Sou um lacrau do deserto, tenho uma costela árabe. Prefiro viver na sombra, mas sobrevivo a altas temperaturas. Alimento-me ociosamente do pouco que necessito. A minha principal contradição é o fundo do mar, para onde quero ir quando a melancolia me açoita a cauda. O louva-deus é o meu principal inimigo. Agora que o ano finda, sem que ninguém me explique por que outro começa, penso que talvez seja bom recapitular o êxtase à meia-noite de 31 para logo a seguir, na manhã do primeiro dia, voltar a sentir a ressaca de estar vivo. Balanceio o meu 2009 às costas de Para Sempre:
─ E depois?
─ Como depois?
─ Porque ou tu não realizas o absoluto sonhado e então falhou, ou o realizas e ficas à boa vida. E então depois? Como vais viver em pasmaceira? E em que alínea do teu programa político se trata também do problema da morte?
E eu então disparatei contra mim:
─ Que problema de merda é esse do absoluto e da morte?
─ Fala baixo que as tias podem ouvir.
─ Que problema de caca é esse de desocupados? Tu devias passar fome para teres razão de falar. Os teus problemas são um insulto para quem não tem que comer. Eu estou-me nas tintas para todo esse mistifório de meninos mimados pela sorte. Quero lá saber do depois do depois. Quero é saber do agora, aqui, quero saber de problemas concretos, daqueles que se resolvem com as mãos, com os pés, no estômago. Toda essa metafísica de merda.
Mas Vergílio Ferreira também estava equivocado. O meu problema concreto de agora é mesmo a retórica do depois. É um problema fodido que hei-de resolver à maneira da Fernanda Ribeiro:
Este é um 2009 que nunca esquecerei.
Talvez venha a esquecer o 2009 do ano passado ou o 2009 de aqui a dois anos ou o 2009 de há 10 anos atrás, mas este 2009, este de agora, concreto, problemático, com suas dores de estômago, pé de atleta e mãos encarquilhadas... eu jamais esquecerei.
1 comentário:
O meu 2009 foi dos piores anos desde que me lembro gente, ainda por cima a culminar uma década muito má, mas como o meu único desejo do ano passado (anunciado no blog) se manteve quase intacto, fica tudo bem quando acaba bem :)
Um bom ano também para ti e para a tua trupe.
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