A minha mulher tem o terrível defeito de me amar. Esforço-me para o contrário, mas ela lá vai dizendo que não pode viver sem mim. Uma vez fiz-lhe uma surpresa. Levantei-me cedo, fui ao mercado comprar pão caseiro e queijinhos frescos, legumes para uma salada e carapaus. Depois grelhei os carapaus, temperei uma salada, cozi umas batatas e um ovo, servi-lhe os queijinhos de entrada. Ela gostou de molhar o pão caseiro no azeite, debicou a salada e os queijinhos, mas quase não tocou nos carapaus. Queixou-se de que o peixe grelhado lhe provocava gases. Após a refeição, ferrou-se a dormir e deixou-me a sós com os carapaus. No dia seguinte, disse-lhe que ia comprar cigarros e pus-ma a andar. Só parei ao quilómetro 15, quando as pernas não aguentavam mais e as bolhas cresciam nos pés. Apanhei boleia para o mais longe possível. Regressei a casa passados cinco anos. A minha mulher olhou para mim e perguntou: já? Disse-lhe que tive saudades de casa, ela respondeu-me que não podia viver sem mim. Viveste os últimos cinco anos sem mim, lembrei-lhe. Ela sorriu-me, abraçou-me, perguntou-me se eu queria carapaus grelhados ao jantar.
2 comentários:
o amor também pode ser isso... carapaus grelhados.
pois pode :)
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