Após um dia bem passado na companhia de amigos, sugiro-vos um livro para cegos. O título e o nome do autor estão em braille na capa, mas eu faço o obséquio de revelar a ficha técnica: Autor – Jorge Aguiar Oliveira; Título – Insónia em Segunda Mão; Argumento – Henrique Manuel Bento Fialho; Pinturas da capa e contra-capa – Maria João Lopes Fernandes; Fotografias e paginação – Sukar Vintém; Edição – do autor; Impressão e acabamento – Impriluz; Tiragem – 300 exemplares; Data da Primeira Impressão – Janeiro de 2010; Depósito Legal – 304668/10. Agora tomem lá a primeira cena do argumento:
THE HOST OF SERAPHIM
Argumento
baseado num livro de poemas de
Jorge Aguiar Oliveira
CENA I
Este filme dispensa um genérico inicial. Sugerimos antes a audição do tema "The Host Of Seraphim", dos Dead Can Dance, com a "Parábola dos cegos", de Pieter Brueghel, em plano de fundo. O primeiro acto tem lugar na Rua das Montras, em Caldas da Rainha, junto à velha livraria 107. É aí que um vulto se distingue entre os demais. De sandálias calçadas, calções vestidos, t-shirt e chapéu panamá, o vulto aguarda-me para tornar físico o encontro virtual. Cumprimentamo-nos como se há muito nos conhecêssemos, sem qualquer tipo de distância a intrometer-se entre a imagem que fazemos dos outros e aquilo que somos na realidade. Na realidade, somos sempre uma coisa virtual nos olhos dos outros. Mas há encontros que actualizam o desnorte, dão-lhe um sentido, um corpo, gestos, o toque, tudo aquilo que precisamos quando ainda não podemos viver unicamente de palavras. É nestes corpos que caminham, se cumprimentam e tocam que descemos à esplanada do Café Populus no Parque D. Carlos I. O mesmo parque catita, com os mesmos cisnes, com as mesmas criancinhas junto ao mesmo lago onde o refinado Luiz Pacheco fez desaparecer um ódio sem cura. Porque o tempo não sara nada, «nem se sabe bem ao certo quando sara, isto é, quando começa a criar bolor na alma». E «um desgosto de amor é uma ferida / que mesmo sarando, deixa sempre / uma cicatriz de disfarce impossível». Antes que o bolor atinja a alma, bebamos umas cervejas e uns licores, reguemos os corpos com as histórias vivas de existências extraviadas, contemos disto e daquilo, falemos de projectos sem criar fossos no presente entre o vivido e o ainda por viver. Não há qualquer tipo de optimismo neste cantar-se assim a vida, há apenas a ficção, sem genérico inicial, subjectiva e solitária, que é a presença de cada um neste mundo pavorosamente patético. Dispensemos também as despedidas no terminal rodoviário. São apenas o desejo adúltero de um regresso adiado. Ficou a promessa de um prefácio, de uma introdução, de um pórtico, de um prólogo ou lá o que lhe queiram chamar. Eu chamo-lhe argumento e sugiro que se atentem à música dos Dead Can Dance, para que cegos sigamos pelos textos dentro, não sem antes vos contar o resto desta minha aventura. Arrisquemos uma narrativa entrecruzada, façamos com o tempo desta história um flashback aos solavancos. É que já não me lembro bem quando foi, mas lembro-me que foi na livraria dos cinemas King, em Lisboa, talvez em 2002 ou 2003, que peguei nos "Homens sem Soutien", do poeta Jorge Aguiar Oliveira (n. 1956). É importante que se diga da beleza gráfica do livro, a qual me chamou a atenção, sobretudo, por tratar-se de uma edição do autor (como, de resto, tantas outras do mesmo). Já antes andara à briga com estas palavras, numa antologia da Frenesi, organizada pelos poetas AI Berto, Paulo da Costa Domingos e Rui Baião (refiro-me, obviamente, a "Sião", 1987), e num opúsculo editado pela &etc ("Os Lábios do Rio", 1987). O poeta estreara-se alguns anos antes, nos inícios da década de 1980, com poemas de circulação muito restrita editados em conjunto com outros autores. Mas nessas edições originais eu nunca meti mão, ao contrário do que sucedeu alguns anos depois com um livro simplesmente intitulado "João Alves". Foram estes os livros que proporcionaram o primeiro encontro, um encontro de palavras que nunca pensei poder vir a tornar-se físico. No entanto, antes ainda de se tornar físico, o encontro foi virtual. No dia 17 de Janeiro de 2008 recebi um inesperado e-mail do Jorge Aguiar Oliveira propondo-me uma colaboração no Insónia, weblog que mantenho desde Maio de 2005. Não hesitei um segundo. E não só não me arrependi como posso confessar ser eu quem está grato ao Jorge por ter ele tomado a iniciativa de bater à minha humilde janela virtual, pelo que espero poder agora retribuir essa gratidão batendo-lhe à porta dos poemas coligidos neste volume com um título que, sem vaidade nem soberba, faço meu pela metade.
(…)
P.S.: Fiquei hoje a saber que o Jorge faz anos, precisamente, a 17 de Janeiro. Ele há coisas…
2 comentários:
Resumindo, estão os dois de parabéns. Aos anos que não ponho a vista em cima desse gajo, foda-se! Desde uma frenética feijoada de buzinas em Sines, se a digestão não me atraiçoa
Obrigado, Fallorca. És um bom camarada.
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