quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

BÍBLIA


− Você já leu a Bíblia?
− Não me parece que a Bíblia seja um livro que se leia. São muitos livros que se vão lendo.
− Mas leu ou não leu?
− Li alguns livros.
− É que ninguém pode falar da Bíblia sem a ter lido?
− Concede-me o direito de falar sobre os livros da Bíblia que li?
− Não. É que você diz que ele perdeu a fé.
− Não sou eu que digo, é ele. Não é uma interpretação, é uma citação.
− Mas onde é que ele diz isso?
− Você leu a obra?
− Li alguns versos avulsos.
− Sendo assim, você só poderá falar avulsamente da obra dele.
− Sabe, eu acho que ele morreu novo porque perdeu a fé.
− Sabe, eu acho que Jesus morreu ainda mais novo porque tinha fé a mais.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

SURDOS E MUDOS

Primeiro-ministro: A não ser que alguém saiba alguma coisa que eu não sei…
Jornalista: Nunca se sabe.

TUDO

Tudo é uma palavra enorme, pesada, uma palavra sem oponentes, onde cabem sinónimos e antónimos, é uma palavra englobante, uma palavra que engloba, inclusive, a palavra nada. Daí que tudo se confunda tanto com nada, do mesmo modo que nada se confunde com tudo. Por isso dizemos que o branco afirma o negro e vice-versa, que a noite declara o dia e vice-versa, que o homem explica a mulher e vice-versa, que entre todos os opostos há, talvez, um lugar crepuscular, indecifrável, fonte de poesia. Mas mesmo esse lugar indecifrável cabe em tudo, pois tudo é tudo, não pode deixar de ser também o lugar indecifrável que se intrometerá entre tudo e nada, sob pena de, deixando de ser também esse lugar, deixar de ser tudo. De Luís Paulo Meireles sabemos tudo, ou seja, nada. A nota de abertura assinada por Henrique Delgado, outro acerca do qual sabemos nada, ou seja, tudo, faz dele autor transmontano/migrante, «contemporâneo de m.parissy, José Luís Peixoto e Nuno Rebocho» (sic). Sabemos ainda que publicou em projectos editoriais obscuros tais como non nova sed nove e cadernos de ibn mukhane, prorrogando a obscuridade com O Portão (ed. Autor, 2000) e, mais recentemente, com Tudo (Canto Escuro, 2008). Restam-nos os poemas, porventura o que mais interessa, esse pouco mais que nada com o qual pretendemos ocupar algum do nosso tempo. São poemas breves, de verso curto (à excepção de três prosas, ou de três poemas de verso menos contido), que nos lembram, por vezes, ladainhas e lengalengas sem intenções curativas que não sejam as de recitar, ao sabor do acaso e quando convém, os segmentos da existência que nos acompanham no tempo. Mais ou menos explicitamente, estão estes poemas repletos de memórias, ou, melhor, de uma «memória esfomeada» (p. 12) que resiste ao tempo, à brancura do esquecimento, que luta contra o medo dos náufragos. «Sobrevivente do naufrágio o homem» (p. 15) que escreve olha o mundo, recorda o passado, evoca os ausentes, aguarda o fim como quem cumpre tudo sem nada: «não tenho nada a escrever nem nada a conservar / desatam as recordações esquecidas na velha mala / a lutar no tempo na espera do meu destino / deito tudo fora e mergulho numa visão enganadora / a vida é uma mentira / fugindo das regras / fumando ervas loucas / árvore resistente e valente / apanho as sobras podres / lançadas no banquete da vida / e os homens vomitam palavras no jogo real / onde só sabem dos dados e cartas viciadas» (p. 21). Como é possível, não tendo nada a escrever, deitar tudo fora? Será tudo o que se deita fora apenas um gesto de abnegação ou antecipação do nada que a morte anuncia? O homem olha para trás, revê-se como um fantasma na reminiscência sombria da infância, da mãe perdida, viaja pelo tempo até aos abismos da memória, recorda os tempos de escola, os lugares da vila onde vive, olha as velhas vestidas de negro, os homens revoltados, as manhãs fazendo-se tardes e as tardes fazendo-se noites, e escreve para si: «um dia somos assim / brincamos com o nosso passado vivo / hoje curvados esperamos esperamos / o menino adormeceu» (p. 29). E tudo se resume ao tempo que passa, à memória do tempo que passa, ao medo causado pela memória do tempo que passa. O homem assume esse medo, não o nega, não o esconde, procura antes resolvê-lo, sabendo talvez ser irresolúvel a sua própria natureza. Não é o medo de estar vivo nem o medo de estar morto, não é o medo de estar morrendo nem de ir vivendo a caminho da morte, é um medo com o qual se foge, não do qual se foge, o medo das crianças assustadas, espantadas com o seu próprio reflexo nas águas, o medo dessa noite que afirma a nossa derrota, o medo de chegar tarde ou de não chegar sequer a cumprir um voo, uma espécie de loucura controlada que resume, afinal, o quase nada que é tudo nestes poemas. Continuamos sem saber o que quer que seja acerca de Luís Paulo Meireles, mas sentimos, perdoem-nos a presunção, que já sabemos um pouco mais acerca destes poemas, afinal enunciações de um nome, de uma vida, de uma passagem pela terra.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

