Quinta-feira, 12 de Março de 2009

A (EST)ÉTICA POSSÍVEL

Eu sinto sempre o que escrevo.
Posso muita vez não sentir nem pensar o que digo, mas o que escrevo, sinto-o sempre, e sempre o penso.
Ângelo de Lima


Na cena da violação - Irreversível - há alguém que vê e não só cala como consente. Volta para trás, foge. A teoria de que devemos ignorar o que é mau resulta neste tipo de fugas. Enquanto engolimos a nossa raiva num desconfortável silêncio, numa vergonhosa indiferença, as cenas de violação perpetuam-se para lá dos filmes. Já não há cowboys a sério. Restam-nos jardineiros de fato e gravata. O mundo que se lixe, o que importa é a nossa alegria, a nossa e a dos nossos, só isso, mais nada. Amizade e amor: é isto que têm para oferecer contra o egoísmo e contra a brutalidade? Se é para isto, para que foram precisos a Inquisição e a Censura? O Tibete fica longe, Darfur é uma miragem, sobre o mal - o nevoeiro da nossa indiferença, poemas inúteis. Dêmos as mãos e bailemos o tango burguês da nossa literatura. A liberdade que se foda, é mais útil calar do que escrever o que se sente e pensa. Que se foda o útil. Que se fodam Ângelo de Lima e todos os lunáticos como ele.

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