Terça-feira, 29 de Setembro de 2009

OLHANDO O MURO



E assim ficava olhando o muro. Não atentava então na claridade em que a casa e a terra a essa hora faleciam, nos fragmentos vários do horizonte de que a luz fazia um jogo insuportável. Tão pouco em como a sublevação das paisagens é matéria da linguagem, tão pouco nisso ele atentava ao colocar o olhar no muro, outro suporte procurando, a ele idêntico, no leite à superfície do qual pequeninos nó de fezes eclodiam, nós que com uma vara ele agitava e perturbava com fascínio. Metade do seu rosto entrava pelas paisagens, era prisioneira da fabulação de que apenas os animais o libertavam contra a face lhe quebrando imagens fortes ─ as fezes imiscuindo-se no muro, a luz uma infecção que alastra pelo leite, a vara de agitá-lo desviada desse ofício. Estranhos actos cometia ele então, deles o mais minucioso sendo a introdução de mínimos calhaus nos intestinos.

Luís Miguel Nava, in Poesia Completa 1979-1994, pref. Fernando Pinto do Amaral, org. Gastão Cruz, Publicações Dom Quixote, Março de 2002, p. 51.

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