PRIMEIRA ANTOLOGIA DE MICRO-FICÇÃO PORTUGUESA


Primeira Antologia de Micro-Ficção Portuguesa
Selecção e Organização de Rui Costa e André Sebastião
Prefácio de Henrique Fialho
Exodus / 7 Dias 6 Noites - Editores Unipessoal, Lda
Fevereiro de 2008

Prefácio: Esboço Para Um Ensaio Sobre Micronarrativa, pp. 9-19.
Era uma vez (p. 53), O Primeiro Amor (p. 54), Detector de Metais (p. 55), Um Velho (p. 56), O Jornalista (p. 57), Videntes (p. 58), Rusga (p. 59), Uma Pradaria no Rosto (p. 60), O Sucateiro (p. 61), O Pendura (p. 62).

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

A DECISÃO DA IDADE

Ruy Duarte de Carvalho (n.1941) acaba de ser galardoado com mais um prémio literário, nomeadamente o Prémio Literário Casino da Póvoa. Quando escrevi sobre Lavra, a reunião de 30 anos de labor poético do mesmo autor, comecei por referir-me à desatenção de que tinha sido vítima a sua obra. Voltei a pegar nesse volume e num outro, A Decisão da Idade (Livraria Sá da Costa Editora, 1976). Verifico que foram feitos 3000 exemplares deste último e apenas 1000 de Lavra. Passaram mais de 30 anos, publica-se muito, os projectos editoriais proliferam como cogumelos, autores são mais que livros vendidos, o resultado fica à vista: muita parra, pouca uva. Mas decidiu a idade que as palavras do poeta angolano (escalabitano de nascença) adquirissem outra fluorescência nos últimos anos, com entrevistas, predicações, exposições. Releio A Decisão da Idade e penso na justiça deste reconhecimento. As três partes do livro – Chão de oferta, Tempo de ausência, Noção geográfica – remetem-me mais uma vez para uma paisagem tão telúrica quão erótica, preenchida por matas, manadas, cacimba, capins, onde a aridez do deserto contrasta com a fecundidade das terras. E é essa fecundidade que acaba sobrepondo-se a tudo, numa poesia recuperadora daquele espanto e respeito que o homem foi perdendo para com os ciclos da natureza, para com a natureza ela mesma. Não se trata de recuperar metaforicamente ou repercutir sentimentalmente o elogio da natureza. Trata-se antes de voltar a olhá-la com o rigor de quem nela e apenas por ela sobrevive. Há igualmente nesta dobra do olhar uma atitude política, mas política no sentido de demarcar antropologicamente o lugar do homem no mundo: «Um homem vem fundir geografias, polarizar as forças da manhã deserta, vem fecundar as latitudes nuas e violar segredos de falésias. Um homem vem, destrói a derradeira protecção da lenda, transita triunfante a bruma do silêncio, afaga, da idade, o corpo descuidado, revolve-se na febre, despoja-se de si e oferece o peito» (p. 49). Irrompe, na última parte do livro, a palavra força. Esta força é a da fecundação, a de trazer a chuva à terra seca, a de uma luta, a luta pela sobrevivência, que é a luta da flor que «aguarda paciente a gota de água» (p. 64). Confunde-se o homem, nos ciclos do corpo, com esta condição da natureza, já que outra coisa não será o homem senão parte integrante, ínfima, de um todo que o rodeia, condiciona e, até certo ponto, determina. No poema dramático intitulado Noção geográfica essa condição fica bem patente nas falas da Mulher: «Não são as minhas mãos mas tenho mãos. / E não as cito aqui para inventar palavras / por dentro das palavras / e procurar falar das mãos das coisas / onde as palavras mal adregam ser. / Eu falo destes meus dez dedos negros / com que amasso o estrume / e dou notícia à chuva de que estou atenta / e dou vazão à força da semente / que por mim desliza / para ascender seu fruto às minhas mãos / no tempo repetido das colheitas. / Cito os meus dedos para invocar a cor / da terra que pisais e donde apenas / conheceis o fruto já maduro / que estas mãos ofertam / pousado nos dez dedos que o criaram. / As mesmas rugas que a semente vence / ao deslizar para a terra por meus braços / são as que vós tocais ao tactear / as minhas mãos em busca de alimento / nestes dez dedos para vós abertos» (p. 73). Não sendo esta a minha linguagem, há qualquer coisa nesta linguagem que me atrai e cativa. Ao contrário do que sucede com outros poetas africanos, nem sequer aqui nos podemos desculpar com o lado exótico das palavras e dos ritmos que as palavras consentem. Esse lado, praticamente ausente nestes poemas, converte-se num telurismo que me agrada sobremaneira, talvez porque o sinta cada vez mais distante e ausente. Neste sentido, é também esta uma poesia de resistência. De resistência à perda dessa relação do humano com a sua fonte mais próxima, a terra, e de resistência ao esvaziamento da tradição. O mundo é cada vez mais outro, eu sei. Assim como sei, ou pelo menos desconfio, que, fosse hoje, teriam sido feitos não 3000 mas 300 exemplares deste livro.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

