segunda-feira, 19 de fevereiro de 2007

LA CHUTE DES COURSES

Em 1998 fiquei especado durante largos minutos a olhar La Chute des Courses, uma obra monumental de Arman que consiste numa série de carrinhos de supermercado encaixados uns nos outros. É apenas um exemplo das famosas Acumulações do artista belga, conhecido também por transformar o lixo em arte e, segundo alguns especialistas na matéria, a arte em lixo. Arman é geralmente associado ao manifesto dos Nouveaux Réalistes, os quais se entretinham, entre outras coisas, a desconstruir os símbolos da sociedade de consumo, quando não a destrui-los, ou a empilhá-los sob o tecto de uma contextualização artística que unia a ideia de jogo à de provocação sociopolítica. Os carrinhos de supermercado são, por excelência, um símbolo de uma sociedade organizada em torno do valor do consumo. Nos trabalhos de Arman encontramos esse valor satirizado e exaustivamente representado em metáforas da produção em série e do desperdício. Enquanto fruidores de arte somos colocados perante o paradoxo da reavaliação dos objectos. Ou seja, o que em certo contexto não passaria de lixo passa a ser arte. O lixo, assim transformado num objecto artístico, readquire um valor que é já consequência da mesma sociedade que o produziu enquanto tal. Basicamente, Arman diz-nos que nós, os consumidores, somos as máquinas de produzir o lixo que ele transforma em arte, somos máquinas de produzir (arte) para consumir (arte). Nós podemos questionar o valor estético destas produções, mas não consigo imaginar um qualquer cidadão minimamente informado acerca do trabalho de Arman a rejeitar um dos seus Caixotes de Lixo. Imaginemos, no entanto, a possibilidade de um desses Caixotes ser oferendado a alguém que nunca tenha ouvido falar de Arman. Será que essa pessoa aceitaria, sem mácula, uma cuba em vidro cheia de resíduos? Conseguirão as pessoas ver resquícios de arte nos caixotes do lixo que têm, neste preciso momento, em suas casas? As questões frequentemente levantadas sobre o poder da teoria de arte levam-me a pensar que, fosse qual fosse a resposta às minhas dúvidas, isso não importaria minimamente para a definição do que é ou deixa de ser arte. Mas também não é isso, confesso, o que mais me interessa. Estou muito mais preocupado, actualmente, com a indiferença com que a arte é hoje olhada, seja ela mais ou menos violenta nos seus pressupostos. O espanto que me levou a ficar especado durante largos minutos perante La Chute des Courses, provavelmente, não é diferente do espanto com que a maioria dos meus alunos fica hoje a olhar, durante largas horas, as inúmeras fotografias publicadas no Hi5. O que me espanta é que ninguém se espante com isso, contribuindo, dessa forma, para algo que também já era denunciado nas obras desses artistas: a reprodução em massa de ausências, a vacuidade que convém a uma sociedade onde praticamente todos se tornam escravos dos desejos mais frugais. Essa é uma sociedade onde o artista tem um papel meramente ornamental, é a sociedade da razoabilidade, a mesma para quem 50, 100 ou 150 mortos por dia no Iraque é apenas notícia de telejornal, é a sociedade que assiste serenamente ao cortejo de carreiras administrativas corruptas fazendo disso primeira página no jornal e assunto de café mas pouco mais, é uma sociedade, em suma, que não se indigna, que não se impacienta, amorfa, absorvida pelo corriqueiro, inimiga da excepcionalidade. Em suma, é uma sociedade embrulhada, como numa obra de Christo, no manto branco da desmemória, no manto aflitivo da apatia.

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