Os barómetros da vida estão todos baralhados. Nem podia ser de outra forma, ao pretenderem atribuir percentagens ao optimismo e ao pessimismo com que tentamos olhar para o futuro. Se a ideia de olhar para futuro é arrepiante, quanto mais olhá-lo com pessimismo ou com optimismo. Sejamos razoáveis, é impossível olhar para o futuro. Vemos apenas morte. É esse o futuro. Por isso importa olhar para o presente, mas sobre o olhar do presente não se fazem estatísticas. O presente é o devir e sobre o devir não reinam os números. Podemos afirmar que as pessoas vivem melhor ou pior conforme verifiquemos que as suas necessidades estão mais ou menos satisfeitas. Mas há lá coisa mais subjectiva do que as necessidades de cada um? A nossa necessidade de consolo é impossível de satisfazer, dizia o escritor sueco Stig Dagerman. Talvez se tenha suicidado por isto mesmo. Talvez não lhe faltassem os bens materiais que tornam consolável a vida de muitas pessoas, mas faltou-lhe algo sem o qual não conseguiu sobreviver. Por vezes penso que não preciso de mais nada na vida: uma máquina de escrever, um cigarro e o meu amor a olhar para mim, por mim, através de mim, o que escrevo. É claro que um homem não sobrevive sem as contas pagas. Mas precisaremos nós de mais do que água, luz e gás? E há o carro, pronto, e a Internet, ok, concedo… a comidinha, umas mudas de roupa. Há esses bens “básicos”, esses pequenos luxos do lixo sem os quais se torna hoje difícil sobreviver. Precisaremos de muito mais? Afinal, em que pensam as pessoas quando pensam na possibilidade da sua vida melhorar? Será que não têm estas necessidades já satisfeitas? Será que lhes falta o consolo que é impossível satisfazer? Ou será que não têm tempo para o consolo porque andam na vida à procura de uma casa na praia, férias no Brasil, salas repletas de presentes inúteis na noite de Natal, mergulhos em piscinas atafulhadas de gente, hotéis de luxo, roupas de marca, carros mais rápidos, telemóveis da última geração, centros comerciais?... São perguntas simples, o discurso é simplista, objectivo, são questões para as quais não encontro uma resposta. Eu sei que passo muito bem com pouco e sei de quem não passe bem sem muito. As pessoas são diferentes. E eu não vim ao mundo para espalhar a mensagem. Permitam-me, e não me levem a mal que o declare neste tom estupidamente profético, que aquilo a que os políticos chamam “ventos de mudança” é um logro para colar as pessoas a uma vida desperdiçada ao serviço dos pequenos luxos. Mas há quem prefira gozar o mundo com corações de plástico. Que podemos nós fazer? Into The Wild responde-nos a esta questão com uma comovente honestidade, convence-nos, provoca-nos algo cada vez mais raro: uma fascinação espantada. A mesma fascinação que nos é oferecida pelos textos de Henry Thoreau, que um dia terá questionado o sentido dos novos meios de comunicação quando as pessoas nada têm para dizer umas às outras. Preocupado em tornar poético o seu modo de vida, preocupado em ganhar a vida e não a morte vivendo intensamente, Thoreau experimentou vários ofícios que pouco tinham que ver com a sua condição de intelectual. Apolítico, desprezando a vida alienadora das grandes cidades e a escravatura da industrialização, fez-se filósofo da natureza. Partiu para os bosques, construiu uma pequena cabana nas margens do lago Walden e aí viveu durante dois anos, regressando posteriormente à urbe para manter dentro de si o desassossego, a inquietude, para não se “waldenizar”. O termo é de Kenneth White, que num estimulante livro intitulado O Espírito Nómada dedica algumas páginas inteligentes à obra do norte-americano Henry David Thoreau. E eis que estou de regresso ao Papalagui de sempre com um sorriso nos lábios da memória: «assim como é de mau gosto um homem atravancar o peito com muitos colares de conchas, igualmente o será com o pesado fardo do dinheiro. Dificulta-lhe a respiração e tira-lhe a liberdade de movimentos de que os seus membros necessitam». Eu não odeio o metal redondo, mas odeio a ideia de me deixar entregar à ditadura do metal. Porque o sorriso do meu amor quando olha para mim não é pagável, nem o sono sossegado das filhas se transacciona como uma mercadoria, nem o sol que hoje iluminou o Tejo cobrou imposto. Daqui a nada, não estaremos por cá. E isto é tudo o que preciso de saber para saber o que não quero.
sexta-feira, 27 de junho de 2008
sábado, 21 de junho de 2008
VELHOS
sexta-feira, 13 de junho de 2008
AS CANTINAS
sexta-feira, 6 de junho de 2008
A CABEÇA DE BAPTISTA
Não é vulgar um poeta publicar quatro livros de poesia num só ano, muito menos vulgar tratando-se de quatro livros premiados. Aconteceu já este ano, e ainda vamos a meio, com o poeta Amadeu Baptista (n. 1953), que após Outros Domínios (Clamor por Florbela Espanca) – Prémio Literário Florbela Espanca, 2007 -, publicou recentemente, em belas edições da Cosmorama, os títulos O Bosque Cintilante - Prémio Nacional de Poesia Sebastião da Gama, 2007 -, Sobre as Imagens - Prémio Nacional de Poesia Palavra Ibérica, 2008 - e Poemas de Caravaggio - Prémio Nacional de Poesia Natércia Freire, 2007.
