sexta-feira, 28 de julho de 2006

VICIOSOS


Os Viciosos
de Abel Ferrara
Não podemos pedir muito à História. Não é justo. Porém, o muito que nos ensina pode resumir-se a um único objecto: elaborar as perguntas correctas. A questão hoje já não pode ser sobre a natureza do mal, nem mesmo sobre a sua origem. Debalde muito se perdeu e nada se conquistou nesse campo de batalha. Origem e natureza, no que à matéria diz respeito, sempre andaram de mãos dadas. A questão a colocar deverá ser outra: como lidar com o mal? E esta não é outra senão a questão que desde sempre andámos a colocar acerca de nós próprios: quem somos? Perguntarmo-nos sobre o mal é perguntarmo-nos acerca de nós próprios. A História ensinou-nos que o mal não tem outra origem, ele é a essência da humanidade. Só quem se coloca no centro das suas dúvidas pode saber o que é o mal, só a esse o mal interessa, pois só a esse ele atinge. O que atinge o mal? A consciência do mal ele mesmo. Daí que ao mal possamos associar a linguagem, pois, como diria Wittgenstein, «os limites da minha linguagem significa os limites do meu mundo». No entanto, no mesmo Tratado, o filósofo austríaco negará à vontade o papel de suporte de um juízo ético. The Addiction, filme que Abel Ferrara estreou em 1995, parece contradizer esta ideia. O mal existe de sermos fracos perante a sua presença. Isto é, uma vontade débil é o que permite a manifestação do mal nos nossos actos. A vontade pode pois ser o alicerce do único juízo ético que vale a pena tentar formular: não clames, age. Dito de outra forma: não te deixes dominar por aquilo que te domina. Ou ainda: procura na vontade o domínio certo da razão errada. É à razão que vamos buscar o mal, é nela que reside a consciência de todas as possibilidades que negamos no momento em que praticamos uma acção. Lili Taylor, a Kathleen Conklin do filme de Abel Ferrara, é uma estudante de filosofia atormentada por questões similares a estas. Ética, moral, justiça, desaguam sempre na forma de lidar com o mal. O filme começa com imagens de crimes de guerra, situações pavorosas perpetradas por soldados americanos. Em 1995 ainda não tínhamos os atentados terroristas ao World Trade Center, talvez o mais exemplar dos gestos maldosos. Que se compare, só mesmo a máquina de morte que foi a II Grande Guerra. Digo-o pelo que tiveram de puramente racional, matemático até. São esses os fantasmas que consomem a personagem central deste filme. Ferrara aproveita os mitos ancestrais do vampirismo, refaz a tradição, reconstrói a história do mal. O mal é o vírus que nos circula no sangue, transmitido por contaminação. A filosofia? Só mais uma máquina propagandística ao serviço dessa contaminação. Socorro-me de um Dicionário de Símbolos: «O vampiro simboliza o apetite de viver, que renasce cada vez que se julga estar saciado e que se esgota em satisfazer-se em vão, enquanto não for dominado». Não é outra a nossa história. O vampiro é a própria natureza do homem elevado ao nada que é, o homem negando-se a si próprio, o homem temendo-se, não querendo ver em si a morte que caminha. Estamos mortos e mais mortos estamos se o não sabemos. O medo de morrer é já a nossa morte. Poderá ser outro o nosso mal? Há muitas citações neste filme de Abel Ferrara: William Burroughs, Sartre, Heidegger, Feuerbach, Proust, Kierkegaard… Não sei se também por isso o não devamos considerar mais um tratado em imagens acerca do mal do que um mero filme de vampiros. A angústia existencial que o ameaça não lhe nega a intenção, isto na exacta medida em que o torna intemporal. Mesmo tendo em conta que existem épocas mais sem tempo do que outras. A que agora vivemos, quanto a mim, já tem tempo a mais.