VIEIRA

Muito longe de ser a melhor edição dos sermões do Padre António Vieira, este foi o meu pórtico para a catedral da palavra que é a obra de Vieira. Trata-se do volume 458 da colecção de livros de bolso da Europa-América. Muito se tem falado deste padre nos últimos dias, muito mas sempre pouco se tivermos em conta de quem se trata. E logo eu, que detesto padres, assim desfeito nas minhas inexoráveis contradições. António Vieira nasceu na freguesia da Sé, em Lisboa, a 6 de Fevereiro de 1608. O pai levou-o para o Brasil, decorria o ano de 1614. Contra vontade paterna, saiu de casa na noite de 5 de Maio de 1623 para se entregar de corpo inteiro às missões evangelizadoras dos Jesuítas. Estudou os costumes e as línguas dos nativos, os quais sempre defendeu em contexto muito adverso. Teve uma intensa vida diplomática, repleta de casos e de controvérsias, que culminou com a perseguição, prisão e condenação levada a cabo pelo Santo Ofício. Mas ainda antes do silenciamento final, a 17 de Junho de 1654, Vieira pregou o mais famoso dos seus sermões: «Sermão de Santo António aos peixes». Trata-se de um daqueles textos fundamentais que deveria ser obrigatório a qualquer candidato a escritor. O tema central é o da corrupção, logo enunciada no início do texto a partir de uma epígrafe "roubada" ao Evangelho de São Mateus: «Vos estis sal terrae». Questiona-se Vieira: «O efeito do sal é impedir a corrupção; mas quando a terra se vê tão corrupta como está a nossa, havendo tantos nela que têm ofício de sal, qual será ou qual pode ser a causa desta corrupção?» Eis uma questão colocada há 400 anos e que, pelos vistos, não nos larga. Perante a indiferença dos homens, Vieira faz como Santo António já havia feito: prega aos peixes. Aponta-lhes as qualidades (ouvem e não falam), denuncia-lhes os defeitos: «A primeira coisa que me desedifica, peixes, de vós, é que vos comeis uns aos outros. Grande escândalo é este, mas a circunstância o faz ainda maior. Não só vos comeis uns aos outros, senão que os grandes comem os pequenos. Se fora pelo contrário, era menos mal. Se os pequenos comeram os grandes, bastara um grande para muitos pequenos; mas como os grandes comem os pequenos, não bastam cem pequenos, nem mil, para um só grande». Perfeito retrato do mundo, um retrato impiedoso, implacável, certeiro, de tal modo certeiro que ainda hoje o reconhecemos como sendo nosso e lhe atribuímos as qualidades de todas as grandes obras: universal, sem tempo. A gente lê Vieira e vê Leonardo da Vinci, pois nas palavras de Vieira reside esse exemplo das obras imortais. No entanto, olhemos agora