Sexta-feira, 20 de Fevereiro de 2009

MAL ME QUER


Nem sempre a morte se revela com a evidência do que nasce. Se cego os olhos na luz que atravessa os eucaliptais, se vejo ali disseminadas as sementes desse mundo que não pede cuidados humanos, então penso na vida para lá da morte como um aqui e agora, neste preciso instante, que guardo para sempre. Nem sempre para sempre quer dizer eternamente.


Os pinheiros ainda jovens não podem sequer supor o fim que lhes está destinado. Em torno deles irrompem selvaticamente da terra os perfumes com que a morte se despede. Porque debaixo da terra tudo é uma estranha decomposição fazendo-se de novo vida, trazendo à superfície outra luz que nos cega e desmente, ainda que momentaneamente, os pesares da tristeza.




Mal me quer quem assim não veja para lá das turvas corolas com que adorna seu discurso, presumindo, talvez, decadência no chilreio dos pássaros e miséria neste mar desabrochado entre cepas desnudadas. Mal me quer quem assim não veja a cegueira desta luz, chamando-nos para dentro do que já somos e não sabemos: a terra revolvida de uma misteriosa colheita.

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