terça-feira, 25 de julho de 2006

JERUSALÉM

Achei que tinha chegado a altura certa para ler Jerusalém, romance de Gonaçlo M. Tavares (n. 1970) galardoado com o Prémio Ler/Millenium-BCP. Não vou entrar em pormenores técnicos sobre a natureza do romance, nem sobre a forma circular que serviu à construção da narrativa. Também não me interessam as evocações, os diálogos mais ou menos declarados com outras obras. Prefiro ir direitinho à história de Theodor e Mylia Busbeck. Ele, médico e investigador de saúde mental, a braços com uma tese sobre a «distribuição do horror ao longo dos séculos»; ela, esquizofrénica, ex-paciente de Theodor, «saudável a nível físico e a nível espiritual», anormal «nas vontades». Divorciam-se depois de Mylia haver traído Theodor com Ernst Spengler, paciente do Hospício Georg Rosenberg, «à frente de outros doentes». Do adultério nasce «Kaas Busbeck, filho de Mylia e Ernst Spengler, mas formalmente registado como tendo por pai o doutor Theodor Busbeck» com quem vive. Percebemos estar implícito nesta trama um ímpeto alegórico que não compete aqui desconstruir, mas esse mesmo ímpeto acaba explicitado quando a única frase onde aparece o nome da cidade que dá título ao livro - «Se eu me esquecer de ti, Jerusalém, que seque a minha mão direita» (p. 170). – surge refeita 30 páginas depois: «Se eu me esquecer de ti, Georg Rosenberg, que seque a minha mão direita» (p. 200). Este paralelo traçado entre a cidade e o hospício pode não querer dizer nada, mas pode também querer dizer muito. A dimensão alegórica do romance de Gonaçlo M. Tavares é, quanto a mim, a sua evidente mais-valia, não tanto pelo que a mensagem acarrete de político como pelo que deixa supor de filosófico. O hospício, como a cidade santa, é o local onde se busca tratamento para a “alma”, não deixando de ser, pelas suas mais ou menos perceptíveis contrariedades, um local onde a “alma”, obrigada a uma normalidade que não é sua, ainda mais se afasta da sua natureza. Note-se como o director do Hospício Georg Rosenberg coloca o problema da loucura: «O doutor Gomperz possuía, assim, da loucura – embora não se atrevesse a expressá-lo – uma imagem associada à imoralidade: louco é o que age imoralmente e louco ainda é o que agindo moralmente pensa de modo imoral. A loucura seria, assim, uma pura falta de ética, momentânea, porventura, e portanto curável, ou definitiva, eterna, e portanto: incurável» (p. 107). À disciplina moral corresponderia, portanto, a normalidade. Deslocadas nos parecem as palavras do doutor Gomperz quando constatamos serem as mais inexplicáveis imoralidades praticadas em nome dessa normalidade, da mesma maneira que em nome dessa normalidade parecem querer justificar-se, tantas vezes, os gestos mais amorais. Vêm-nos à memória as teses de Arno Gruen, quando em A Loucura da Normalidade concluía ser o esforço por agradar aos que nos negam como pessoas «a força propulsora na vida». Mylia, aparentemente «desligada do seu interior», é ainda quem, pela dor, mais a ele está conectada: «Estar doente era uma forma de exercitar a resistência à dor ou a apetência para se aproximar de um deus qualquer» (p. 7). O medo diário, o terror ininterrupto, o horror, o perigo, que são já causa e consequência da doença não podem ser tratados senão pela resistência à total e absoluta desconexão com o Eu. Daí que para o final duas dores apareçam bem distinguidas: a dor má (do espírito), porque castiga a vontade de viver; a dor boa (do apetite), porque reforça a vontade de viver. Estou em crer que outro dilema não será o de Jerusalém. Do livro e da cidade.

