Quando Benjamim pousou na janela de Baltazar, não ocorreu na consciência deste qualquer cisão entre o mundo da fantasia projectado no ecrã e a imagem real de uma ave aterrando numa janela. Ficção e realidade eram exactamente a mesma coisa, pelo que o pombo acabara de pousar não na vida de Baltazar mas no episódio de Uma Casa na Pradaria a que este assistia. O nosso herói estancou os olhos no pombo durante três quartos de hora. Nos seus cronómetros internos três quartos de hora significavam pouco mais que dois minutos. Sabe o leitor que um dos efeitos da hidroerva consiste na adulteração da experiência temporal: uma hora transforma-se num minuto e um segundo parece a eternidade. Constatamos inclusive que a humanidade anda toda ela sob o efeito de uma curiosa alucinação temporal, não se distinguindo de um relógio avariado. A história vai-se repetindo como se nunca tivesse acontecido, o presente cumpre-se sem pedir explicações ao passado, o futuro é uma incerteza sem rede. O que para uns é um longo atraso, para outros é a mais inglesa das pontualidades. Dizem-nos que a refeição demorará cinco minutos. Esperamos uma hora e nada acontece, os acepipes continuam nas mãos de um cozinheiro alucinado. Pedem-nos hoje o que é sempre para ontem, e sempre que nós solicitamos alguma coisa para ontem é como se estivéssemos a pedir para amanhã. Baltazar conhecia bem esta sensação da velocidade parada do tempo, ou, se preferirem, do estacionamento em marcha dos ponteiros. Por vezes, sucedia-lhe esperar horas pelos episódios de Uma Casa na Pradaria, consecutivamente programadas para uma espécie de hiato temporal, uma hora riscada da programação. Quando o episódio iniciava, logo se assistia ao seu fim. Parecia não ter durado mais que cinco minutos. Eis uma das leis irrevogáveis da vida: o prazer é efémero, a dor é interminável. Por isso duram tão pouco tempo os orgasmos e demoram tanto tempo as feridas a sarar. A hidroerva ajudava a inverter esta cadência, transformando o perene em efémero e vice-versa. Explica-se desta forma que Baltazar apenas tenha caído em si quando começou a sentir a falta de Michael Landon no monitor. Aquele pombo estava mesmo pousado na janela da sua casa. A janela da sua casa, ainda que fosse uma janela aberta para o mundo, dificilmente viria a revolucionar o que quer que fosse. Ou nem tanto.
Escrito para O Indesmentível.
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