Para o filho do Álvaro, que nasceu hoje com o cu voltado para o mundo.
─ O que queres?
─ Paz no Médio Oriente e um orgasmo de três horas…
In Californication
Quando eu era um teenager inconsciente e pensava que iria morrer aos 27 anos, ficava até altas horas da madrugada a discutir o sexo dos anjos. O Mário acreditava nos astros, eu punha fé nos versos. Em ambos os casos, o que nos fintava as convicções era o problema da hermenêutica. Metemo-nos a interpretar, e o mundo sai torto. Acontece o mesmo com os provadores quando levam o garfo à boca. Ficassem eles pela degustação e os resultados seriam diferentes. Sucede que não conseguem provar sem descobrir neste e naquele palato um ingrediente a mais, uma especiaria a menos. É a hermenêutica o que lhes atrapalha o paladar. Ora, os tempos da juventude são cada vez mais o cais que ficou para trás. Agora sou um adulto inconsequente. Aproveito a experiência adquirida para não me deixar ludibriar pelas interpretações. Já não pretendo mais do mundo do que alguns poucos metros quadrados circundantes que julgo admissível reivindicar como sendo meus, não no sentido de os possuir mas no sentido de me pertencerem. Permitam-me o parêntesis: há uma grande confusão entre pertencer e possuir. Por exemplo, eu pertenço à minha família (pelo menos tanto quanto ela me pertence), mas não a possuo (pelo menos tanto quanto ela me…). É nesse núcleo restrito que a gente pode mudar alguma coisa. E começar a mudar por aí pode significar o começo de um sucessivamente cujas fronteiras não são determináveis. Isto parece conversa de Osho, mas não é. O esquimó da Índia pretendia atingir a verdade, eu espero apenas que a verdade me atinja o mais tarde possível. E, de preferência, de mansinho.
1 comentários:
o californication é um tesouro (descoberto há pouco, para mim) de diálogos citáveis, notáveis, e outros áveis muito bons.
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