sexta-feira, 21 de julho de 2006

DOIS LIVROS DA AVERNO


Após a edição de uma antologia de José Ángel Cilleruelo (n. 1960), a Averno propõe-nos agora um poema de José Mateos (n. 1963). Ambos traduzidos para português por Joaquim Manuel Magalhães, estes livros são, de certo modo, a confirmação de que alguma da poesia espanhola actual tem lugar nos escaparates das livrarias portuguesas. Ainda bem que assim é, pois de outro modo não nos seria possível um acesso tão facilitado a esta extraordinária névoa. Organizado em oito momentos, o longo poema de José Mateos é um notável exercício reflexivo sobre a vida. Não se julgue, precipitadamente, estarmos perante mais um compêndio de experiências quotidianas atravessadas pelo sentimento de ausência de sentido. Mais do que o sentido da vida, o que aqui se questiona é a vida ela mesma. A dúvida, como elemento essencial na dissecação desse mistério, é o fio condutor destes versos. O questionamento que ocorre ao longo do poema é, antes de mais, o magma da própria vida feita poema: «Quem sabe que mistério é uma vida / vertida num papel, letra por letra?» (p. 11) A dúvida não tem aqui o lugar de princípio ou método a partir do qual se acede à verdade, pois ela é a própria verdade. Uma verdade que é sempre névoa, mistério, sinal, indício. A segunda pessoa que se intromete na meditação é o sujeito poético interpelando-se, ao mesmo tempo que, dando ao leitor a possibilidade de assistir a essa interpelação, o interpela, criando um efeito de identificação através das questões profundamente humanas que levanta: «Sempre que algo finda, que alguém morre / e no silêncio te invade a fadiga, / teu ai rebelde reza a um Deus sem nome» (41). Mas este não é um Deus que se pense, inventado pela razão, este não é o Deus dos cartesianos, o Deus descrito nos livros. Este «é o Deus da fé, o Deus obscuro» (p. 43). É um Deus sempre misterioso e indecifrável, provavelmente o restante sinal que provém da debilidade limite do ser humano: a finitude. Poesia angustiada, esta não é uma poesia que negue radicalmente a esperança. Aponta a alegria e a vida, sem negar a amargura e a morte. No posfácio, Joaquim Manuel Magalhães fala de uma «elegia do humano que tem a morte como finalidade de saber» e de um «pressentimento do divino, pela dúvida do divino». Nem mais. O resto consubstancia-se numa das mais belas “definições” de poesia que li nos últimos anos: «Poesia é mostrar com a luz ténue / de poucas palavras, com o archote / de uma língua, pesem-nos as palavras, / a fundura que nos põe sem palavras» (p. 57). Bem diferentes são os trinta poemas, de Vítor Nogueira, que compõem o conjunto que dá pelo nome de Senhor Gouveia. Director do Teatro Municipal de Vila Real, casa de cultura que tem vindo a editar alguns livros de poesia de autores afectos à Averno, Vítor Nogueira narra-nos em verso as aventuras de um tal Senhor Gouveia nos idos da década de cinquenta. Aparecidos pela primeira vez na desapreciada Periférica, alguns destes poemas podem ser lidos como uma espécie de parábola, em registo irónico, de uma certa forma de se estar na vida – mormente, mas não só - literária. O tom procura ser castiço, aproximando-se ligeira e contidamente do picaresco. O retrato traçado do Senhor Gouveia, escrevinhador de sonetos e alugador de quartos, tipifica o lado mais provinciano de um Portugal demasiadamente entregue à compostura e à respeitabilidade, assim como parvamente burguês e arrivista. Passeando «o seu spleen provinciano» pelas «ruas desertas», este escrevinhador de versos desconforta apenas pela apavorante actualidade das preces: «Deus proteja / a língua de Camões de poetas sem qualidades» (p. 36). Enfim, não será de mais dizê-lo: Deus nos proteja a nós dos gouveias deste mundo.

