Quarta-feira, 29 de Julho de 2009

TRÍPTICO DA PRISÃO DE VENTRE

Abriu de pontapé a porta da casinha. Melhor tomar cuidado para não sujar as calças por causa do enterro. Entrou, inclinando a cabeça por sob o lintel baixo. Deixando a porta escancarada, em meio ao fedor da caiação mofada e das teias poeirentas baixou os suspensórios. Antes de assentar-se espiou por uma fresta a janela do vizinho. O rei estava em seu tesouro. Ninguém.
Refastelado no trono desdobrou o jornal virando as páginas sobre os joelhos nus. Algo novo e fácil. Não há grande pressa. Demorar-se um pouco. Nossa novidade premiada.
O golpe-de-mestre de Matcham. Escrito pelo senhor Philip Beaufoy, Clube dos Playgoers, Londres. Pagamento à razão de um guinéu por coluna foi feito ao autor. Três e meia. Três libras e três. Três libras treze e seis.
Calmamente ele lia, dominando-se, a primeira coluna e, cedendo mas resistindo, começou a segunda. A meio, uma última resistência cedendo, permitiu que os seus intestinos se aliviassem de todo enquanto lia, lendo ainda pacientemente, toda ida aquela ligeira prisão de ventre de ontem. Espero não seja demasiado grosso e provocar hemorróidas de novo. Não, está exacto. Assim. Ah! Constipado, uma tablete de cascara sagrada. Vida podia ser assim. Aquilo nem o agitava nem o comovia, mas era algo rápido e limpo. Imprime-se qualquer coisa hoje em dia. Época idiota. Lia adiante sentado calmo sobre o próprio odor montante. Limpo certamente.
Matcham pensa frequentemente no golpe-de-mestre com que ganhou dessa bruxa gargalhante que agora. Começa e termina moralmente. A mão na mão. Sagaz. Remirou o que lera e, no que sentia verter sua água calmamente, invejou com carinho o senhor Beaufoy que escrevera aquilo e recebera de pagamento três libras treze e seis.

James Joyce, in Ulisses, trad. António Houaiss, p. 55, 6.ª edição, Difel, 1994.


Comi e dormi. Outras vezes dormi e comi. Depois a minha tripa apertou e a minha mãe trouxe um saco de clister. A poção resultou. Depois trouxe-me outro, fechei a porta da casa de banho e apliquei-o. Sucesso! Até rugiu ao sair de mim. Do outro lado da porta, a minha mãe aplaudiu.
— Graças a Deus!
Foi como se aquela purga tivesse lavado tudo o que me perturbava, os venenos do corpo, as abominações da alma. De manhã sentia-me limpo e puro. Levei uma mesa de jogo para ao pé da janela e comecei a escrever.


John Fante, in A Confraria do Vinho, trad. Luís Ruivo, p. 102, Teorema, 2007.


Segunda-Feira, 9 de Agosto

Acordo tarde (passa das 10) e cago cedo. Não estava à espera que um cagalhão de cordeiro se avolumasse durante a noite, até ganhar as dimensões de um cagalhão de bode. Difícil e espremida expiação, a deste ciclo digestivo. À laia de último retoque, e para que seja maior o inesperado, deposito uma minúscula caganita no fundo da sanita, após o que dou a tarefa por concluída. Passo de seguida à habitual lavagem do cu, este aliás levemente dorido pelo esforço de o esgarçar.
Começar um dia em que o nosso próprio cu nos dá vontade de rir (e uma vontade de rir ligada à vontade de cagar) é, no mínimo, auspicioso.

João César Monteiro, in Uma Semana Noutra Cidade, p. 20, &etc., Novembro de 1999.