quinta-feira, 14 de setembro de 2006

EL

O ciúme é uma das facetas tenebrosas, mas ao mesmo tempo das mais fascinantes, do complexo mundo da paixão. Por ciúme, homens e mulheres assassinam, suicidam-se, enlouquecem. O ciúme denuncia-nos o medo, a insegurança, o desejo de poder que advém do facto de ansiarmos um certo domínio sobre o outro. Talvez por isso tenhamos tanta dificuldade em assumir o ciúme. A psicanálise ensinou-nos que, em determinados casos, o amor confunde-se com a posse do outro. Dessa possessividade surde uma certa ilusão de poder que muitas vezes serve para dissimular um íntimo sentimento de desamparo, raramente admitido. Buñuel sintetizou em El toda uma série de questões sobre a problemática do ciúme. Dos mitos do amor ao mito da família, passando pelo peso das convenções religiosas sobre o assunto; a subjugação a que a mulher se vê obrigada, até ao limite suportável da loucura de um marido violentamente paranóico; o próprio auto-desprezo intrínseco ao ciúme, como luta inconsciente entre a opressão das normas e um desejo emergente de ruptura com a normalidade. Tudo isso e muito mais será o ciúme. Na verdade, julgo que não há ciúme sem amor. Talvez o ciúme já não seja amor, talvez seja o amor transformado em obsessão, doença, pretexto até de uma necessidade de dominação. Talvez o ciúme seja a ponte que liga o amor ao poder. Mas dificilmente o conseguimos conceber sem amor. Como quer que optemos por nos ligar a alguém, o ciúme fará sempre parte dessa ligação. É tão inevitável quanto o desejo. Vivo em união de facto porque nunca acreditei no casamento. Sempre preferi a ideia de “duas vidas a um” à ideia de “uma vida a dois”. Prescindir da individualidade em nome de uma unidade convencional, e por isso artificial, parece-me demasiado arriscado. Sei de casamentos que duram o tempo de várias pilhas “duracel”. As pessoas arrastam-se em concessões, negam-se a si próprias, estafam-se com as coisas comezinhas do lar em nome de uma ideia de amor que, perdoem-me, não me convence. O amor não é para contratos. O amor é ciumento, não há contrato que lhe valha. Este é, para mim, um axioma definitivo. A vida de um casal exige disponibilidade, confiança, paciência para, entre outras coisas, aprender a lidar com o ciúme. Em suma, não é nada fácil. Mas exige mormente um abraço radical entre a paixão e a amizade, ou seja, amor. Perguntar-me-ão: mas qual a diferença entre o casamento e a união de facto? Para a maior parte das pessoas não haverá diferença alguma. Para mim há. Começa, desde logo, na forma de encarar a união. O casamento é como um poema sujeito às regras da métrica. A união de facto é em verso livre.

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