Do norte-americano Russell Edson (n. 1935) encontrava-se disponível em língua portuguesa, se não estou enganado, apenas uma brevíssima selecção dos seus poemas em prosa intitulada O Túnel (Assírio & Alvim, 2002). Nesse pequeno volume, o tradutor, também ele poeta, José Alberto Oliveira introduziu algumas coordenadas para a compreensão desta poesia: os poemas de Edson são fábulas bem humoradas e inquietas que contam histórias com desfechos absurdos. O riso é, sem dúvida, uma das características mais evidentes na poesia de Russell Edson. Autor de um romance e de mais de uma dezena de livros de poemas em prosa, estreou-se em 1961 com Appearances. Em 1994 editou The Tunnel: Selected Poems e em 2000 apareceu The Tormented Mirror, uma colectânea de poemas anteriormente publicados em variadíssimas revistas que a OVNI disponibiliza agora em tradução bilingue. A responsabilidade da tradução é de Guilherme Mendonça. Traduzir Edson não é tarefa fácil, sobretudo por tratar-se de um autor com um uso muito particular da linguagem, repleto de jogos de palavras, alusões, trocadilhos, onde os planos da realidade e do onírico aparecem frequentemente confundidos. Diz-se desta obra ser algo pendular, talvez porque nela vislumbremos a omnipresença de tensões diversas. Desde logo, no plano formal, a afirmação destes textos enquanto poemas, mesmo tratando-se de poemas em prosa, não pode senão ser motivo de discussão. Não andará longe da verdade quem ouse chamar-lhes fábulas, estórias ou, fazendo uso de termos mais em voga recentemente, micronarrativas. No contexto da literatura norte-americana, trata-se, então, de poesia em prosa, o que, provavelmente para espanto daqueles que julgam serem os preconceitos literários tipicamente nossos, tem resultado numa certa marginalização desta obra por parte da comunidade académica. A essa marginalização Edson responde com simplicidade e inteligência: «Being, as you suggest, somewhat of a hermit, I've never thought of myself as marginal or mainstream, just happy to be writing». Há também aqueles que falam de Russell Edson como um dos mais importantes cultores do poema em prosa nos Estados Unidos da América (do Norte). A sua importância advém da sua singularidade, a qual parece por vezes devedora de um certo surrealismo menos automático mas amplamente enraizado nos domínios do inconsciente. É curioso, a título de exemplo, que mesmo quando se afirmam mais bizarras, as estórias de O Espelho Atormentado dialogam com referências muito concretas da vida quotidiana, trabalhos, paixões, desavenças, dificuldades da vida doméstica. Chamo-lhes estórias não inadvertidamente. O próprio afirma: «All writing is storytelling». O que nos contam, então, as estórias deste espelho atormentado? De um modo cómico, quase sempre efabulatório, não dispensando um certo wit, com bastante engenho na recusa da sátira, estas estórias contam-nos de elefantes com vergonha de roupa interior, de intricados laços genealógicos entre macacos, de casamentos entre galos e vacas, de um cavalo que aprendeu a montar outros cavalos, de um velho elefante de barbas brancas, de um Ciclope que precisa de óculos, de um papagaio que falava de si próprio na terceira pessoa, etc. Mas nos quatro conjuntos de textos coligidos em O Espelho Atormentado não são apenas os animais que falam. O núcleo de acção é diversas vezes o núcleo familiar, noutras ocasiões a estória desenvolve-se em torno de mutações físicas que instalam um paralelismo agradável com as próprias mutações da realidade convertida em texto. Uma escrita surreal, talvez, deveras fascinante na forma como agrega os planos da realidade e da ficção, na arte com que torna lógico o absurdo enviando-nos para o absurdo da lógica durante, por exemplo, a hora d’O Banho: «Um homem estava a tomar banho numa banheira de molho de peru; a pôr um patinho amarelo a boiar para passar a eternidade. Comia puré de batata, mergulhava no banho grandes garfadas… / Uma beleza, tudo aquilo, pensou, eu num ensopado com um pato, a comer puré de batata com molho, e lá fora um mundo completamente louco… (p. 157)»segunda-feira, 21 de abril de 2008
O ESPELHO ATORMENTADO