sexta-feira, 14 de julho de 2006

UNFORGIVEN

Unforgiven 1992
Unforgiven
de Clint Eastwood
O «western» foi das melhores invenções do cinema norte-americano. Curiosamente, alguns dos meus filmes preferidos no género foram assinados por um realizador italiano de seu nome Sergio Leone. Lembro A Fistful of Dollars (1964), For a Few Dollars More (1965) e The Good, the Bad and the Ugly (1966). Apelidados de «spaghetti westerns», têm os três em comum Clint Eastwood como protagonista. O quanto estes filmes ajudaram a catapultar Eastwood como actor é hoje parte da história do cinema, assim como o forte contributo que terão dado à formação de um dos mais interessantes realizadores de sempre. Na filmografia de Clint Eastwood encontramos três «westerns» muito bons: The Outlaw Josey Wales (1976), Pale Rider (1985) e Unforgiven (1992). Aspecto comum aos três, poucas vezes referido, é a quase ausência de índios. Podia tratar-se de um pormenor de somenos importância, não fosse o caso de em todos eles os índios aparecerem em breves momentos aparentemente irrelevantes. Contudo, os índios estão lá. À excepção de The Outlaw Josey Wales, onde um antigo chefe Cherokee intervém na narrativa com alguma consistência, sabemos que os índios que aparecem fugazmente são índios porque nos é permitido identificá-los através de meros pormenores físicos. A verdade é que todos os nativos estão representados nestes filmes em personagens aculturadas. Em Unforgiven vemos um índio vestido de «cowboy» numa carruagem de comboio, sentado ao lado de outros «cowboys» dos quais apenas se distingue pelas tranças, e a mulher de um dos personagens fundamentais – o negro Ned Logan, soberbamente interpretado por Morgan Freeman – é índia. Assim se retrata, de forma subtilmente magistral, um território estigmatizado pela extirpação da sua identidade. Não se trata já de interrogar os efeitos da chegada dos europeus à América do Norte, as guerras, os genocídios, as deslocações forçadas, as epidemias que levaram, em 400 anos, a um declínio na ordem dos 6 milhões de população índia naquele território. Trata-se antes de reflectir os alicerces desapiedados de uma nação e um certo senso de justiça, tão particular por aquelas bandas. Unforgiven é, a esse título, um filme de génio. Com um elenco de luxo, entre os quais se destacam o acima referido Morgan Freeman, Gene Hackman (lembram-se dele em The Hunting Party, «western» dirigido por Don Medford em 1971?) e Richard Harris, o que Clint Eastwood nos propõe neste filme é uma jornada pelos dilemas morais da humanidade. William ‘Bill’ Munny encarna a natureza do mal (adormecida) na alma de um homem que, havendo cometido as maiores atrocidades, se entregou à paz da vida doméstica convertido pelo amor da sua falecida mulher. Basta um motivo para que esse mal adormecido desperte, algo imperdoável que justifique o pecado. O desconforto é inevitável, já que no final torna-se-nos impossível não estar do lado da vingança. De certa forma, é quase um alívio ver Little Bill Daggett, representação de uma justiça podre e hipócrita, ser assassinado de forma brutal no termo do filme. Porque aquele exercício de vingança não é um gesto desprovido de sentido. A justiça ali baleada é a mesma que a troco de meia dúzia de cavalos justificou o rosto esfaqueado de uma prostituta, é a mesma cuja impiedade rimava com a vaidade e a soberba dos que a impunham. De certa forma, é a mesma justiça que no séc. XVIII distribuiu aos índios mantas contaminadas com sarampo provocando, dessa maneira, a morte de milhares de nativos. Com Unforgiven não só o «western» sai homenageado, como também a justiça acaba relativizada. Pode o mal ser adormecido, pode a consciência moral de cada um ser narcotizada pelos desígnios do senhor. Não pode a natureza de um homem, como uma cicatriz, apagar-se enquanto ele for vivo, não pode a justiça confundir-se com o bem ou com a moral.

