Quarta-feira, 25 de Fevereiro de 2009

ENTRE O VIVO O NÃO-VIVO E O MORTO, 2

Nota-se bem a diferença. O número 2 da revista Entre o Vivo o Não-Vivo e o Morto, editada pelo CEPiA (Centro de Estudos Performativos i Artísticos), sedeado em Évora, está muito mais apelativo do que o primeiro. Graficamente, a evolução é inegável. Apesar de se definir, em editorial, como uma «revista filosófica não-académica», a Entre o Vivo o Não-Vivo e o Morto extravasa os domínios vulgarmente reconhecidos da reflexão. É uma revista de pensamento criativo, de estimulação das ideias e de provocação de sensações. Quando envereda pela reflexão, resvala numa espécie de saturação que transforma o ensaio em literatura e a literatura em exercício do pensamento. Os textos aparecem equilibradamente ilustrados por Isotta Dardilli, reservando-se as páginas centrais à arte de Tamara Alves. Invadido pela curiosidade, fiquei a saber que Tamara estudou na ESAD (Escola Superior de Artes e Design), em Caldas da Rainha, e realizou um mestrado na cidade do Porto, onde reside actualmente. Os trabalhos não me são estranhos, assim como o nome, pelo que não enjeito a possibilidade de já me ter cruzado anteriormente com estas personagens numa qualquer rua de uma qualquer cidade. Agradou-me especialmente a primeira reprodução, intitulada urban jungle II, com o preto do vestido e da cabeleira de uma mulher fatal fundindo-se nas listas de um tigre de Bengala. O fundo, preenchido por uma parede cor de tijolo grafitada anarquicamente, salienta a altivez da fusão estabelecida entre as duas figuras. Juntos, o estilo afro da mulher e o tigre branco inspiram-me várias sensações, todas elas convergindo para o domínio da resistência e da invulgaridade. Também cada vez menos vulgar é o riso proporcionado por uma boa ideia. Vítor Moreira é o autor de A Verdade, a verdade é que no tempo do mudo era assim…, argumento do qual se extraiu uma pequena cena para amostra nesta edição da revista em causa. O tom é de comédia. No termo de uma sessão de trabalho, um investigador policial pede a um técnico em leitura de lábios que decifre os diálogos mantidos entre os actores do filme The Poor Little Rich Girl, mudo realizado por Maurice Tourneur em 1917. As conversas mantidas entre Mary Pickford e seus comparsas revelam-se delirantes. Há ainda um texto de Marta Bernardes a lembrar-nos o carácter ambíguo das varandas enquanto lugares que estendem o espaço interior das casas ao exterior das ruas. São um interno que está fora, um externo que está dentro. Belo lugar, o das varandas. José Manuel Martins deixa-se fascinar pelo velho problema da origem, enquanto Rui Cancela discorre sobre a índole sedutora do Diário de um Sedutor. Narrativas de inclinação poética assinadas por Fernando Machado Silva e Sílvia Ramalho, assim como a persecução da farsa biográfica de António Matos Silvestre, suposto precursor do modernismo português, antecedem a excelente entrevista final a JP Simões. Fala-se de Edgar Pêra e de André Carrilho, cinema, ilustração, música, fala-se de amores e de aventuras, viagens entre Portugal e o Brasil, fala-se de partir e de ficar, de Coimbra, dos Pop Dell’Arte e dos Belle Chase Hotel, fala-se de canções, fala-se de Zeca Afonso: «O que ouvia mais em Coimbra eram dois José Afonsos: era o Dr. José Afonso, que esganava doutamente aquele falso lirismo académico, aquelas coisas galináceas que se cantam em Coimbra, de gajos que têm uma postura chorona, são muito condescendentes com o povo e se comovem, mas que são como as gaivotas em terra que não lhes interessa quem está cá em baixo quando resolvem fazer as necessidades. E, por outro lado, o outro José Afonso também símbolo de um ‘grupismo’ comunista primário que também me dava uma tremenda seca. Acabei por rejeitar esses dois lados dele e aquele que encontrei recentemente é o terceiro: o músico, compositor e poeta intenso e genial» (p. 36). Comentários para quê? As respostas de JP Simões são um exemplo permanente de problematização e de dúvida. É nelas que reside o mais filosófico que encontramos neste número de Entre o Vivo o Não-Vivo e o Morto, o tal tom filosófico não-académico que se anuncia no editorial e nestas respostas se materializa sob a forma de ironia, honestidade, agilidade intelectual e experiência de vida. A ler.

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