domingo, 4 de maio de 2008

A RESISTÊNCIA DOS MATERIAIS

Vencedor do Prémio Albufeira de Literatura 2007, o primeiro romance do Rui Costa (n. 1972) percorreu o seu calvário até encontrar editor predisposto a colocá-lo nas livrarias portuguesas. O facto não é irrelevante. Antes pelo contrário. Diz-nos muito dos famigerados critérios editoriais de algumas editoras portuguesas, as quais optam por subjugar o interesse literário ao mero interesse comercial. Estão no seu direito, como é óbvio. Por isso não perderei tempo com as toneladas de livros absolutamente insignificantes vindos a lume todos os anos, só porque os seus autores são figuras públicas e frequentam espaços mediáticos que garantem uma abrangente e eficaz promoção desses títulos. Mas não posso deixar de me interrogar sobre o respeito que me merece uma editora que recusa a publicação de um livro ao qual reconhece uma qualidade indiscutível. O que pensar de uma editora que nega a publicação de um livro por vislumbrar nele um grau de dificuldade que não se coaduna com o mercado actual? Que pensar desta cedência ao facilitismo? Que pensar das pessoas, porque por detrás das editoras há sempre pessoas, que, sendo coniventes com o tal facilitismo, são as primeiras a queixarem-se da iliteracia que grassa no país? Afinal, como queremos ter um país mais culto se não só nos acobardamos perante a falta da cultura como não nos importamos de tirar proveito da mesma? Curiosamente, as respostas a estas questões encontram-se todas, de um modo metafórico, no romance A Resistência dos Materiais - romance alegórico para ser lido como um longo poema em prosa, escrito num ritmo que nunca entedia a leitura e desafia constantemente a imaginação do leitor, revelador de uma capacidade narrativa que, pretendendo fugir à banalidade, nunca resvala num hermetismo infundamentado. O grau de dificuldade deste romance é proporcional à inércia do leitor, ao pouco empenho que possa este revelar na fruição de uma história contada como um rastro que se vai deixando num matagal de metáforas extraordinárias. Há uma cidade, e na cidade decorre uma investigação científica sobre a propriedade das sombras. Os frutos dessa investigação terão consequências inimagináveis ao nível do domínio e da capacidade de influenciar os comportamentos humanos, pelo que importa manter o maior sigilo acerca das conclusões entretanto alcançadas. O que teremos, então, é uma metaforização das relações de poder estabelecidas, numa qualquer sociedade, entre os diversos agentes envolvidos numa investigação, na descoberta da verdade, na ânsia do poder. Desde logo, a negra Rafaela, filha do Comissário das Novas Descobertas, onde todas as sombras serão depositadas; o Escritor, aquele cuja função é roubar as sombras dos vivos; Maria, a mulher sem sombra que pode penetrar nas sombras dos outros, a quem cabe roubar as sombras dos mortos; os Donos, modo subjectivo de chamar à liça os homens que detêm o poder, sejam eles políticos, forças económicas, etc… Vem-nos à memória a platónica Alegoria da Caverna, aqui de certo modo invertida quanto ao sentido das sombras. Em A Resistência dos Materiais a verdade está nas sombras, «nós é que somos a sombra do que as nossas sombras são», tudo se apresenta sombrio, compreender as sombras, percebê-las, é deter um poder inigualável. Relativizam-se as coordenadas, «o precário equilíbrio do ser humano», o espaço deixa de ser algo definível para passar a ser algo em transe, o tempo não é mensurável senão na subjectividade do devir, as crianças são igualmente adultas e os velhos parecem crianças. Não “esquizofrenizando” o discurso, o que implicaria uma linguagem dificilmente decifrável, Rui Costa coloca-nos no centro de uma acção onde tudo parece novo, onde a realidade se reconstrói a cada frase, como numa espécie de cenário futurista ou num filme de ficção científica. E talvez seja disso que estamos realmente a falar, de uma estranha ficção científica com palácios, bruxas e princesas. Resistência dos materiais, informa-nos a Wikipédia, «é a ciência que estuda o comportamento elástico e plástico dos materiais à acção de força». Neste romance, Rui Costa propõe-nos um estudo romanceado da elasticidade dos comportamentos humanos à acção do poder. Por isso dizemos que as respostas às questões supracitadas vêm, de certo modo, no próprio romance, pois «no fundo de outro fundo há um poço e ninguém espreita a sua imagem lá dentro enquanto tiver medo de cair».

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