quinta-feira, 13 de julho de 2006

NEGRUME

O mais recente livro de poemas de Amadeu Baptista (n. 1953) intitula-se Negrume e chega-nos com a mais que credível chancela da & etc. Autor de uma vasta obra, iniciada na década de 1980, cuja desatenção a que tem sido sujeita só se justifica pela incúria e pela preguiça de quem a podia divulgar, Amadeu Baptista é autor de uma poesia, segundo António Cabrita, que «vive da tensão entre aquilo que descreve e o que a linguagem exuma» (Expresso, 10 de Janeiro de 2004). Do mesmo António Cabrita é a epígrafe que abre a segunda de três sequências deste livro, aquela que deu nome à recolha. Diz o seguinte: «Onde se lê coração ler errata». Vem pois desse erro o negrume que tudo tinge nestes poemas feitos de desencanto e de melancolia. Em cada uma das sequências, o que a treva permite vislumbrar é a espessura da amargura e o tormento de quem se sente afectado pelos «efeitos colaterais do mundo» (p. 49). Por intermédio do sujeito poético, acaba por ser esse mundo o que mais se evidencia no imo dos versos. Não se trata, portanto, de uma poesia confessional, nem mesmo descritiva quando assim possa parecer, esta onde o poeta e as vivências do poeta, as suas memórias, as angústias e a solidão, se transformam numa espécie de médium do mal-estar contemporâneo. Na primeira sequência, As Danações, a palavra doença sobrepõe-se a tudo. Partindo de uma citação de Rilke, Amadeu Baptista escreve 29 poemas, em forma de soneto, que podem ser lidos como um só a um ritmo avassalador. Ao mote acopla-se uma adjectivação torrencial, imprimindo à sequência uma dinâmica de leitura raramente conseguida. O efeito produzido é o de uma espécie de frenética catarse discursiva, onde a doença vai sendo descrita nas suas múltiplas formas. É a doença do mal, diabolicamente metamorfoseada, tomando, como diz a epígrafe de Rilke, «as particularidades daqueles que ataca». O poeta chama-lhe danação, fala em «coma profundo», «afasia», «convalescença», «recaídas várias», «derrames cerebrais», «peste», «revoltadas células», etc. Mas esta não é uma doença do corpo, se ao corpo insistirmos apor a alma. Esta é uma doença total, absoluta, «uma nova dimensão do real» (p. 17) que se pega a esse corpo integral e não cessa. É também uma doença reveladora: «afinal, / o mal não é a morte, mas sentir» (p. 19). No fundo, é deste sentir que se trata. A danação do poeta é sentir, é estar condenado a sentir, é não lhe ser possível esse grau de abstracção que tudo torna indiferente. A danação do poeta é estar no epicentro do mundo, asfixiado pela implacabilidade do mal que lhe penetra os poros sem pedir licença: «uma doença infecta, provocada / por balas tracejantes e episódios / retirados do acaso» (p. 20). A segunda sequência traz o medo à liça, as aflições e as dores pessoais. A linguagem sofre aqui uma espécie de descompressão, recorrendo o poeta por vezes a "termos mais vulgares": cona, fodido, caralho, puta. Mantém-se o tom destroçado, a tristeza em posto de comando, as aparentes contradições que inflamam a poesia: «tudo lamento, sem que lamente nada» (p. 44). Quer nesta quer na derradeira sequências, As Recriminações, a palavra morte assombra os poemas. Por vezes, em sentido dúbio; outras vezes, através dos fantasmas do suicídio, da viuvez, da perda. Surgem as memórias, a infância como tema, o pai, a mãe, os irmãos, Miragaia, o Rio Douro, mas sempre num tom que recusa o óbvio e logra equilibrar de forma primorosa o dentro e o fora de quem escreve: «Deus não está em toda a parte como meu pai,/ se Deus houvesse // explicar-se-ia a sucata,/ o esgoto a céu aberto,/ a imperfeição fidedigna de quem/ // dorme na rua por não ter milagre a que acolher-se» (p. 93). Para mim, o melhor livro de poesia portuguesa deste primeiro semestre de 2006. Não há o que desculpe passar-se ao lado de um livro destes.