Do norte-americano Russell Edson (n. 1935) encontrava-se disponível em língua portuguesa, se não estou enganado, apenas uma brevíssima selecção dos seus poemas em prosa intitulada O Túnel (Assírio & Alvim, 2002). Nesse pequeno volume, o tradutor, também ele poeta, José Alberto Oliveira introduziu algumas coordenadas para a compreensão desta poesia: os poemas de Edson são fábulas bem humoradas e inquietas que contam histórias com desfechos absurdos. O riso é, sem dúvida, uma das características mais evidentes na poesia de Russell Edson. Autor de um romance e de mais de uma dezena de livros de poemas em prosa, estreou-se em 1961 com Appearances. Em 1994 editou The Tunnel: Selected Poems e em 2000 apareceu The Tormented Mirror, uma colectânea de poemas anteriormente publicados em variadíssimas revistas que a OVNI disponibiliza agora em tradução bilingue. A responsabilidade da tradução é de Guilherme Mendonça. Traduzir Edson não é tarefa fácil, sobretudo por tratar-se de um autor com um uso muito particular da linguagem, repleto de jogos de palavras, alusões, trocadilhos, onde os planos da realidade e do onírico aparecem frequentemente confundidos. Diz-se desta obra ser algo pendular, talvez porque nela vislumbremos a omnipresença de tensões diversas. Desde logo, no plano formal, a afirmação destes textos enquanto poemas, mesmo tratando-se de poemas em prosa, não pode senão ser motivo de discussão. Não andará longe da verdade quem ouse chamar-lhes fábulas, estórias ou, fazendo uso de termos mais em voga recentemente, micronarrativas. No contexto da literatura norte-americana, trata-se, então, de poesia em prosa, o que, provavelmente para espanto daqueles que julgam serem os preconceitos literários tipicamente nossos, tem resultado numa certa marginalização desta obra por parte da comunidade académica. A essa marginalização Edson responde com simplicidade e inteligência: «Being, as you suggest, somewhat of a hermit, I've never thought of myself as marginal or mainstream, just happy to be writing». Há também aqueles que falam de Russell Edson como um dos mais importantes cultores do poema em prosa nos Estados Unidos da América (do Norte). A sua importância advém da sua singularidade, a qual parece por vezes devedora de um certo surrealismo menos automático mas amplamente enraizado nos domínios do inconsciente. É curioso, a título de exemplo, que mesmo quando se afirmam mais bizarras, as estórias de O Espelho Atormentado dialogam com referências muito concretas da vida quotidiana, trabalhos, paixões, desavenças, dificuldades da vida doméstica. Chamo-lhes estórias não inadvertidamente. O próprio afirma: «All writing is storytelling». O que nos contam, então, as estórias deste espelho atormentado? De um modo cómico, quase sempre efabulatório, não dispensando um certo wit, com bastante engenho na recusa da sátira, estas estórias contam-nos de elefantes com vergonha de roupa interior, de intricados laços genealógicos entre macacos, de casamentos entre galos e vacas, de um cavalo que aprendeu a montar outros cavalos, de um velho elefante de barbas brancas, de um Ciclope que precisa de óculos, de um papagaio que falava de si próprio na terceira pessoa, etc. Mas nos quatro conjuntos de textos coligidos em O Espelho Atormentado não são apenas os animais que falam. O núcleo de acção é diversas vezes o núcleo familiar, noutras ocasiões a estória desenvolve-se em torno de mutações físicas que instalam um paralelismo agradável com as próprias mutações da realidade convertida em texto. Uma escrita surreal, talvez, deveras fascinante na forma como agrega os planos da realidade e da ficção, na arte com que torna lógico o absurdo enviando-nos para o absurdo da lógica durante, por exemplo, a hora d’O Banho: «Um homem estava a tomar banho numa banheira de molho de peru; a pôr um patinho amarelo a boiar para passar a eternidade. Comia puré de batata, mergulhava no banho grandes garfadas… / Uma beleza, tudo aquilo, pensou, eu num ensopado com um pato, a comer puré de batata com molho, e lá fora um mundo completamente louco… (p. 157)»sexta-feira, 18 de abril de 2008
CINCO
