Desçamos ao subterrâneo dos palácios em ruínas, secas torres onde as cegonhas fazem ninho, desçamos aos jardins afundados pela sombra, o calor não nos mata a sede, desçamos. Debaixo da cidade vermelha, os tesouros afundados da história. É sempre assim: por mais que nos comova, o passado não mata a fome.

Apáticos como as serpentes, respondemos à música dos encantadores. Das sirenes surdem cânticos que não entendemos, mas param por breves instantes o sangue derrotado pela azáfama sem horas. À hora certa, como a serpente numa masmorra, deixamo-nos cativar pela oração do muezzin. Não quero compreender este fascínio. Compreendê-lo, seria o mesmo que dar cabo dele.

Mas que pensar da criança que nos pede os restos das tajines, lambuzando-se num osso que julgaríamos apenas osso não fosse a satisfação daquelas lambidelas? Haverá pobreza nesta pobreza? Haverá dor nos dentes expostos como se fossem parafusos sem gengiva? Um sumo de laranja, a perna temporariamente tatuada com hena, como temporário será o gosto da laranja escorregando na garganta. Que perdure então a memória da criança, lambuzando-se num osso como se fosse um cão.

Para tudo haverá uma cura, uma pedra, um chá, uma pomada, para tudo haverá um cheiro, uma cor, para tudo haverá um frasco contendo segredos ancestrais. Na praça, os contadores de histórias logram imensa audiência. O povo reúne-se em torno da voz antiga. Ora ri, ora espanta fantasmas com a boca aberta de quem está compenetrado. Com menos audiência, escutamos nós em língua inteligível a explicação das ervas. E seguimos duplamente perfumados: o corpo lustrado de âmbar, a alma perfumada de ouvir.

Descansa, mergulha por instantes na calmaria das águas o teu corpo tenso. Logo se agitarão com promessas, dúvidas, dívidas, os músculos que agora relaxam. Se algum dia pensares no sol, lembra-te: é debaixo de uma sombra que ele mais embeleza o mundo.
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