sexta-feira, 7 de julho de 2006

LADRÕES DE BICICLETAS

Vittorio de Sica, Ladrões de Bicicletas
Ladrões de Bicicletas
de Vittorio de Sica

Na história do cinema mundial, o neo-realismo italiano apareceu como uma das correntes mais lancinantes do pós-guerra. Este tipo de classificações, como sabemos, pode prejudicar o olhar sobre uma obra. Não sendo especial adepto de ismos, prefiro esforçar-me por uma perspectiva atenta ao que num produto artístico haja de mais singular. A verdade é que existem certas obras que, para o bem e para o mal, acabam por se constituir como alicerces a partir dos quais atribuímos significado a um conceito. Ladrões de Bicicletas, estreado em 1948, é um desses exemplos que contribuiu, com o passar dos anos, para que o conceito de neo-realismo tivesse alguma consistência. Diz-se hoje ter sido essa uma escola datada, marcada pelo comprometimento político, resistindo à mediocridade das obras mais comerciais e, por consequência dessa postura, recorrendo a meios que tivessem sobretudo em atenção a mensagem que se pretendia fazer passar. Optava-se pela força da mensagem em detrimento do adereço. Não se julgue porém que este cinema prescindia dos seus ornamentos estéticos, podendo mesmo a sua ausência ser considerada uma mais valia ao serviço da tal mensagem. Assim, tanto a ausência de caracterização como um aparente desleixo na fotografia, podem hoje ser interpretados como ornamentos outros com propósitos muito específicos. Em Ladrões de Bicicletas tudo isso é primorosamente trabalhado em torno de uma história onde paira o fantasma do desemprego. Chegamos ao universal, ao sem tempo, ao intemporal. Em nada pode este filme ser considerado datado, se nos atentarmos ao que nele se vislumbra de mais trágico: a solidão dos homens num mundo onde a política é a do «salve-se quem puder». O problema do desemprego surge como excelente pretexto para se pensar essa condição última de: ser homem numa sociedade moderna. Mais que a pobreza física, o que ressalta neste filme é o desespero e a humilhação que advêm dessa mesma pobreza. Neste sentido, os desempregados de ontem não serão diferentes dos desempregados de hoje. Talvez já não necessitem de uma bicicleta para manterem um emprego, mas esse é apenas um pormenor narrativo que não esgota o alcance do filme. Um dos aspectos que sempre me impressiona neste filme é a frieza com que o italiano Vittorio de Sica aborda a questão. Os ladrões de bicicletas são pobres que roubam pobres, gente que em desespero se desune, se trai, se nega. Neste filme, o maior inimigo do pobre só é a pobreza na medida em que coloca os homens uns contra os outros. Ou seja, a verdadeira pobreza é a ausência de solidariedade, a solidão e o isolamento a que fica condenado aquele que já não pode esperar nada de ninguém. Como se a pobreza transformasse a confiança num inimigo. Num tempo de arrivismos insidiosos, faz todo o sentido continuar a rever uma obra assim. O problema hoje, mormente num dos mais pequenos e pobres países da Europa, não é outro senão o da desunião entre os que nada têm. Essa desunião que parte amiúde da perversidade com que os fortes metem os fracos a enxotarem-se uns aos outros. A mais intragável miséria de todas, creio, é essa. Pois só essa nos condena a sermos um nada absoluto.

