segunda-feira, 30 de novembro de 2009

ARTUR

Tive um cão chamado Artur. Não era meu, mas acompanhou-me durante um Verão passado em Odeceixe. Portanto, como tudo o que algum dia me acompanhou, tive-o pelo tempo que o mereci. O Artur foi uma excelente companhia, era perspicaz, carinhoso, um exímio caçador de pinhas, um guarda que se chegava à tenda sempre que escutava lá no seu modo de escutar o mais ínfimo formigueiro. Nunca mais vi o Artur senão em pensamentos. Sou visitado amiúde por este cão, pelas memórias desse Verão de 1996, pelo sorriso do meu amor sentada numa mochila enquanto eu fumava um Marlboro e ambos esperávamos o autocarro que nos haveria de levar até Vila Nova de Mil Fontes. Montámos a tenda durante uma, duas noites, não mais. O parque era ruidoso, mais que os meus cabelos compridos e o sorriso jovial do meu amor a olhar o desaforo com que eu enfrentava um bloody mary a saber a ketchup. Depois apanhámos boleia para Odeceixe.

Que será feito do Artur nas noites de Verão? Que é feito de nós adormecidos um ao lado do outro, enquanto ao lado de nós, separados por finas paredes de tecido impermeável, outros casais adormeciam? Que é feito daqueles longos cabelos que o teu sorriso penteava por debaixo da sombra de extensos eucaliptais? Eu sei onde fica a fachada desta casa, tem uma só janela de madeira protegida por uma rede que impede os insectos de se intrometerem no sono, tem cadeiras pintadas de vermelho, uma jarra com flores silvestres sobre o tampo da mesa, um tampo contornado pelos malmequeres que alguém ali pintou enquanto orava aos budas expostos sobre o aparador. É um móvel dos antigos, esta casa, um armário com portas e janelas, duas gavetas, uma base onde deixámos a bilha de barro cheia de água fresca. É um cabide coberto de canecas especiais, cada uma com a sua memória de visitas esporádicas - como esta agora aqui sentado folheando as fotografias do verão de 96.


Tinhas um vestido preto, de alças, com florinhas brancas, tinhas o ar que ainda tens quando o teu sorriso se senta no baloiço montado entre os dois pinheiros, dois pequenos pinheiros nascidos das sementes que largámos sobre a Terra, quando descansas à beira de árvores antigas, na sombra dos medos que te consomem sempre que eu escrevo com o feltro da pele a palavra nua: amor. E o Artur atacava-nos as Dr. Martens com aquele sorriso canino que sempre gostei de pôr em tudo o que escrevo, bebíamos shots de vodca, uníamos os corpos no terraço, debaixo de um mar de estrelas, afogados numa luz milenar que sempre soubemos apreciar com os olhos de quem olha pela primeira vez. Mesmo quando embalados na rede esticada ao lado do baloiço, mesmo quando ensaboados pelo chuveiro balde, roubávamos à garganta os acordos tortos da nossa canção preferida.


O presente é uma coisa estranha, anda sempre atrás de nós. E já ali estava, olha para ele, no regresso, quando voltámos do Verão cheios de trabalhos, uma tese, talvez sobre Heidegger, e eu desesperadamente concentrado no ser para a morte quando sempre quis ser apenas para a vida. Merda para o Heidegger, dizias. Mas a culpa não era do filósofo alemão, não tanto como era de um semestre inteiro a ouvir o César das Neves especular sobre a melhor tradução para dasein. Eu bem lhe tentei explicar, mas ele não me deu ouvidos. Dasein é o Artur a ser lembrado daqui a, sei lá, 13 anos, é o sorriso do meu amor comovido com a leitura de um texto que hei-de então escrever, é eu para a vida enquanto ao fundo da estante a figura de Nietzsche se cola à sombra de Sócrates com a Janis Joplin a fumar um charro de premeio. Dasein, ó senhor professor, é tomar banho debaixo de um chuveiro balde enquanto o Artur me lambe os pés e os pinheiros abanam ao vento da nossa alegria. Chumbei.

3 comentários:

fallorca disse...

«Dasein, ó senhor professor, é tomar banho debaixo de um chuveiro balde enquanto o Artur me lambe os pés e os pinheiros abanam ao vento da nossa alegria. Chumbei.»
Felizmente!

hmbf disse...

Saravá...

margarete disse...

lindo.



p.s. já te tinha dito, agora repito: tu e o meu c. são sósias, pá!