Hoje vou chover para outro lado. Levo comigo a aura dos teus olhos, o sorriso ingénuo com que nos brindas todas as manhãs, a doçura dos gestos mais ternos que pode um homem almejar. Hoje não irei chover sobre a nossa terra, porque é de luz a nossa terra sempre que tu ris. Danço e canto melodias antigas, danço e canto melodias novas, danço ao ritmo frenético das tuas dúvidas, canto a ansiedade das tuas respostas. Não pode haver cansaço nessas perguntas, não pode haver mágoa. Sempre que madruga olho-te pelo retrovisor. Não me vês olhar-te, nem sabes que os meus olhos estão ali, deliciados, com a pureza da tua melancolia. Como pode uma criança trazer no rosto alguma melancolia? Como pode olhar a paisagem em movimento, o movimento em paisagem, sem se interrogar? Não pode. Por isso saltas da melancolia, lenta, com aquela moleza sofrida de todas as manhãs, e esperas acordada um sonho vindouro, enquanto apontas na parede os desenhos, as construções, os adereços com que vais aprendendo a dar cor à vida. Tudo me ensinaste, tudo te devo. Ensinaste-me a falar de outro modo, a escrever de outra fala, a olhar o mundo com um espanto que julgava perdido no quotidiano bafiento das pessoas adultas. Ensinaste-me que tudo é anterior às teorias e que as teorias são anteriores às palavras, que as palavras são anteriores a si mesmas: nos gestos desregrados, espontâneos e inusitados com que brindas a existência. Eu hoje vou chover para o lado amistoso do vento. Vou tracejar a verde o coração oferecido, colar na porta do frigorífico mais um sinal de esperança, escutar atentamente as tuas dores, a minha ausência, esta tristeza de não poder estar sempre onde nos manda o coração.
quarta-feira, 16 de abril de 2008
CRIATURA
Houve um tempo em que as chamadas revistas literárias delimitavam territórios estéticos, faziam-se marcar sob o signo dos movimentos, reclamavam autonomia e manifestavam gosto pela ruptura. Esse tempo acabou. As revistas literárias são hoje, na sua imensa maioria, meros reservatórios de textos diversos, por vezes em diálogo permanente com outras artes que não a arte literária exclusivamente. Reúnem-se amigos e conhecidos, vozes distintas, tendências antagónicas, num mesmo espaço editorial como se esse espaço fosse um mero ponto de encontro sem pretensões de maior. Olhando para as estantes cá de casa, encontro muitas dessas revistas. Algumas tornaram-se leitura obrigatória, outras não inspiraram grande admiração. O que encontro de comum em quase todas é, precisamente, a ausência de conflito e de confronto. Há excepções, como é óbvio. Nestas coisas haverá sempre excepções que confirmem a regra. Mas, de um modo geral, vejo apenas uma amena confraternização, proporcionada pela carolice de alguns indivíduos, patrocinada por uma ou outra instituição, fundação, etc. Nos últimos tempos, digamos de há dez anos para cá, encontro alguns exemplos que convém sempre lembrar: a excelente revista de poesia Relâmpago (n.º1, 1997), a Alma Azul (n.º1, 1999), a revista de contos Ficções (n.º1, 2000), a Apeadeiro (n.º1, 2001), a Saudade (n.º1, 2001), a Telhados de Vidro (n.º1, 2003), a Boca de Incêndio (n.º1, 2004), a Magma (n.º0, 2005), a Big Ode (n.º0, 2006), entre outras, mais ou menos divulgadas, mais ou menos conhecidas. Se tivermos em conta o advento da Internet enquanto meio mais económico e ecológico, até mesmo mais disponível, na consecução destes projectos, torna-se impressionante constatar a sobrevivência de algumas destas edições, assim como o aparecimento de novas publicações do género. É o caso recente da revista Criatura, dirigida por Ana M. P. Antunes, David Teles Pereira e Diogo Vaz Pinto. Integralmente composta por textos poéticos, o primeiro número da Criatura, de Fevereiro passado, conta com a colaboração de uma série de ilustres desconhecidos (ou nem por isso). De Ana Aleixo Lopes retive o tom filosófico e um longo poema colagem com citações de Luís Vaz de Camões e Fernando Pessoa em inglês. Ana M. P. Antunes opta pelo poema em prosa. António Ramos Pereira oferece-nos três poemas em verso de interesse desigual. Já Beatriz Hierro Lopes opta por uma prosa mais desenvolvida, com algumas interrogações geracionais, mas a carecer de uma revisão atenta. Em Cláudia Santos Silva pareceu-me notar alguma hesitação entre um certo hermetismo e uma espécie de prosaísmo