quinta-feira, 6 de julho de 2006

ZONA DE PERDA

zona de perda - livro de albas é o sexto livro de poesia de Pedro Sena-Lino (n. 1977) e o primeiro para a Objecto Cardíaco, cuja colecção «aorta» conta já com três transferências de peso do catálogo das Quasi Edições: valter hugo mãe, ex-editor das Quasi e actual editor da Objecto Cardíaco, Jorge Melícias e o próprio Pedro Sena-Lino. Nas Quasi, tinha o crítico do suplemento Mil Folhas publicado biofagia (2003) e deste lado da morte ninguém responde (2005). Este último, quanto a mim, o melhor dos seus livros. O que havia de bom nesse livro, tenta o poeta manter no presente volume. Mas se em deste lado da morte ninguém responde os poemas transpiravam o desassossego da morte com impressionante transparência, o mesmo apenas acontece a espaços em zona de perda – livro de albas. Ambos os livros são feitos da mesma matéria, um modo muito íntimo de "vivenciar" a morte, a perda, o fim. O complexo lexical mantém-se inalterado, conferindo a estes livros um carácter de obra raramente observado com tanta consistência na poesia portuguesa mais actual. Palavras como «morte», «corpo», «noite», «Deus», «janela», «árvore», são recorrentes nestes versos. Assim como o envio para uma interioridade que pode ocorrer em modos diversos: «chegaste tão de dentro de mim mesmo» (p. 12), «sabia como dói a água / que se nasce dentro» (p. 15), «espero-te dentro de mim» (p. 19), «ninguém se levanta dentro do seu próprio coração» (p. 20) ou «da minha janela não se vê mais nada / ouve-se o silêncio contra mim / e chove a morte contra os vidros / por dentro como soa o fim» (p. 32). Acontece que esta vocação lírica, quanto a mim tão legítima quanto outra qualquer, é por vezes prejudicada por formatos já gastos e, por isso, algo entediantes. Se o livro anterior de Pedro Sena-Lino ganhava com uma clara e obsessiva concentração do discurso numa imagem poética – a da morte crescendo sobre o corpo -, este tomo mais recente perde-se em imagens que se sobrepõem umas às outras. Resulta o facto num exercício competente da linguagem, mas numa poesia demasiado afectada pelos ornamentos discursivos. Digamos que algumas destas estrofes são como peças de fruta luzidias mas de qualidade duvidosa: «não havia fim as sombras intercalavam sombras / os abismos circulavam em sangue pelas árvores / estrelas choviam a terra / eu era como Deus / quando vê nascer de si o amor que o recria / tão feridamente omnipotente» (p. 16). Um pouco mais à frente, no mesmo poema: «ardiam cidades no meu sono / enquanto o teu corpo inundava catedrais esmagadas / uma mentira atravessou o meu corpo / do ventre de minha mãe à ardida poeira da terra / o mar queimou o mar / e nada passou a ser tudo» (p. 17). Não está aqui em causa a beleza destes versos, muito menos a competência de quem os escreveu. Interrogo-me apenas sobre os mecanismos que estiveram na origem dos mesmos. Sendo o corpo lugar de inscrição por excelência, estes poemas pecam por serem apenas de um lado do corpo: o lado de dentro. As inquietações que denotam são constantemente aquietadas pela procura do efeito estético, do verso perfeito, da beleza delico-doce: «queria morrer contigo / não queria morrer de ti» (p. 26). Há, sem dúvida, uma dimensão metafórica nesta poesia que a coloca entre as melhores do género na sua geração. O que a torna menos cativante neste livro não é tanto a criatividade com que o poeta a impõe, mas antes a tonalidade que a mesma adquire na forma como é conduzida.

