Tive um cão chamado Artur. Não era meu, mas acompanhou-me durante um Verão passado em Odeceixe. Portanto, como tudo o que algum dia me acompanhou, tive-o pelo tempo que o mereci. O Artur foi uma excelente companhia, era perspicaz, carinhoso, um exímio caçador de pinhas, um guarda que se chegava à tenda sempre que escutava lá no seu modo de escutar o mais ínfimo formigueiro. Nunca mais vi o Artur senão em pensamentos. Sou visitado amiúde por este cão, pelas memórias desse Verão de 1996, pelo sorriso do meu amor sentada numa mochila enquanto eu fumava um Marlboro e ambos esperávamos o autocarro que nos haveria de levar até Vila Nova de Mil Fontes. Montámos a tenda durante uma, duas noites, não mais. O parque era ruidoso, mais que os meus cabelos compridos e o sorriso jovial do meu amor a olhar o desaforo com que eu enfrentava um bloody mary a saber a ketchup. Depois apanhámos boleia para Odeceixe.
O presente é uma coisa estranha, anda sempre atrás de nós. E já ali estava, olha para ele, no regresso, quando voltámos do Verão cheios de trabalhos, uma tese, talvez sobre Heidegger, e eu desesperadamente concentrado no ser para a morte quando sempre quis ser apenas para a vida. Merda para o Heidegger, dizias. Mas a culpa não era do filósofo alemão, não tanto como era de um semestre inteiro a ouvir o César das Neves especular sobre a melhor tradução para dasein. Eu bem lhe tentei explicar, mas ele não me deu ouvidos. Dasein é o Artur a ser lembrado daqui a, sei lá, 13 anos, é o sorriso do meu amor comovido com a leitura de um texto que hei-de então escrever, é eu para a vida enquanto ao fundo da estante a figura de Nietzsche se cola à sombra de Sócrates com a Janis Joplin a fumar um charro de premeio. Dasein, ó senhor professor, é tomar banho debaixo de um chuveiro balde enquanto o Artur me lambe os pés e os pinheiros abanam ao vento da nossa alegria. Chumbei.
3 comentários:
«Dasein, ó senhor professor, é tomar banho debaixo de um chuveiro balde enquanto o Artur me lambe os pés e os pinheiros abanam ao vento da nossa alegria. Chumbei.»
Felizmente!
Saravá...
lindo.
p.s. já te tinha dito, agora repito: tu e o meu c. são sósias, pá!
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