segunda-feira, 17 de agosto de 2009

NARRATIVA

«Lembro-me, como se fosse agora, do esquecimento.»


À medida que ia avançando, vinham-me à memória algumas páginas do Panegírico (Antígona, 1995), de Guy Debord (n. 1931 – m. 1994). Nesse documento final, o pensador situacionista deixou-nos um testemunho de vida que não se esgota no mero relato biográfico. Nele, podemos encontrar a um mesmo nível a agudeza de um olhar reflexivo sobre as circunstâncias experienciadas e a exposição arriscada sobre o que motiva as acções de quem se inclina mais para a vagabundagem inconformista do que para a quietude dos conformados. Haverá muitos motivos para agir desta ou daquela maneira, e o homem é tão determinado quão determinante nas decisões que toma. Panegírico era, também por isso, um título contaminado de ironia, sobretudo quando mais do que auto-elogio o que estava em causa era o sentido autocrítico que apenas serve aos melhores.

Optar por trazer objectivamente a vida à página é, pois, uma opção arriscada. A nossa vida extravasa os limites da página e pode interessar a pouco mais que a nós próprios. Outro problema, lembrado por Debord, surge da necessidade de aquele que opta por se dizer estar consciente do «seu próprio lugar no fluir do tempo, e também na sociedade». Pode, no entanto, sem à página se circunscrever, o homem dizer-se pondo em causa «a lógica do testemunho» (Jacques Rancière), ou seja, já não apenas como aquele que presenciou os factos, mas também como aquele que interveio e continua a intervir sobre os factos. Quando assim é, a testemunha transforma-se igualmente em réu. Dêmos folga às vítimas. Testemunha e réu são, neste caso, figuras do mais implacável dos tribunais: a memória.

As primeiras frases de Narrativa (Frenesi, Junho de 2009), o mais recente livro de Paulo da Costa Domingos (n. 1953), abrem-nos a porta desse terrível tribunal: «Nem me lembro de ter nascido. Estou aqui desde sempre. Faça-se de conta que nada disto aconteceu. Há quem julgue o imaginário menos cruel que a vida quotidiana. Talvez menos que a memória; mesmo a memória sumária» (p. 7). Sublinhe-se a ironia do discurso, um fazer de conta empurrando-nos para supostas ficções, aponte-se o uso do verbo julgar, talvez mais no sentido de supor, separando as águas do imaginário das inquietações da vida quotidiana. As memórias sumárias que agora arrancam, serão um inventário de recordações debatendo-se constantemente com as feridas do presente: dantes era a «tortura fascista dissimulada», «hoje, é esta coisa amorfa sem rosto».

Contudo, estas páginas são também atravessadas pelo gume da des-ilusão. Não confundamos a negação das ilusões com o abatimento dos arrependidos. O que não se esquece de outrora, acentua-nos o desconforto de um agora esquecido, desmemoriado, desinteressado, apático e indiferente, um agora agónico que não sabe aprender com o passado por julgar idos os tempos que nunca foram. Sendo assim, na primeira viagem deste livro somos guiados pelos olhos de um miúdo lisboeta, pela solidão de um autodidacta vindo do nada a crescer para qualquer coisa: «Claro que desde logo surgiram as rãs críticas numa áspera cacofonia. Invejas, confirmei posteriormente. Eu vinha do nada, nem nome de família, uma avô jardineiro e ferozmente anticlerical, outro virado às estradas a abrir caboucos. Doutores não se via lá por casa; só quando alguém ficava doente… desses doutores» (p. 19). Um bom nome de família dá sempre muito jeito em terra como a nossa, estruturada em torno de oligarquias empenhadas contra tudo o que poça ameaçar, nem que seja de raspão, os seus mais ordinários interesses.

Foi o poeta Paulo da Costa Domingos recebendo os exemplos do «não-alinhamento sistemático», guardando para si, como um tesouro inalienável, os frutos da amizade. Entre outras, destaque-se a amizade mantida com o editor Vitor Silva Tavares. Certo é que a vida literária não esgota a vida. Narrativa lembra a família, as partidas, as ausências, os desaparecimentos, algumas estórias domésticas, felizes vizinhanças, deambulações. E, perdoe-se-me a vulgaridade da expressão, mas o melhor elogio que consigo fazer a este livro raro é o de que nos narra uma vida com o coração nas mãos. Passados os verdes anos, a história prolonga-se até 1995 e anos seguintes. Convém também esclarecer que os planos se interligam. De outra forma seria atentar contra a verdade. O plano da vida privada cruza-se com o da vida literária, ambos com a vida social e política.

A divisão do texto em períodos ajuda-nos a situar historicamente as reflexões de carácter sociopolítico, a descortinar nas mais diversificadas experiências algo que afasta fatalmente o testemunho do poeta de Asfalto do testemunho de Debord. Se o segundo pôde dar-se ao luxo de afirmar que «a época presente pouco se pode comparar às do passado», o primeiro opta por compará-las no que mantêm inalterável: um conservadorismo atroz, uma irremediável tendência para a «domesticação colectiva» (p. 76). Contra tais vícios: firmeza ética, acção po-ética. Os livros vão surgindo e são recordados, fundamentados à luz dos tempos em que foram aparecendo. Fica claro e dá gozo ler um poeta a falar assim do seu trabalho. Mais do que consequência do lugar, a poesia de Paulo da Costa Domingos foi sempre uma sabotagem do lugar, uma espécie de acto terrorista contra as senhas da Cultura.

Neste auto-retrato sobressaem as rugas das épocas pré e a pós-revolucionária, alguns conflitos estéticos, a experiência editorial à margem do sistema instalado. Em anexo, dá-se por terminada a narrativa com a história de um caso de censura na democracia «deste nosso tempo miserável». O caso d’O Bispo de Beja é pertinentemente lembrado quando são mais que muitos os exemplos de censura astuciosa a proliferarem no país. Mas ainda antes do fim, e deixando antever continuação, três recomendações finais: «Recomendo o trajecto contrário à amargura pessoana. Recomendo o abandono do fado e do que se diz em surdina. Recomendo, ainda, que cultivem o desprezo por quantos intermediários se infiltrem entre o homem livre e a vida» (pp. 114-115).


Escrito para o Rascunho.

1 comentário:

A. Pedro Ribeiro disse...

um grande abraço, Henrique. Só agora me apercebi do novo blogue.