melancólico. Gostei do poema «regresso na hora das empregadas da limpeza». David Teles Pereira aventura-se no poema longo com uma desenvoltura que ainda há-de encontrar o tom mais acertado. São evidentes os ecos da Gerção Beat. Diogo Vaz Pinto também tacteia o seu caminho, mas parece-me mais inclinado para um lirismo com uma componente irónica ainda por apurar. José Carlos Barros, que já não é novo nestas andanças, opta, desta feita, por um tom de polémica algo sobrepujado: «o que seria dos críticos do expresso / o que seria de tanto mestrado e tanto mestrando / o que seria enfim do país / se não houvesse de tempos a tempos / uma polémica onde exercitar o tiro ao alvo / como esta por exemplo dos poetas sem qualidades». Os poemas curtos de Maria Sousa denotam uma agradável melancolia, mas mais interessantes parecem-me as sequências de Marta Caldeira. É aqui que encontro o melhor desta revista Criatura, nestas prosas em versos, nestes versos em prosa, de grande fôlego, domínio rítmico e provocatória derrisão: «aqui na minha aldeia há dois poetas, um é o cristo pescador de per- / cebes e o outro é o cavador, poeta das hortas e das horas dormentes. / mas o maior poeta que conheço é a minha avó / :chama vergas à cadeira de onde os olhos se evadem / para o corpo criar metáforas». Com Marta Chaves regressamos ao poema curto de raiz melancólica. Nuno Araújo alterna entre a prosa e o verso um certo abstraccionismo e Rita Branco Jardim opta por uma espécie de lírica amorosa desalentada. Por fim, um tão agradável quão contido erotismo nos versos bem delineados de Sara F. Costa e, a fechar, alguns poemas igualmente ágeis de Susana Almeida. Que outros números venham, é tudo o que se espera.sábado, 12 de abril de 2008
INDIGÈNES
Indigènes (Dias de Glória, na versão portuguesa), de Rachid Bouchareb (n. 1959), não é apenas mais um filme sobre a II Grande Guerra. O cenário serve para lembrar os esquecidos, não deixar sarar as feridas e, mais do que homenagear, exigir uma reflexão sobre a hipocrisia enquanto grande motor da política. Do recrutamento aos dias de hoje, a história de um soldado e do seu pelotão. O que há de especial nestes soldados é terem sido recrutados nas ex-colónias francesas. São nativos da Argélia, Marrocos, etc., que combatem, lado a lado com os franceses, pela França, pela pátria-mãe que trata de modo desigual os seus filhos. Aqueles soldados não se limitam a lutar contra o nazismo alemão, não lutam unicamente pela França, pelos valores da liberdade, fraternidade e igualdade. Eles lutam pela discriminação de que são alvo, uma discriminação que começa logo nos seus companheiros de guerra, nomeadamente nos seus superiores. Bouchareb é translúcido no modo como expõe essa discriminação, perspectivando a presença daqueles soldados no exército francês como mera carne para canhão, apontando o dedo às tácticas e aos métodos praticados para promover soldados franceses e esquecer os magrebinos, chamando a atenção para os pormenores que fazem da História um processo calculista de selecção da memória. Estes combatentes esquecidos não são só, nos dias de hoje, meros soldados perdidos no combate do esquecimento. Eles são a prova de um cancro que ainda hoje nos assola, um cancro que nos obriga a reflectir e a julgar as nossas responsabilidades no estado actual do mundo. Seria redundante ver neste filme apenas mais um exercício sobre a II Grande Guerra ou até uma espécie de panfleto contra a discriminação de que os magrebinos têm sido alvo na França da liberdade, da igualdade e da fraternidade. Este filme mostra-nos também que certos homens estão, à partida, limitados no reconhecimento pelo fatal destino da sua origem. Mostra-nos que alguns homens não precisam apenas de ser bons para serem reconhecidos como tal, precisam, antes, de ser óptimos, excelentes, muito melhores que os demais para serem vistos, pelo menos, como razoáveis. É a condição das minorias: chegar a Deus para estar ao nível dos homens. A uns exige-se tudo para que sejam pouco, a outros praticamente nada se exige para que sejam muito. Este filme é, de certo modo, sobre tudo isso, sobre a tatuagem que ainda hoje marca muitos dos filhos da Europa civilizada: pas de chance.
