terça-feira, 26 de janeiro de 2010

MOCKINGBIRDS




Ilya Ehrenburg também se queixava do “é a vida, o que é que se há-de fazer”. Com uma ligeira inflexão, o poeta soviético falava dos tempos, no plural, e não propriamente da vida. Terminava o poema profetizando que «diante de todos se responderá / pelo seu tempo e não por si só». Duvido. Mal temos mão sobre a nossa própria vida, quanto mais sobre a vida dos tempos. A verdade é que somos arrastados e o pouco mais que podemos fazer é esbracejar, espernear contra a corrente para que o naufrágio seja adiado e o corpo se console de apaziguadores, mas momentâneos, mergulhos. Não falo sequer de mudar o mundo, tão só o nosso mundo. Não falo de coisas heróicas e inumanas. Falo da vidinha figurante, cada vez mais complexa e infernal. Por exemplo, falo de não ter que responder a um inquérito para poder satisfazer a secura com uma simples água com gás:

─ Quero uma água com gás.
─ Fresca ou natural?
─ Fresca.
─ Das Pedras ou Frize?
─ Das Pedras.
─ Com ou sem sabor?
─ Sem sabor.
─ E vai desejar copo?
─ Sim.

2 comentários:

Carlos Pires disse...

Leu "A estrada"? Ou viu o filme? Dá ideias para reflectir se temos sequer mão na nossa vida. Aqui.

nils disse...

Grant Lee Buffalo. A sério? Grande malha. Adoro este álbum... Cinco estrelas.