sábado, 29 de setembro de 2007

ONLY YOU

Não são as coisas nem os outros, somos nós e as nossas indecisões, os impasses, apenas ninguém de quem nos rodeia dar por isso, reparar, entender, nós e os outros separados por linguagens diversas, incomunicáveis, impartilháveis, eu aqui e tu longe, algures sentada comigo no pensamento, eu aqui sentado contigo no pensamento, dando à luz sombras que jamais entenderás, nubladas hesitações, inseguro nesta cadeira, recostado nos pensamentos, a imaginar os dias que virão.

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

MANUAL DO DESEMPREGADO

Há livros com vírgulas a mais, sintaxes duvidosas, gralhas, erros ortográficos irritantes, rimas óbvias, que conseguem o que outros, imaculadamente escritos e revistos, jamais hão-de conseguir: desconfortar-nos. Não que esse desconforto venha das nódoas gramaticais e das lambuzadelas semânticas, essas a gente desculpa nos contextos em que são desculpáveis. Dir-me-ão não existirem tais contextos. Discordo. Por isso mesmo soa mal, em certos antros, falar como se se estivesse em colóquio. Que me perdoem as freiras da língua pátria, mas durante a cópula um homem fode ou é fodido, não faz amor. E a um bêbedo não se exige que acerte o passo. Pois bem, há livros que são da foda e da bebedeira, livros que acontecem como um acto de expurgação, livros tão derrisórios quanto revoltantes, na medida em que revoltante é a própria matéria da qual são feitos. Conhecem algum livro assim? O Manual do desempregado, de Liberato, não será um desses livros, mas anda lá perto. Trata-se de um pequeno volume de 47 páginas, publicado pelas Edições Mortas em ano que apenas editor e autor saberão. O Depósito Legal é /05, o lançamento parece ter ocorrido em Fevereiro de 2007. Abre com um poema, que diremos visual, intitulado Dados do INE. Por baixo de um desses dados do INE – «Os Fumadores desempregados / são os que mais fumam» – a imagem de um maço de tabaco da marca Marlboro com o seguinte aviso: «O desemprego pode provocar morte lenta e dolorosa» (p. 5). Liberato ataca assim o mal do século, a peste que muitos contaminou e outros tantos ameaça contaminar, ataca a peste com ironia, mas uma ironia que não é senão a velha forma de disfarçar as pústulas provocadas pela peste, de tratar a febre provocada pela infecção. Quando digo tratar não quero dizer curar, que a peste não tem cura, a peste é uma morte que se adia com o riso, que se denuncia com o riso, que se acusa com o riso, o riso sardónico e delirante dos infectados. É por isso que os poemas deste Manual do desempregado resultam num delirante e pestilento riso, o riso de quem se entrega à loucura de outra coisa não poder fazer que não seja rir, rir de si próprio e dos outros, rir do mundo, rir em gargalhadas que cospem a saliva pestífera do subsídio social, do rendimento mínimo, da vacuidade do discurso político, dos Centros de Emprego, dos Centros de Reconhecimento, Validação e Certificação de Competências, da burocracia dos centros, das designações burocráticas dos centros, das estatísticas, dos envelopes e dos postais RSF do IEFP, da formação profissional. É neste cenário kafkiano, beckettiano, absurdo, que o desempregado aprende, ou não, a sobreviver. É neste cenário que a sobrevivência se transforma no emprego do desempregado: «Que o desemprego, ele é um pecado que parece bruxedo, / tem é que se lhe dar conta do recado, para não se ter medo» (p. 47). Pelo que o melhor será mesmo chutar umas rimas, fumar uns cigarros, observar as miúdas na Biblioteca Municipal, passar os olhos pela televisão. Entre referências a Vieira da Silva, Gorki, Brecht, Cavaco Silva, Álvaro de Campos, James Dean, Marlon Brando e Montegomery Cliff, filmes de Rainer Werner Fassbinder, Figo, Liszt, Sérgio Godinho, Freud, Liberato passa para o poema o tempo, o seu tempo, como quem espreme uma borbulha para a página. Neste manual não se encontram soluções nem se sugerem caminhos, neste manual encontra-se apenas o registo de uma aprendizagem dolorosa, a lembrar, no seu tom geral, a comédia de um Nani Moretti, uma comédia auto-biográfica, eivada daquela tragédia que certas dentaduras melancólicas espelham por detrás do riso.