terça-feira, 4 de julho de 2006

LER 68

Decepcionante é o que merece ser dito sobre o primeiro número anual da revista LER. Assinante da mesma há quase dez anos, não deixa de ser com pesar que o afirmo. A LER desapareceu, não há mais LER. Não faz sentido manter o mesmo formato com intenções bem mais exigentes: balancete de um ano de actividade literária. Os balanços não se fazem assim. Pelo menos, enquanto leitor, não me interessam balanços destes. Sobre o essencial, já outros disseram o que eu poderia dizer. Atenho-me à poesia. Eduardo Pitta, a quem devo, por culpa de O Som & O Sentido, fortes estímulos à leitura de poesia, esforça-se por disfarçar o incómodo lembrando o óbvio: «Qualquer balanço que se preze traduz uma escolha». No entanto, ainda que traduzindo uma escolha, não é um balanço que se preze aquele levado a cabo no n.º 68 da LER. O facto de nenhum dos títulos referidos ter sido comentado anteriormente no mesmo espaço, também não desculpa a pobreza da selecção e as lacunas imperdoáveis. Dos dez livros escolhidos, cinco são antologias ou reuniões de obra: Os Pré-Rafaelitas (trad. Helena Barbas), Os Poemas, de Konstandinos Kavafis (trad. Joaquim Manuel Magalhães), Antologia, de Wallace Stevens (trad. Maria Andresen de Sousa), Cântico Negro, de José Régio (orgs. Luís Adriano Carlos e valter hugo mãe), Poesia Reunida 1990-2005, de Ana Luísa Amaral. Quanto à qualidade dos mesmos, nada a dizer. Acresce que as restantes opções acabam por negligenciar sobremaneira os originais de 2005, deixando no ar a ideia de que em 2005 nada de novo aconteceu. Senão veja-se: Sete Livros Iluminados, de William Blake (trad. Manuel Portela), O Homem da Viola Azul, de Wallace Stevens (trad. Maria Adelaide Ramos), Laoconte, Rimas Várias, Andamentos Graves, de Vasco Graça Moura, A Cidade e os Livros, de António Cícero, Mútuo Consentimento, de Helder Moura Pereira. Sem querer menosprezar a qualidade das traduções, das obras reunidas, das antologias, até mesmo das inclinações idiossincráticas do crítico, inquieta-me que seja esta a imagem a passar de "um 2005 poético". Há muitos outros livros de qualidade indubitável que, sendo mais ou menos do nosso agrado, não podem ser negligenciados em prol de uma poesia que já tem o seu lugar reservado na história. Seria assim tão arriscado mencionar Os Fantasmas Inquilinos, de Daniel Jonas, Falsa Partida, de Fernando Luís Sampaio, Logros Consentidos, de Inês Lourenço, Lacrimatória, de Jaime Rocha, Requiem, de Jorge Gomes Miranda, Movimentos no Escuro, de José Miguel Silva, A Ordem do Mundo, de Rui Coias, ou mesmo A Nuvem Prateada das Pessoas Graves, do Rui Costa? Estes são apenas alguns exemplos de livros de 2005 que convinha não esquecer, ao lado de outros cuja memória é já uma garantia. E porque estou com a mão na massa, deixem-me confessar-vos que julgo mesmo inadmissível o ostracismo a que tem sido condenado o livro do Rui Costa. Aquando da emissão do programa Livro Aberto dedicado aos melhores livros de 2005, segundo lista resultante de votação online, senti que algo não estava bem. Sinto-me à-vontade para dizê-lo, dado não ter votado na tal lista, prevendo até resultados risíveis que teriam na sua origem os “particularismos das relações online”. Seja como for, e a ideia não foi minha, o livro do Rui lá estava entre os três mais votados. Pedro Mexia brincou com a situação, fazendo chalaça sobre o assunto. Qualquer coisa do género: Eliot e Costa, a mesma selecção. Pitta limitou-se a dizer que não sabia quem era o senhor Costa. Ninguém esperava, ninguém espera, que se saiba quem é o senhor Costa. Apenas se exigia alguma curiosidade acerca do livro, para mais vencedor da primeira edição de um prémio atribuído por uma editora que ninguém naquela mesa desconhecia. A verdade é que passaram seis meses, os balanços estão feitos e para a história de 2005 nem esse nem outros livros contarão. Pelo menos para a história de hoje. Que a história do amanhã, só o tempo dirá.