Comecemos por O Bosque Cintilante. Colige mais de oitenta pequenos poemas em conexão com composições de Mozart, Strauss, Chopin, Vivaldi, entre outros. Vem-me à memória a Arte de Música (1968), de Jorge de Sena (1919-1978), livro memorável onde o exercício poético surgiu como forma de falar na arte da harmonia e os poemas impunham-se, também, como «transfiguração poética da música». Em O Bosque Cintilante encontramos, porém, uma outra experiência. Eles podem expressar uma mera impressão causada pela audição da obra, mas também recriam, de um modo seguro e reflexivo, aspectos biográficos dos compositores e das obras, em correlação com a disposição afectiva do poeta. Sendo assim, podemos observar três mecanismos de produção neste conjunto: a mera fruição das peças origina os versos, o conhecimento histórico dos autores motiva reflexões de vária ordem – por vezes num tom ligeiramente aforístico -, a experiência pessoal aparece disfarçada, ao mesmo tempo que legitimada, pelas vivências alheias. Este elo de ligação ao mundo, através de um processo criativo sobre outras criações, resulta não apenas naquilo que é costume apelidar-se de “poesia culta” mas antes na construção de um lugar salvífico, o lugar da comunhão possível, um lugar de encontro e de diálogo alternativo à cruel paisagem humana da actualidade (solitária por excelência, se assim podemos dizê-lo). Daí que sejamos constantemente confrontados com jogos de tonalidades onde a recorrência da «luz mais verdadeira» (p. 39), da brancura, da «subtil transparência do olhar» (p. 48), do esplendor, da clareza, do brilho, da clareira, seja amiúde confrontada com uma «sombra que baila» (p. 45), a treva, o «sol nocturno que nos vigia» (p. 21), numa união que não enjeita os duelos mas tenta resolvê-los: «Vejo todas as coisas com a irrealidade da luz / filtrada sobre o peso inverosímil da neblina. / A música evolve a água, / como uma linha de pássaros dentro da cabeça / enquanto a neve cai e flutua no horizonte o bosque cintilante» (p. 38).
Já no volume intitulado Sobre as Imagens, sexto da Colecção Palavra Ibérica, as referências são 14 painéis expostos no Museu de Grão Vasco. Em nota prévia, o autor esclarece-nos não se tratar este ciclo de «uma recriação ecfrástica da iconologia desses painéis». Não estamos, pois, perante exercícios descritivos, embora muitas vezes assim pareça: «(…) na imagem, está assim, com o corpo estarrecido (…)» (p. 9). Somos frequentemente encaminhados para as imagens, para os contrastes entre a luz e a escuridão, num processo multirreferencial que chega a ser exaustivo. O território é o de uma espécie de “poesia sacra” com ligações constantes aos lugares bíblicos: o monte Hermon, Jerusalém, Magdala, o deserto da Jordânia, Roma e Alexandria, Galileia, o Sinai, Genesaré, Gólgota, etc. Mas estes lugares bíblicos não são apenas recriações da geografia onde Deus feito homem pelos homens foi crucificado. São também uma reconstrução da história, um evangelho pessoal inspirado (faz todo o sentido aqui este termo) num testemunho pictórico. Não é, quanto a mim, dos livros mais cativantes de Amadeu Baptista, por nele vislumbrarmos uma fórmula que o próprio autor vem repetindo, deixando uma sensação de desgaste e alguma monotonia.
Tudo é diferente com Poemas de Caravaggio, certamente um dos melhores livros deste autor e um dos mais interessantes livros da poesia portuguesa dos últimos anos. No prefácio, Joana Ruas chama a atenção para «a íntima relação entre poesia e pintura existente no período barroco e que se pode resumir no pensamento: a pintura é poesia muda e a poesia é imagem que fala» (p. 10). O livro começa com um conjunto de oito Sonetos marcados por várias interrogações metafísicas onde estão em causa, principalmente, os paradoxos implicados numa relação conflituosa com a ideia de Deus. Seguem-se seis Poemas Sobre Tela, ou seja, seis explicações, pela hipotética voz de Caravaggio, para outras tantas das suas obras mais conhecidas. Muito haveria a dizer acerca destes poemas, sendo que não pode passar despercebida a intenção de reconstruir uma inquieta e inquietante visão do mundo. Não é possível ficar indiferente a estes versos: «O mundo, agora, é só hipocrisia. / E, por isso mesmo, a minha regra / é não ter regra nenhuma / - em busca da brandura / vou de sítio em sítio, / a procurar um sentido nos sentidos, / ou alguém que não difame, / ou que não roube» (p. 43). Poemas de Caravaggio encerra com Três Elegias seguidas de mais três Últimos Poemas. São textos extraordinários, até pelo modo como contrapõem a carne à matéria espiritual, a relação com o corpo feminino à relação com Deus, reconstituindo um tempo que, para mal dos nossos pecados, ainda se parece absurdamente com o nosso.
segunda-feira, 2 de junho de 2008
SAUDADE #10
Saudade - Revista de Poesia
N.º 10, Junho de 2008
Director: António José Queirós
Associação Amarante Cultural
Poema do Novo Egipto, p. 28
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