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

NENHUMA PALAVRA NOS SALVA

A pena de Rute Mota (n. 1980) pousa leve sobre a página, é cuidadosa ao rasgar o branco da folha, não procura tanto a ferida como parece procurar um certo silêncio que, paradoxo inexorável, acaba sempre traído pelo ruído da palavra. Daí o título Nenhuma Palavra Nos Salva me pareça tão congruente com a escrita praticada neste pequeno volume como instigador de algumas dúvidas sobre as quais sabe bem especular. Afinal, nenhuma palavra nos salva de quê? De que precisamos ser salvos? Qual o sentido que a salvação assume num contexto poético? O que é a salvação? Estaremos irremediavelmente condenados, como dizia o Camus de A Queda, a uma inocência apenas justificável pela infelicidade? Teremos nós perdido "a luz, as manhãs, a santa inocência daquele que se perdoa a si mesmo"? Talvez o plano em que a questão aqui deva ser colocada não seja o plano existencial, talvez a palavra que não nos salva remeta antes para um (des)equilíbrio mais peculiar, afecto ao sujeito poético, às angústias do sujeito poético, às suas necessidades e fragilidades singulares. Neste sentido, há palavras que se impõem mais que as outras nos quatro conjuntos que compõem o livro de Rute Mota. No primeiro, com o título Um lugar na incerteza, é a palavra amor que nos surge mais evidenciada. «Vou erguer o meu amor do nada / e cantá-lo ainda assim / - não há coisa mais cantável / que o que do nada vem» (p. 8) – diz a autora. Mas este amor não é um amor concretizado, é um amor que se esconde por detrás de jogos de palavras onde ecoa a solidão, é um amor adiado, buscado, algo ainda por cumprir. É um amor interceptado pelo silêncio, tanto quanto o silêncio possa ser aquilo que mais se ama. Gera-se, deste modo, uma interessante ambiguidade na poesia de Rute Mota. A sua natureza epigramática, muito próxima da poesia dita oriental, como que confere ao poema uma espécie de carácter salvífico gorado à partida. Ou seja, estando ciente de que nenhuma palavra nos salva, a autora não ousa prescindir da palavra «para não cair do mundo» (p. 27), na medida em que é a palavra o que mais contradiz o tal silêncio que intercepta o amor, tanto quanto esse silêncio possa ser aquilo que mais se ama. Em Um Pássaro no Lugar do Coração, o segundo conjunto, a natureza vem ocupar o lugar dos afectos, que é também o lugar do belo e do amor. Esta natureza surge na forma do vento, de um pássaro, de flores, na forma dos pinheiros. Mas é ainda o amor quem apela: «Do que resta, aos poucos, / o pássaro bicando - // pudesse ele firmar o propósito / de amar nunca mais // e voar depois» (p. 54). Cabe relevar a extrema beleza e simplicidade de alguns destes pequeníssimos poemas, os quais denotam uma mão tão frágil quanto dominadora na sua concepção. Atentemo-nos, a título de exemplo, a este poema do conjunto intitulado Época de Caça: «Um corpo fazendo deserto de outro corpo / com suas pedras, seus oásis, suas vastas areias / um corpo à beira de outro corpo / deserto frente a deserto / um nómada fazendo chão de outro nómada / areias que sempre em movimento permanecem / como inexpugnáveis / inexpugnável corpo a conhecer. // Um corpo medindo outro corpo / como a temperatura de um deserto, suas riquezas / seu início, textura de areia em movimento: / quantas pedras, quantos cactos / quantas violências e mansidões que eu possa beber?» (p. 64) A linguagem que se adensa nestes versos é a linguagem de um amor tornado eros, carne, sangue, corpo. Curiosa a metáfora do deserto, se nos lembrarmos de um dos versos do poema que abre este livro: «reaprendo o silêncio deserto a deserto» (p. 7). O que vem à tona é um erotismo subtil, como que rasurado numa poesia cuja transparência arrisca tornar invisível o que nela existe de mais notável. Nada podemos concluir da leitura deste quarto capítulo da Colecção de Autores Torreenses que a Livraria Livro do Dia em boa hora, pela mão de Luís Filipe Cristóvão, resolveu concretizar. Resta-me apenas tornar bem claro que, em termos de poesia contemporânea portuguesa, é uma das mais belas surpresas deste ano. Que importa que poucos dêem por isso num país onde ninguém dá por nada?