para nós: ridículos. Olhemos para nós, aqui, a lermos os textozitos uns dos outros, tão ridículos, e a dispararmos palavras, comentários absolutamente patéticos, como se fosse importante o que temos a dizer. E ainda mais ridículos os que julguem ser importante o que têm a dizer. Olhemos para nós, tão patéticos, ínfimos, ridiculamente ridículos, a perdermos tempo com palavras, questiúnculas, pseudo-debates, febrilmente opinativos, a desperdiçarmos a vida nestas pelejas inconsequentes, em textos votados ao esquecimento, caídos já na morte apagada do esquecimento. Efémeros, patéticos, ridículos. Olhemos para nós, miremos a nossa desgraça, somos todos tão risíveis, caricaturas de Quixote com moinhos cibernéticos. Julgaremos possível um olhar atento, um ouvido perscrutador? Nem os peixes. Que imbecilidade nos contamina? Só nós, para darmos algum crédito aos nossos sermões. Só mesmo nós, encafuados nas salas poeirentas das nossas casas, rodeados do pó dos livros, num mundo ainda mais absurdo que os nossos cus gordos sentados defronte a um monitor. Ridículos. Somos todos risivelmente ridículos. Podíamos andar a limpar matas, a distribuir sopa aos pobres, a construir castelos de areia, podíamos estar numa bela esplanada a ler um bom livro sem termos necessidade de contar as páginas desse livro a quem quer que fosse, lê-lo pelo simples prazer de ler um livro, não pela vaidade de o citarmos, divulgarmos, comos e fosse relevante o facto de termos lido um livro, de termos visto este ou aquele filme, de andarmos no mundo como as formigas andam nos carreiros e os carneiros andam nos rebanhos. E chamamos nós liberdade a esta vida domesticada, a estes comportamentos todos tão formatados? Somos autómatos, autómatos adulterados, de quando em vez, por um sorriso rasgado ou uma lágrima furtiva. Mas irremediavelmente autómatos. E ainda por cima ridículos. Ai se soubéssemos o preço da fome, se conhecêssemos o custo da miséria mais miserável de todas. Ai se estivéssemos longe destas janelas, ai se fôssemos não caricaturas de Quixote com moinhos cibernéticos, mas moinhos quixotescos de caricaturas reais. Ai se fôssemos um acto concreto, não um sonho, não uma miragem, mas já tão-somente o deserto que somos e insistimos iludir com os nossos debates fundamentais, as nossas questões fulcrais, os nossos discursos estonteantemente expressivos, retóricos, inúteis, as frases de belo efeito. Olhemos pois para nós, na sombra do padre, e miremos reflectida na sombra a luz da nossa absoluta desgraça e da nossa incontornável superficialidade.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

