, incutida naquilo que a origina. Isto é: com a experiência da inimitabilidade da tragédia, Hölderlin apercebe-se que uma cultura não pode regressar a si (apropriar-se) «senão sob a condição de se ter inicialmente desapropriado» (p. 20). Deste modo, a tragédia é o lugar por excelência da tensão que define toda e qualquer cultura: «a tragédia expõe a (des)propriação» (p. 69). Restará então aferir o alcance político destas considerações. Para tal, Philippe Lacoue-Labarthe, na terceira e última conferência aqui traduzidas, socorre-se das leituras de Hölderlin realizadas por Heidegger e Benjamin. Em foco estão as versões do poema Coragem de Poeta (há pelo menos uma tradução, de Paulo Quintela, disponível em língua portuguesa). O que se reivindica é uma qualidade «arqui-ética» para a poesia, ou seja, a coragem, pressentida já no poema trágico. Para Heidegger, essa coragem manifesta-se na responsabilidade «de saber se os Alemães têm capacidade ou não para entrar na história (…), tal como os Gregos que, com coragem inaudita que a tragédia testemunha, se tornaram Gregos» (p. 86). O poeta seria, neste sentido, um héros, um «modelo». Já da leitura de Benjamin o que se releva são as noções de testemunho e de mártir, respectivamente pressupostos do poema e do poeta. O pressuposto do poema seria então a tarefa do poeta, ou seja, aquilo que o poema testemunha. A conclusão do filósofo francês é a seguinte: «o que foi testemunhado é a «falta de Deus», como dizia Hölderlin, ou – o que vai dar ao mesmo – da nossa condição a-teia (gr. Á-theos)» (p. 105). Resta dizer que coube a Bruno Duarte a tradução da primeira das três conferências e a Joaquim Afonso a tradução das restantes.
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