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

1 ANO

A descobrir o mundo com as mãos, a gatinhar pela sombra de uma vergonha pura, a levar ao sono as nódoas dos joelhos, a levar à boca os gostos e os desgostos de quem descobre o mundo com as mãos.

Um ano.

quarta-feira, 19 de setembro de 2007

BARCELONA

Regresso a Barcelona passados nove anos. As memórias que trago não são memórias, são meras impressões que não pretendo reavivar. Quando escapo do fogo em que vivo prefiro o contrafogo do encontro com o desconhecido à frigorífica tentação de um mero reencontro com o passado. Acomodo-me numa pensão na Hospital, em quarto precavidamente reservado pelo camarada VV. Barata, tanto quanto dormitório eleito pela blattaria, com a vantagem de ser central e muito escassamente frequentada pela fauna turística. A Pensão Tarrason, nos seus seis andares de quartos minúsculos, lençóis rasgados e paredes fendidas, parece-me maioritariamente habitada por imigrantes sul-americanos, paquistaneses e magrebinos. No andar onde fomos acomodados há um velho que passa o tempo todo a escarrar e um bebé que chora, quase sempre em sintonia com as escarradelas do velho. Estamos em pleno Raval, bairro de putas africanas, imigrantes e boémios, de uma intensa actividade nocturna que inclui bares, pequenas lojas de cultura popular, tatuagens, discos em segunda mão, uma ou outra livraria, corte e costura de punks, góticos e sabe-se lá mais o quê. Por coincidência, ao comprar o El País encontro num dos suplementos uma reportagem sobre o pouso que ora vos descrevo: «El Raval es lo que siempre se había llamado el barrio chino. Un barrio al que la vida y la literatura dieron fama de canalla. En el Raval hay plazas que recuerdan a escritores como Jean Genet, y en Casa Leopoldo – lugar de reposo obligado de Pepe Carvalho -, una foto recuerda que en una de sus mesas André Pieyre de Mandiargues escribió el libro (La Marge) que dio fama literária al barrio».

Do lado oposto ao Raval, quem atravesse a Rambla encontrará o outro grande bairro da chamada Cidade Velha. É subindo e descendo a Rambla, perdendo-se no labirinto de ruas do Bairro Gótico, estacionando na Praça Real, que o corpo absorve o que de mais impressionante Barcelona tem para oferecer: o movimento, as ruas interminavelmente repletas de gente, os artistas de rua, homens estátua, poetas, músicos, pintores, putas, muitas putas. Mas o que mais fascina neste movimento todo, a mim que sou da paz e do sossego campestres, é precisamente o facto desse mesmo movimento não conseguir alienar a dimensão picaresca dos autóctones, espalhados por centenas de tascas onde bebem cerveja, picam umas tapas e metem a conversa em dia. Os turistas são muitos, imensos, mas não espantam os velhos que jogam uma partida de xadrez sentados nas muradas de pedra da Praça Catalunha. Depois há essa peculiar idiossincrasia das ruas, das avenidas e das praças de Barcelona: para onde quer que olhemos a arte espreita-nos. Seja uma escultura de Rebecca Horn em plena praia, poemas urbanos de Joan Brossa, um mosaico de Miró à entrada da Rambla, a fachada de um dos muitos edifícios de Gaudí ou um gato de Botero no Raval, é a arte quem nos espreita na cidade de Barcelona. Entramos numa outra dimensão, não a dimensão daquele que contempla mas a de quem é contemplado. É isto que gera uma relação natural e espontânea entre os transeuntes e a arte, retirando a esta o pedestal onde geralmente se encontra, colocando-a ao nível do homem quotidiano. Nas ruas de Barcelona não se respira arte, é-se respirado pela arte.

