Havendo tempo, suspende-se a pressa na berma do caminho e olha-se pasmado a nudez do inverno. Até nestes momentos me censuro. Queria saber o nome daquele amarelo distinto, perceber por que entre os troncos frios das companheiras ele se mantém tão quente e belo e vivo. Mas pensando melhor, o caminho que vai dar não sei onde compraz-me na incerteza. A verdade é que não preciso de saber o nome das coisas para delas reter o esplendor.
Ainda assim, obrigo-me a olhar mais de perto esta explosão de alegria que nasce entre silvados e canaviais. E mais de perto concentro os olhos na cor, deixo-me levar pela cor até ao silêncio, fico ali parado orando nos meus modos muito íntimos de orar, dando graças à cor por este magnífico silêncio. Para trás ficaram os motores em marcha de um previsível e repetitivo quotidiano. Para trás ficaram os ruídos, a azáfama de fomes adversas a uma solidão de estar só. Nesta companhia silenciosa e resplandecente, nada nem ninguém para me lembrar as dores da solidão.
Que estar só é apenas estar em má companhia. Aqui mergulhado, os olhos entram pelo corpo adentro e não se sentem incomodados. Aqui, podemos olhar concentradamente a beleza sem instigar a dúvida. Podemos olhar fixamente o silêncio sem recear a censura de quem é olhado. Podemos tão compenetradamente penetrar no âmago da cor, que dela um sol vem à nossa pele dizer que está na terra, entre canaviais e silvados, para que as desnudadas companheiras não morram de frio no inverno.
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