A mulher do escritor comprou um saco de avelãs para lhe fazer um docinho. Queria surpreendê-lo antes que ele chegasse da caminhada, o mesmo que noutras famílias seria chegar do trabalho. O trabalho do escritor começa na caminhada. Estamos a falar de um escritor rural. Quanto a escritores urbanos, sabemos que o trabalho deles começa no banho. Nada mais sabemos acerca de escritores urbanos. O escritor rural começa sempre a alinhavar as primeiras frases dos seus mais ou menos longos textos durante as caminhadas, enquanto encara os enredos da chamada inspiração no fôlego das concertinas, enquanto lava o rosto na brisa infinita dos vales e abre os braços à largura dos extremos para que neles pousem pássaros imaginários com pêlos no lugar das penas. As penas do escritor rural reservam-se à família, ao cão com pulgas enxotado para lá do carinho que se vai mastigando diariamente como uma mágoa espirrada contra o vento. Pela manhã, o escritor rural observa as lebres saltitantes à mercê dos balázios, concentra-se no canto dos melros com aquele fervor típico de quem só tem ouvidos para melodias inesperadas. Guitarras havaianas, bandolins, o som das botas levantando o pó da terra, ervas amassadas pelo peso do corpo, banjos tocados na berma de um fresco desvario, todos esses sons pousando sobre os braços abertos do escritor rural como se fossem pássaros com pêlos no lugar das penas. É preciso sacudir o escritor rural, descobrir-lhe os amigos imaginários. São frequentemente convocados com a permissão das musas. Ele abre os braços à largura dos vales, os amigos pousam nos braços, porque voam por cima dos passeios, e pousam desprevenidos na rasura épica das pianolas. Na cabeça do escritor faz todo o sentido falar destas rasuras. Quem nunca viu uma pianola arreigada à terra, com erva daninha disseminando o seu verde sacudido pela distância, quem nunca viu esse tronco da pianola coberto de musgo, expulsando dos veios cogumelos de cordas, violinos, violoncelos, cordas de nylon tocadas à moda mexicana, quem nunca viu essas coisas na superfície das pianolas não pode sequer imaginar os amigos convocados na cabeça do escritor rural. Esta melodia acompanha-o regularmente pelos carreiros não sinalizados das terras incógnitas, persegue-o como uma sombra num dia de Sol, lê-lhe os desejos tímidos, insatisfeitos, da assumida cobardia. Então ele chega a casa e a mulher brinda-o com avelãs doces, femininas, o sorriso sentado de uma companhia à espera, toda a realidade naquele sorriso depois da caminhada, ela brinda-o com o mais que pode fazer para manter os instrumentos activos e a música liberta de palavras inúteis, a mulher brinda-o com docinhos de avelãs. Mas ele tem o coração preso aos amigos imaginários, mas ele mas, mas, mas, ele mastiga os amigos imaginários por um pequeno momento antes de se entregar todo ao trabalho que ainda agora começou. Ele traz para casa os primeiros trechos de uma longa caminhada, ele traz os primeiros passos para dentro de casa, ele traz a caminhada para dentro de casa, enrola-a bem enrolada na cabeça e a cabeça enche-se de pianolas cobertas de musgo, pássaros com pêlos no lugar de penas pousando nos seus braços abertos à largura dos extremos, valsas de melros rodopiando-lhe a cabeça, lebres saltitando boleros, tangos, melodias mexicanas saídas de filmes de cowboys arrastando-se por dentro dos duelos, ele traz tudo isso para dentro de casa e a mulher não percebe como tudo isso pode sobrepor-se à doçura das avelãs, ele traz a cabeça cheia de caminhadas, ele traz o corpo extravasando caminhadas e precisa de parar tudo isso no silêncio descoberto das páginas, precisa de estender a caminhada pelos corredores da casa. Ele precisa de regressar à tempestade para que a tempestade, partilhada, possa ser ouvida como o teclado de uma pianola algures perdida no mato solitário das terras incógnitas.
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