A Patrícia diz-me que gosta do Inverno porque pode usar cachecóis. Ao escutá-la, lembro-me da Rua das Flores. Vi por lá mulheres antigas, sentadas em bancos de madeira, tecerem a lã das golas altas, das peúgas, dos casaquinhos para os netos, dos cachecóis. Vi por lá crianças pobres, filhas de pais avessos, outras tratadas como mandavam os cuidados da vida burguesa. Havia um rapaz que jogava futebol, estacionava o carro a altas horas com mulheres penduradas ao pescoço. E um fadista que desaparecia amiúde deixando para trás a mulher grávida de nove filhos. Havia um homem que tinha uma mula, uma rapariga feia que andava sempre ranhosa, um casal de beatos, ela mais que ele, ele parecia-me paneleiro, e uma mulher que cozia pão todos os dias. Deixámos de lhe comprar o pão no dia em que veio brindado com uma caganita de rato. Do que eu mais gostava na Rua das Flores era da taverna de balcão mármore, mesas onde se batiam cartas, bebiam ginjas. Comprei lá os primeiros definitivos, bebi lá a primeira gasosa, foi de lá que trouxe, um dia, a ideia de que nunca é tarde para mudar de vida. Não me perguntem agora porquê. Curiosamente, nunca vi flores na rua das flores. Só as bordadas pelas mulheres antigas.
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:)
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