sábado, 3 de outubro de 2009

LÁBIO CORTADO

É bastante difícil, e talvez nem seja aconselhável, escrever sobre o livro de um amigo. Entre a leitura e a escrita intrometer-se-á, inevitavelmente, uma espécie de acordo que a amizade consolida e nenhuma apreciação pode quebrar. Neste caso, arrisco uma tentativa de alienação. Obrigo-me a ler Lábio Cortado (Maio de 2009, Livrododia Editores) como se este fosse, não o livro de um amigo, mas o primeiro livro do autor a quem atribuíram o Prémio Manuel Alegre – 2008. Acrescento à ressalva um facto, não de somenos importância: o Rui Almeida (n. 1972) possui uma cultura poética excepcional, poucos serão aqueles, no nosso país, que conhecem tanta e tão detalhadamente a poesia portuguesa do século passado.

Dito isto, declaro, desde já, uma óbvia distância entre a poesia que o Rui Almeida pratica e o tipo de poesia que me afecta mais particularmente, no sentido de me provocar, perturbar, emocionar. Lábio Cortado é um livro, como bem refere Paulo Sucena no posfácio, «com evidente qualidade reflexiva e uma sólida austeridade formal» (p. 64), e isso tanto pode jogar a favor como contra o leitor. No meu caso, joga mais contra do que a favor. A austeridade formal que se evidencia em versos meticulosamente quebrados e estrofes desenhadas ao milímetro impõe aos poemas um ritmo que prejudica a liberdade poética, ao mesmo tempo que beneficia uma formalidade algo clássica que apenas aparece adulterada numa singular organização dos poemas. Alguns deles dão início a breves sequências de óbvia união temática, outros aparentam uma independência que em nenhum momento os autonomiza do todo. De resto, há neste livro uma homogeneidade temática inquebrantável.

A grande questão de Lábio Cortado é de índole metafísica, o que não deixa de ser contrastante com um título tão físico. Por momentos, parece haver nestes poemas um elo com a poesia de alguns místicos para quem o problema da finitude da vida estava intimamente ligado a uma relação conflituosa com o corpo. Rui Almeida refere amiúde o sentido da procura e da busca, colocando-o no lugar de um desconforto que a fé, por si só, não resolve. As metáforas da secura, da sede, da pele queimada e da terra seca, colocam-nos no centro de um tempo corroído pela distância, que é também o tempo de percebermos, a todo o momento, a nossa finitude, de percebermos a morte como o homem que se olha ao espelho: «Contempla o processo biológico/ E admira-se perante o zelo do tempo/ A modelar-lhe a velhice no rosto» (p. 39). Ora, nada há de metafísico na morte. Diria mesmo que nada há de mais físico do que a morte. Mas a morte, nestes poemas, é apenas a metáfora de uma espécie de ruptura com o corpo, a metáfora de uma «ausência de desejo» (p. 47).

A lucidez que assim se afirma respeita a dor, não renega «sinais de mudança», «a água que escorre através das fendas provocadas/ pela seca continuada» (p. 47), é um olho que arde de luz para de novo sobre ele cair a sombra, porque a sede acaba sempre por não ser saciada, a poesia não é salvação, ainda que possa preencher o vazio enquanto encurta a distância entre o corpo dos homens e a ideia de Deus. Além do que, esse mister da poesia não pode ser isolado de uma constatação: Rimbaud tornou-se traficante de armas. Esta é, pois, uma poesia da desolação e da desesperança, mesmo que momentaneamente afirme fogachos de alegria que não descobrem o riso. A tristeza pesa sobre a distância, nenhuma revelação, nenhuma verdade, resolve os desencontros da vida: «A vida encontra,/ Na sucessão de momentos, a limpidez breve/ Remetida à aleatoriedade do corpo, pequeno/ Espaço comum esquecido pela acumulação/ De peso e restos de memória» (p. 43). Para alguém que, como eu, não busque da vida senão a possibilidade de vivê-la, não procure no desespero senão a possibilidade do riso, só pode ser com uma estranha ambivalência que se recebe esta poesia. Fica, entre a desolação e o riso, um elo que liga toda a expressão da intimidade: «o mal de estar vivo é a incompreensão do mundo» (p. 10). Mas esse é igualmente o bem de estar vivo. E disso se fazem poemas.

Escrito para o Rascunho.

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