Por falar em arte, uma visita à exposição permanente do Museu de Arte Contemporânea de Barcelona só nos deixará mais orgulhosos da Colecção Berardo e de Serralves. Safam-se os vídeos de Vito Acconci e Bruce Nauman. No Museu Picasso, onde tinha estado há nove anos, não voltei a entrar. Vale a pena visitar o edifício, mas as grandes obras do autor de Guernica não estão ali. Infelizmente ainda não foi desta que visitei a Fundação Joan Miró. Na segunda-feira, quando fui namorar para o Parque de Montjuïc, estava fechada. Em contrapartida, reencontrei-me com os trabalhos de Antoni Tàpies no belo edifício da fundação que lhe é dedicada. Outra fundação que visitei foi a que leva o nome de Joan Brossa, projecto humilde que vale a pena visitar pela mostra considerável que aí encontramos de poemas objecto e de poemas visuais. Comprei por lá um livrinho que é uma pequena maravilha. No entanto, Barcelona é Gaudí. E Gaudí é o Papa de Barcelona. Essa obra monumental que é o Templo da Sagrada Família deixa-nos sem fôlego. Sair do Metro, olhar para trás e ser invadido pela monumentalidade daquelas torres cravadas de figuras é sempre uma experiência marcante. Navegar nas linhas sinuosas da Casa Milà, perder a vista nas fachadas das Casas Batlló e Amatller, imbui-nos de uma vontade burguesa que chega a ser confrangedora. Diga-se o que se disser Gaudí foi um génio, nele confluem géneros, imaginários, planos obscuros que nos situam entre o pragmatismo do real e as megalomanias do onírico. Garanto-vos que dá mais tesão que o Museu de l’Eròtica, a bem dizer um amontoado de imagens pouco mais que insonsas e falos vários para práticas, pela parte que me toca, muito pouco atractivas.

À noite, todos os caminhos vão dar à Cidade Velha. Entre o Bairro Gótico e o Raval, separados pela Rambla, passando pela Praça Real, são muitos os bares, as propostas, as alternativas. Após jantarada com o VV, seguimos para um tal de Manchester. Música a condizer, muita cerveja, boa conversa. Na Praça Real reencontrei-me com o Pipa Club, um bar escondido num segundo andar, decorado com motivos todos eles relacionados com a arte da cachimbada. Há uma exposição considerável de cachimbos, especialmente interessante para quem, como eu, embora em modesta performance, aprecia "o fumo das chaleiras". Sherlock Holmes dançando ao som do acid jazz. Já na ressaca da noite, um reencontro inesperado. Contava à Ana de um bar onde havia estado há 9 anos, quando, para meu espanto, olho para o lado direito e dou com aquele letreiro tão familiar do Nostromo. Parece que o tempo tinha parado por ali. Atrás do balcão, o mesmo Cecilio Pineda. Velho marinheiro dos sete costados, amigo de portugueses, fumador inveterado, Cecilio Pineda Rodríguez também pratica a arte do verso e da pequena história. Comprei-lhe uma colectânea de poemas, bem ilustrados e ilustrativos das aventuras deste navegador:

SHANTY PORTUGUÉS

Para marinheiros nós,
depois
os nossos irmaos
os ingleses.
E muito muito
depois
os filhos da puta
dos espanhois
que aprenderam
de nós.

Ciudad Blanca, 1973.

Já que estamos com a mão nos livros, algumas aquisições. Na Livraria Central, sita em pleno Raval, uma boa antologia de poemas de Nicanor Parra, o número mais antigo que encontrei de El Naufraguito – deliciosa microrrevista caseira de humor e de provocação - e um livro de micronarrativas, Falsificaciones, de Marco Denevi. Atenção aos interessados: este livro está publicado numa editora que possui uma colecção, microMundos, só de micronarrativas. Trata-se das Edições Thule. Já da Casa del Llibre, na Gràcia, trouxe um livro de estórias de José María Merino. Eu não disse que regressaria mais falido?

