Sexta-feira, 30 de Outubro de 2009

ADÍLIA LOPES

Isto é um elogio: só conheço uma pessoa em Portugal a escrever assim sobre poesia. Se essa pessoa não for quem escreve no Contra Mundum, então junto ao elogio uma boa notícia: há duas pessoas em Portugal que escrevem lindamente sobre poesia (o que é extraordinário, tendo em conta as mais que batidas e debatidas limitações do mercado). Acontece que não concordo com muito do que se afirma no post dedicado ao livro Dobra, a mais recente reunião da poesia de Adília Lopes. O primeiro parágrafo começa mal, ao falar de um “palhaço triste”, de uma “escrita patológica”, de uma “aparência de ruptura”, reduzindo a Obra de Adília - agora Dobra - a uma suposta construção da personagem Adília. E diz: «Quando um projecto artístico vive da desconstrução de uma convenção, ele instala-se, por isso, num plano estranhamente convencional: vivendo da ou contra a convenção, perde parte importante do seu significado simbólico e artístico com o enfraquecimento da própria convenção». Isto enviou-me directamente para um dos argumentos de Zenão: «Se existe um lugar, ele está em alguma coisa, porque tudo o que existe está em alguma coisa; mas o que está em alguma coisa está também num lugar; portanto o lugar deveria estar, ele próprio, num lugar, e assim até ao infinito; portanto, não existe nenhum lugar». Ou seja, a poesia de Adília Lopes vive da desconstrução de uma convenção; mas ao viver disso ela torna-se convencional, transforma-se ela própria numa convenção; logo, não existe nenhuma convenção. O que existe é uma escrita à qual alguém um dia chamou projecto, uma escrita que só é olhada como projecto artístico por quem não conseguir ler nela uma ausência de projecto, uma vida passada à palavra sem adereços “artísticos”, “literários”, “simbólicos”. Prefiro ler os poemas de Adília como quem olha para um seixo na praia que se distingue dos demais seixos na praia. Não há simbologia, não há literatura, não há intenção artística no seixo, há apenas um corpo sólido (neste caso, diferente de todos os outros). Se bem entendi, a leitura acima aludia parte de dois princípios pouco claros. O primeiro é o de que possa haver uma escrita [poética] não-patológica. Creio que a escrita poética se distingue das demais precisamente por essa dimensão patológica. Refiro-me, obviamente, à dimensão anormal da linguagem poética, uma linguagem que não nos divorciando do mundo, oferece-nos esse mundo sob a forma de um evento que cada um experiencia subjectivamente. A linguagem poética apresenta-se-nos patológica na medida em que “transgride”e “desarruma”, com mais ou menos clareza, uma tensão permanente entre o sujeito que escreve e o mundo que é escrito (do qual o próprio sujeito faz parte), assim como entre aquilo que fica escrito, o poema, e aquele que o leia. Tudo o que existe nesta relação entre mundo-autor-leitor é caótico, não tem lei, corrompe a higiene dos discursos objectivantes e instala o delírio, um registo doentio. Tal como a música, tal como a generalidade das artes, a palavra poética tem essa força de colocar o ser no limite da alienação. Na poesia de Adília Lopes isso torna-se ainda mais evidente pelo retrato tantas vezes cómico, humorístico, anedótico (por que não?), pela tonalidade tantas vezes «burlesca, ridícula, grotesca» em que a realidade e o Eu surgem (a)tingidos, mas sempre com uma capacidade perturbadora que advém desta estranheza: um riso aparentemente tão simples, tão directo, tão obvio, que, afinal, denota uma traumatologia profundamente triste. Afinal, quem gosta de sentir à superfície, com uma clareza desarmante, o que seria mais normal permanecer no inconsciente ou, quando muito, maquilhado com o rímel da metáfora? Daí o palhaço triste, que, neste caso, actuará desnudado, exposto também sob os holofotes de quem o olha sob o prisma higienista das linguagens saudáveis. Um palhaço doente ou um leitor doente? Uma escrita patológica ou uma leitura patológica? Talvez nos confrontemos com um reflexo pouco agradável, que é o reflexo, afinal, da mentira em que vive aquele que vive poeticamente correcto, se passarmos a ler Adília Lopes com outros olhos que não apenas os olhos de quem procura um projecto artístico, uma personagem ensaiada e, de algum modo, cultivada pelos que apreciam o aspecto caricato da extravagância. Não terá a personagem, então, sido construída mais por quem lê do que por quem escreve? E se assim for, deverá o trabalho de um poeta ser simplesmente julgado pela avaliação mais recorrente e, por isso, mais convencional? Afinal, que poeta não é uma personagem de si próprio? Alguma vez a poesia foi outra coisa senão fingir que se finge? O que torna a poesia de Adília Lopes ainda mais fascinante é, precisamente, essa percepção de que a fusão gera confusão, tanto quanto a cisão não parece fazer sentido, ou seja, a personagem finge que é a autora tanto quanto a autora finge ser a personagem. E, vai-se a ver, os gatos são mesmo os gatos, as baratas são mesmo as baratas, Adília Lopes é mesmo Maria José da Silva Viana Fidalgo de Oliveira.

Quanto ao resto, estou em sintonia com isto:

Pouca poesia portuguesa é tão sexual quanto a de Adília Lopes. E, no entanto, não há nela nada ou quase nada de sensual ou de erótico. Não sendo lugar de manifestação do corpo enquanto corpo, a sexualidade surge antes como uma tentativa de fuga à pobreza de um corpo entendido como prisão (veja-se, por exemplo, o texto Body Art). Não há aqui, mesmo quando parece, nenhuma celebração da sexualidade. Se o corpo se faz obstáculo, só nele e no sexo se poderia encontrar uma saída, mas essa está vedada pelo próprio corpo: não há escapatória, nem mesmo enunciar os seus limites enquanto escrita.

1 comentários:

manuel a. domingos disse...

eu ca gosto muito da senhora e da sua poesia, nao me interessa muito o resto... e tambem gosto do blogue mencionado...