tinha o dom de esperar. Enroscava-se triste, em banhos de calor, e esperava. Foi esculpindo nos ossos a saudade, caminhou cabisbaixo na direcção do céu azul. O cão tinha uma alma que lhe doía de passado, de abandono e, numa esperança inarrável de cão, esperaria sempre, até que lhe voltassem a passar a mão pelo pêlo das orelhas. Certo dia chegou-lhe a desilusão. Abatido pelo tempo de espera, pela ausência, ergueu-se no sentido da falta. O cão ainda vive, abatido, é certo, mas vive. Vive entre dois jardins de barro onde, entretanto, no tempo que passou, cresceram limoeiros. Assim o quero pensar. Continua só, abatido, mas já não espera. Porque o tempo escasseia para tudo o que perdeu, o cão caminha em busca do nada. Procura, esgravata, cava na terra que pisa as pegadas que lhe trarão de volta os ossos. O cão tem o dom.
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