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

DA SOMBRA QUE SOMOS

Na sua mais recente recolha de poesia, publicada pela Deriva Editores, Maria Sofia Magalhães (n. 1961) interpela-nos no contexto daquilo a que poderíamos chamar uma ontologia poética cujo fim é já o princípio enunciado no título: Da Sombra Que Somos. Essa sombra que somos percorre os poemas deste volume, organizados em duas partes complementares. Na primeira, intitulada Sem forma (…), a sombra mostra-se implícita em cinco poemas breves que introduzem, de modo elíptico, o desenvolvido nos quarenta e quatro poemas da segunda parte, intitulada (…) De infinito. Assim reunidos – curioso que no índice não se explicite a divisão -, os cerca de cinquenta poemas deste volume poderiam assumir como subtítulo os títulos das duas partes: sem forma de infinito. É com esta condição de finitude que somos confrontados logo nos primeiros cinco poemas, remetendo-nos a autora para um «último acto», «o instante fatal», ainda que encoberto por um discurso próximo de certa lírica amorosa mais convencional. Revelam-se estes poemas poemas de solidão, amor e morte, trindade clássica que aqui não encontra outra novidade que não seja a voz muito própria de quem a explora. O poema, dito assim no seu âmago, é um «espelho» que ameaça desnudar a alma, pôr a claro as fragilidades do corpo, lançar luz sobre a sombra que somos. No fundo, o poema ilumina, amiúde, a sombra. Essa luminosidade concretiza-se, neste caso, numa poesia límpida, breve, sem pudor de uma simplicidade rítmica resolvida, a espaços, em rimas algo banais, suave como as partículas invisíveis de que somos feitos. Lembro-me de Carlos de Oliveira, mas logo esta lembrança é suspensa pelos gestos e pelos rituais de quem vive na cidade. É neste espaço urbano, em contraste com as falas da natureza (nomeadamente a chuva), que Maria Sofia Magalhães olha o outro: «Olho sem perceber / que o rosto que me olha / sem me ver / é o outro lado do espelho / de viver» (p. 18). E subitamente é o leitor lançado na dúvida. O cenário urbano é também o cenário das comunicações impossíveis, dos medos, da desigualdade. Há como que uma desordem na simplicidade destes poemas a desproteger o leitor, a desarmá-lo, a indiciar-lhe outros caminhos que não apenas os do sonho e do real. Serão esses os caminhos da sombra? A luz do poema fica assim ameaçada: «Deixei que as palavras se soldassem / em blocos incompreensíveis de sons. / Abro a boca e soltam-se ramos, / secos, partidos, sem flores. // Rabisco as letras / mas fogem os dedos nas sombras. / Restam os olhos e o olhar / para que ardam, que queimem, / que sintam» (p. 21). É esta uma poesia muito mais interrogativa que aforística, embora por vezes não resista às suas certezas. Mas essas certezas são as dos lugares ambíguos, como a sombra, porque é nessa ambiguidade que vivemos, crescemos e morreremos. Assumem-se «o desarrumo, o desaprumo, o desnorte», o desequilíbrio, apetecendo dizer que poesia que não assuma esses desequilíbrios, mais ainda que os promova, provoque e exalte, não poderá chamar-se de poesia. Deste modo, o que o poema espelha nada mais é senão essa ambiguidade de que somos feitos, a pele ressoando a velhice e o desejo, a chuva cobrindo a cidade de melancolia, o amor alternando com o medo, com as feridas, com as nódoas que trazemos dentro, com a náusea que o mundo nos impinge. E se o poema lança luz sobre essas sombras, a natureza é o refúgio que nos resta: «Apesar de tudo / temos o céu azul / e as árvores a chover folhas / castanhas e verdes. / Ouvimos os sons da vida / e, de manhã, / continuamos a respirar» (p. 31). Apesar de tudo, temos «a luz do sol». A alma solta-se no poema. A poesia deste livro, ainda que possa parecer, não é uma poesia superficial. Antes pelo contrário, é uma poesia das raízes. É uma poesia do que se esconde por detrás das lanças que, à superfície dos dias, nos abrem feridas no corpo e deixam cicatrizes. Porém, não distingamos aqui o corpo da alma. Que a alma mais não seja do que o corpo embalando no poema essas feridas sem forma de infinito, nesta vida que, como dizia outro poeta, é estar à morte.

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

domingo, 2 de setembro de 2007

COM A SORTE QUE ANDO

Ameaçado pelo braseiro que se fazia sentir na pátria, fui arribar na praia em regime familiar. Isto foi ontem, e correu bem. Já no dia de hoje, uma série de fenómenos estranhos (alguns serão guardados para prosas ficcionais) trouxe-nos de volta ao lar doce lar. Tendo adormecido a noite passada no sofá, acordei, não com o teu beijo, mas banhado por um sol tostadinho que fazia prever belos mergulhos e buracos na areia. Um fim de Verão catita, esfreguei as mãos. ‘Tá quieto. Subitamente caiu um manto de nevoeiro sobre a terra que a malta não via um palmo à frente do nariz. O calor foi-se todo, banhistas em debandada, Verão para a gaveta. Tal qual eu, mulher, crianças e cão, fugindo do nevoeiro de novo ao encontro do sol. Já sem praia, mas com o dito muito mais à vista, a pôr-se atrás da serra, enquanto a Matilde, num achaque de vaidade justificadíssima, sentenciava: Sou mais bonita que o pôr do céu.