UMA CASINHA

Dois westerns de Clint Eastwood dos quais gosto muito e que são quase sempre esquecidos: The Outlaw Josey Wales (1976) e Pale Rider (1985). No primeiro há a obstinação de um homem. Marcado pela perda abrupta da família, a qual fora vítima dos mercenários da União, Josey Wales junta-se a um grupo de rebeldes movido pelo desejo de vingança. Depois do grupo se desfazer na sequência de uma pérfida negociação, este fora-da-lei enceta uma fuga que terminará já na fronteira, na companhia de alguns amigos que foi fazendo pelo caminho. No segundo filme, um western de contornos algo místicos, um padre junta-se a um grupo de garimpeiros para os ajudar a enfrentarem um empresário corrupto que lhes quer roubar as terras à força. Não sabemos se o Preacher interpretado por Clint Eastwood é realmente padre. Sabemos apenas haver nele uma força ao serviço da justiça que, independentemente das suas razões pessoais, leva-o a tomar a parte dos mais fracos. Ao serviço dos mais fracos, este padre nada convencional aproxima-se do fora da lei Josey Wales numa mesma característica: a ideia de que a justiça não está tão dependente da obediência à lei como parece estar da entrega a valores essenciais. Falta gente desta no mundo de hoje. Note-se como é cada vez mais frequente ouvirmos dizer que as leis estão feitas para protegerem os mais fortes e manipularem os mais fracos. Não é preciso dominar a matéria para concluir que os mais fortes têm sempre, pelo menos, a possibilidade de contornarem a lei com os marcadores retóricos da argumentação. Refiro-me aos bons advogados, claro está. Já aos mais fracos, desprotegidos na defesa dos seus pobres argumentos, resta comer e calar. Não é muito provável que apareça por aí um Preacher misterioso imbuído de uma rectidão que possa amparar os mais fracos nas suas pretensões. Pior ainda que, cada vez mais desamparados, estes mesmos mais fracos temam tanto as represálias da sua inconveniência. Alguns calam-se para não serem despedidos, outros negoceiam o silêncio, outros dedicam-se à pesca. O que fazer? Um homem não vive do pó (quer dizer: alguns viverão, mas não são para aqui chamados). Movidos pela vingança ou por uma ideia de justiça baseada em valores fundamentais, o que nos falta é a coragem, essa coragem que o conforto do lar burguês nos ofereceu e que agora não queremos, não podemos ou tememos ver-nos escapar. Os nossos pais, que nada tiveram e tudo nos deram, têm dificuldade em aceitar esta evidência: o pouco que nos resta é o que eles nos conquistaram, abdicar disso é perder tudo, voltar à estaca zero, terminar isolados numa fronteira ou errantes como foras-da-lei. Pois eu, neste momento, encontro-me assim: descrente do rumo da lei, julgo que já nem pela bomba chegaremos a bom porto. Mas uma dose forte de coerência, obstinação e coragem talvez possa ajudar a, pelo menos, construirmos uma casinha para os nossos.

sábado, 2 de fevereiro de 2008

CONFISSÃO

Antes que seja tarde, quero declarar Publicamente que: uma vez roubei 20$ ao meu paizinho para comprar uma revista chamada Coquete, nunca rezei as 7 avé-marias e os 3 pai-nossos que o padre Armando me sentenciou após a minha primeira e única confissão, falsifiquei a assinatura da minha mãezinha numa declaração de faltas e duas notas na pauta do primeiro período do 8º ano, tenho tido vários sonhos eróticos com actrizes mexicanas (não sei se isto configura algum tipo de pecado, mas pelo sim pelo não…). Dito isto, se por estas e por outras Públicas razões julgarem os portugueses que nunca poderei representá-los na liderança de um Governo, não poderei mais do que lamentar a pouca sorte de ter nascido português. (Entretanto, posso garantir de fonte segura que o patrão Belmiro nunca limpou a tampa de todas as vezes que o pingo lhe fugiu ao buraco da sanita.)