quarta-feira, 21 de Outubro de 2009

CRÉDITO BEMPARADO

A notícia da falência das Quasi Edições motivou ao Sérgio Lavos um post sobre uma putativa extinção da poesia. A ser uma espécie em vias de extinção, a poesia será apenas como os burros, que há anos são dados por praticamente desaparecidos, mas que, de ano para ano, parecem reproduzir-se como melgas e, muitas vezes, assumindo estranhas metamorfoses (veja-se a política portuguesa). A morte da poesia vem sendo anunciada pelos poetas, que sempre gostaram de imitar os filósofos, pelo menos desde que Nietzsche anunciou a morte de Deus. No caso português, trata-se de uma morte que tem para aí a idade das ossadas de Camões. Devo dizer que discordo do diagnóstico proferido pelo Dr. Lavos. Vejo-me, por isso, na obrigação de rebater algumas daquelas conclusões com a minha interpretação dos sintomas. Parto do princípio de que nunca houve tanta gente a escrever poesia como hoje em dia. Creio igualmente que nunca houve tão pouca gente a ler poesia como hoje em dia. Da mesma forma, julgo que nunca se terá editado tanta poesia como na actualidade. Proporcionalmente, é provável que nunca se tenha vendido tão pouca poesia como nos tempos que correm. No entanto, a ser isto verdade, a subsistência de duas livrarias, uma em Lisboa, outra no Porto, praticamente dedicadas em exclusivo à venda de livros de poemas, constitui um fenómeno de tão difícil explicação como a sustentabilidade da Segurança Social Portuguesa. Penso que é de uma enorme injustiça afirmar-se que «a Quasi foi importante porque apenas ela foi publicando poesia inédita de autores portugueses durante anos e anos». “Apenas ela” é fruta a mais, nem o Reis-Sá aguentaria tanto caroço na barriga, muito provavelmente desfazer-se-ia em caganeira. Apenas ela e, já agora, a &etc.. Isto só para dar um exemplo. No entanto, se a longevidade da &etc., a par da inquestionável qualidade das suas edições, não chegar para rebater o equívoco, talvez não seja má ideia mencionar os livrinhos cinzentos da Cotovia, onde têm publicado vários e aprazíveis autores portugueses. Também não posso concordar com a ideia de que «nenhuma editora portuguesa se pode orgulhar de tanto, nos últimos dez anos (e não falo do resto, as traduções e a boa ficção também paridas)». Se o critério for apenas a quantidade, então estamos falados. Mas deverá ser esse o único critério, publicar muitos nomes, independentemente da qualidade que revelem? É verdade que a Assírio & Alvim já não publica tantos autores portugueses como publicava, ainda assim tem publicado muitos: Manuel de Freitas, José Agostinho Baptista, Carlos Bessa, José Tolentino Mendonça, Carlos Alberto Machado, entre tantos outros, numa Colecção Poesia Inédita Portuguesa que não pára de crescer. Permito-me, já agora, sugerir esse tomo essencial de um jovem poeta português, acabadinho de chegar aos escaparates, que é o volume O Sangue por um Fio, de Sérgio Godinho. A colecção Forma, de facto, não tem mexido, assim como o folgo poético da Relógio D’Água já terá conhecido melhores horas, mas vão saindo alguns livrinhos de Gonçalo M. Tavares, Pedro Mexia, José Miguel Silva, Jorge Gomes Miranda, entre outros autores portugueses. A Caminho também continua a publicar poesia, talvez mais de autores lusófonos do que de autores portugueses, mas continua. O que temos, então? Temos uma grande salgalhada. Além do acima referido, multiplicam-se projectos editoriais diversos com vontade de fazer coisas: Frenesi, Averno, Canto Escuro, Sombra do Amor, Tea For One, a ressuscitada Mariposa Azual, a Deriva, a Cosmorama, entre outros, todos publicam, com maior ou menor regularidade, poesia de autores portugueses. Livrarias como a Letra Livre, a Trama, a Livrododia, têm oferecido algumas edições num esforço que convém não esquecer. Pedro Mexia e José Mário Silva publicaram, recentemente, na Oceanos (uma chancela do Grupo LeYa). Vão aparecendo edições de autor de inegável qualidade, do Rui Pedro Gonçalves ao António Quadros Ferro, passando pelo Miguel-Manso, entre outros. E há as revistas, e há os weblogs, e há as okupações, e há as quintas de leitura… Já agora, não cometerei nenhuma inconfidência se vos revelar que o próximo livro a lançar pela OVNI será um livro de poemas. Não é de um autor português, mas também quem é que liga à nacionalidade dos autores quando o assunto é poesia? A inviabilidade comercial do género poesia é, pois, a mesma de sempre. Em Portugal, a poesia nunca foi de vender muito. À excepção de alguns fenómenos internacionais - li algures que Mayakovsky, na ex-URSS, enchia estádios e Neruda sempre foi um extraordinário fenómeno de popularidade – a poesia nunca vendeu muito. Como diz Ferreira Gullar num vídeo acessível no YouTube, ainda bem, pois é também isso que mantém a independência do poeta, que lhe permite ter uma voz inovadora, de ruptura, que baralhe, confunda, parta louça. O novo é sempre lugar de apreensão, e a poesia, ainda que velha puta, é o lugar do novo, esse lugar que deixa a normalidade de pantanas e se está nas tintas para as leis do mercado, um lugar, como dizia recentemente o Paulo da Costa Domingos, de escape, onde a liberdade pode respirar e a autonomia entesuar-se. Extinção? Foda-se, eu acho que a inutilidade da poesia é cada vez mais útil. Atenciosamente, Dr. Fialho.

2 comentários:

Anónimo disse...

"O novo é sempre lugar de apreensão, e a poesia, ainda que velha puta, é o lugar do novo, esse lugar que deixa a normalidade de pantanas e se está nas tintas para as leis do mercado".
Ó amigo Fialho, você não perca de vista esta frase. Sim, senhor.

Sérgio Lavos disse...

Peço desculpa se o alvoracei com o diagnóstico. Talvez tenha exagerado no elogio à Quasi, mas a verdade é que tenho pena que desapareça. Folgo em saber que a Ovni continua a publicar, mas a verdade é que deixou de chegar à livraria onde trabalho, por isso presumi que tivesse desaparecido. A etc, sim, a &etc é uma excelenete editora, mas para amigos e confrades desse grande editor que é Vítor Silva Tavares, o que não é necessariamente mau, porque são todos autores com interesse. Mas, caro Dr. Fialho, a poesia caminha para a extinção enquanto outro público, que não nós, que também escrevemos, pegue nela. Julgo que a Quasi contribuiu, de algum modo, para divulgar poetas junto de não-poetas que lêem poesia. E olhe, caro Dr., acredite que são muito poucos, a julgar pela amostra que eu tenho de compradores de poesia que entram na minha livraria.
Resumindo, o "apenas ela" é um erro, a segunda citação que faz, não: nos últimos 10 anos, não há outra editora que tenha feito pela poesia em Portugal.
(Voltarei ao assunto no blogue, se não se importa).

Cordialmente,

Dr. Lavos