quinta-feira, 13 de julho de 2006

NEGRUME

O mais recente livro de poemas de Amadeu Baptista (n. 1953) intitula-se Negrume e chega-nos com a mais que credível chancela da & etc. Autor de uma vasta obra, iniciada na década de 1980, cuja desatenção a que tem sido sujeita só se justifica pela incúria e pela preguiça de quem a podia divulgar, Amadeu Baptista é autor de uma poesia, segundo António Cabrita, que «vive da tensão entre aquilo que descreve e o que a linguagem exuma» (Expresso, 10 de Janeiro de 2004). Do mesmo António Cabrita é a epígrafe que abre a segunda de três sequências deste livro, aquela que deu nome à recolha. Diz o seguinte: «Onde se lê coração ler errata». Vem pois desse erro o negrume que tudo tinge nestes poemas feitos de desencanto e de melancolia. Em cada uma das sequências, o que a treva permite vislumbrar é a espessura da amargura e o tormento de quem se sente afectado pelos «efeitos colaterais do mundo» (p. 49). Por intermédio do sujeito poético, acaba por ser esse mundo o que mais se evidencia no imo dos versos. Não se trata, portanto, de uma poesia confessional, nem mesmo descritiva quando assim possa parecer, esta onde o poeta e as vivências do poeta, as suas memórias, as angústias e a solidão, se transformam numa espécie de médium do mal-estar contemporâneo. Na primeira sequência, As Danações, a palavra doença sobrepõe-se a tudo. Partindo de uma citação de Rilke, Amadeu Baptista escreve 29 poemas, em forma de soneto, que podem ser lidos como um só a um ritmo avassalador. Ao mote acopla-se uma adjectivação torrencial, imprimindo à sequência uma dinâmica de leitura raramente conseguida. O efeito produzido é o de uma espécie de frenética catarse discursiva, onde a doença vai sendo descrita nas suas múltiplas formas. É a doença do mal, diabolicamente metamorfoseada, tomando, como diz a epígrafe de Rilke, «as particularidades daqueles que ataca». O poeta chama-lhe danação, fala em «coma profundo», «afasia», «convalescença», «recaídas várias», «derrames cerebrais», «peste», «revoltadas células», etc. Mas esta não é uma doença do corpo, se ao corpo insistirmos apor a alma. Esta é uma doença total, absoluta, «uma nova dimensão do real» (p. 17) que se pega a esse corpo integral e não cessa. É também uma doença reveladora: «afinal, / o mal não é a morte, mas sentir» (p. 19). No fundo, é deste sentir que se trata. A danação do poeta é sentir, é estar condenado a sentir, é não lhe ser possível esse grau de abstracção que tudo torna indiferente. A danação do poeta é estar no epicentro do mundo, asfixiado pela implacabilidade do mal que lhe penetra os poros sem pedir licença: «uma doença infecta, provocada / por balas tracejantes e episódios / retirados do acaso» (p. 20). A segunda sequência traz o medo à liça, as aflições e as dores pessoais. A linguagem sofre aqui uma espécie de descompressão, recorrendo o poeta por vezes a "termos mais vulgares": cona, fodido, caralho, puta. Mantém-se o tom destroçado, a tristeza em posto de comando, as aparentes contradições que inflamam a poesia: «tudo lamento, sem que lamente nada» (p. 44). Quer nesta quer na derradeira sequências, As Recriminações, a palavra morte assombra os poemas. Por vezes, em sentido dúbio; outras vezes, através dos fantasmas do suicídio, da viuvez, da perda. Surgem as memórias, a infância como tema, o pai, a mãe, os irmãos, Miragaia, o Rio Douro, mas sempre num tom que recusa o óbvio e logra equilibrar de forma primorosa o dentro e o fora de quem escreve: «Deus não está em toda a parte como meu pai,/ se Deus houvesse // explicar-se-ia a sucata,/ o esgoto a céu aberto,/ a imperfeição fidedigna de quem/ // dorme na rua por não ter milagre a que acolher-se» (p. 93). Para mim, o melhor livro de poesia portuguesa deste primeiro semestre de 2006. Não há o que desculpe passar-se ao lado de um livro destes.

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