quarta-feira, 9 de abril de 2008
UM POETA A MIJAR
O título da mais recente colectânea de A. Pedro Ribeiro enviou-me para uma tal de «poesia diurética», expressão usada por Luís Adriano Carlos na introdução a Alegria do Mal, reunião da obra poética de José Emílio-Nelson. Todavia, a poesia de A. Pedro Ribeiro, ainda que declaradamente abjeccionista, nada tem de diurético, procurando antes os caminhos do manifesto, de uma notória obstinação e de uma disfarçada abnegação. Um Poeta a Mijar, editado pela Corpos, surge depois de Saloon, um volume saído nas já clássicas Edições Mortas. Muita matéria os liga, até porque a forma descarnada como A. Pedro Ribeiro se expressa não dá lugar a grandes desvios, inflexões temáticas ou inovações de conjunto. O que é curioso notar é que estes poemas-manifesto, nessa sua forma descarnada, apresentam-se-nos também como um disfarce, o disfarce do poeta maldito autoproclamado, aquele que rejeita as cátedras não porque nada tenha que ver com elas mas porque nada quer ter que ver com as mesmas, o anónimo que opta por trabalhar apenas dois dias por semana para poder passar o resto do tempo a «pensar, criar, partir a loiça» e «observar discretamente / o balançar de ancas da vizinha». O tom não é tanto de galhofa como parece ser de insurreição, é um tom que se manifesta cruamente na consequência de retratos sociais e ilações morais fundamentadas na experiência dos dias, na vagabundagem intelectual, no estilo pouco fundamentado da gente mais comum: «a vida é uma merda». Entram o futebol, a televisão, o euromilhões, os casos políticos, a Internet, os telemóveis, a polícia, como marcos de uma vertigem social e de uma alienação colectiva que o poeta traz para a sua poesia num sentido meramente crítico e purgativo. A par destas expurgações, o sexo, o álcool, a música, aparecem enquanto metáforas vivas e vividas de uma vontade de escapar ao que se julga ser o fado alienante da maioria dos portugueses. A existir uma poesia pop, esta é uma poesia punk. E, tal como no género que os The Sex Pistols imortalizaram, a música é a da celebração da guerrilha, da vontade, do motim, do desvio enquanto caminho possível, enquanto fuga possível, enquanto atalho para uma vida menos morta ou, se quiserem, para uma morte mais vivida. Um poema mais longo, A Ilíada de Velvet, assim como os exercícios em prosa automática intitulados Borboletas, Ode a Jim Morrison, Satã Comeu a Cortesã e O Meu Reino Não É, ou mesmo os dois apontamentos micronarrativos Rock N’ Roll e A Valsa da Elsa, são textos paradigmáticos dessa postura que uns considerarão antipoética, outros julgarão gratuita, alguns tenderão a classificar de panfletária. Quanto a mim, prefiro ver nestes cantos um grito espontâneo, um ruído que nos aproxima daquela loucura que nos salva da normalidade, a atrofiante normalidade dos dias. Prefiro ver nestes cantos, e na voz escalavrada do poeta, um alívio instintivo. Este é, sem dúvida, o livro de um poeta a mijar, de um poeta a aliviar-se dos detritos agressivos que o enchem, incham, infectam no decorrer dos dias. Não é um livro simples como possa parecer. Nenhum livro é simples como parece. É um livro informal, onde a experiência aparece incorporada numa mescla de denúncia, teatro grotesco e eucaristia festivaleira. Não é mais um livro com um programa satírico, de escárnio e mal dizer, não é irónico nem deixa de o ser, não é diurético e, mesmo que possa relevar inclinação abjeccionista, não é de carimbar com ismos e de colocar nas prateleiras ao lado das centenas de livros classificados e classificáveis que diariamente chegam às livrarias. Porque este é, sem dúvida, o livro de Um Poeta a Mijar: «O poeta dirige-se à casa de banho e mija / Sim, porque os poetas também mijam e cagam / Não passam a vida a escrever versos e a apurá-los / Não passam a vida a fazer horas / E a aturar chatos no café / Não andam sempre a micar as meninas / para lhes oferecer poemas / Com fins libidinosos. // O poeta dirige-se à casa de banho e mija» (p. 36).
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