Sábado, 30 de Janeiro de 2010

SEM PRESSAS


Sinto a pulsação aos dias e faço como Pipilotti Rist ao som do Chris Isaak, pego num ramo de tulipas e desfaço tudo à minha volta, deixo as paredes em cacos, caminho com um sorriso nos lábios, a alegria de ver tudo a desmoronar dança-me nos lábios. Penso como seria a minha voz sob a tua voz, Pipilotti. Talvez pudéssemos andar pelo país a recolher cantigas antigas. Recriaríamos as tradições e dançaríamos ao som de tempos perdidos. Mas, sabes, não julgo que os tempos perdidos tenham sido melhores que os dias imaginariamente estilhaçados ao som de Chris Isaak. O que eu queria mesmo era ter-te a andar dentro de mim, estilhaçando com o teu ramo de tulipas as janelas do meu imo, enquanto por ti passariam anjos da guarda, os fardados do sistema, e dariam os bons dias a cada espelho retrovisor esmagado pelo sorriso da tua doce perversidade. Se te perguntares sobre o que tem a música dos Animal Collective a ver com isto, pensa nas raparigas murmuradas sob loops que parecem carrosséis. E eles cantam: I don't mean to seem like I care about material things like a social status / I just want four walls and adobe slabs for my girls. E eu pergunto-me há quanto tempo não ofereço um ramo de flores a mim próprio. Talvez tenha medo. Não tenho pressa. Bato palmas, estalo os dedos, sinto o frio que me chega num vento amistoso, abro a garganta e deixo saltar cá para fora aquele ohhhhhhhhh pelo qual vale a pena ouvir uma torneira avariada a pingar. Sabes, dentro de nós há tribos domésticas a pedirem o desbravamento do corpo. Dentro de nós há aquela sensação permanente de que reduzimos a vida a meia dúzia de dias em que nos damos o direito de estarmos, de sermos, realmente felizes. Porque os restantes dias são apenas dias restantes. Apesar de tudo, acho que vou no bom caminho para pôr as concertinas a fantasiar realisticamente. Vê só, é muito simples e não preciso sequer de ser claro como os chatos pretendem, porque os chatos não querendo ver literatura em nada em tudo transformam literatura. (Se eu quiser ser claro, arranjo um patrão.) Lembra-te, por exemplo, do som da palha arrastada pelas forquilhas no celeiro; lembra-te do som do trigo quando o vento passa; lembra-te do restolhar dos milheirais na Costa Vicentina; lembra-te dos teus próprios passos sobre as ervas secas do açude onde outrora mergulhaste o corpo puro para depois vires ao de cima conspurcado pelos óleos que vinham na corrente. Lembra-te dos canaviais. O Verão é agora mesmo, na casa hermética dos meus sonhos desfeitos. Pode parecer confuso, mas é óbvio que a minha cama se transformou subitamente numa piscina enquanto as paredes em chamas me obrigam a repensar os mandamentos do relógio despertador. Portanto, deixo-me ficar mergulhado na banheira e penso nas horas que ando a desperdiçar comigo mesmo. O programa hoje é outro: desrespeitar os horários, dançar ao som dos auto-rádios esvoaçantes, andar pelas ruas com um ramo de tulipas na mão, partir as janelas íntimas do corpo, parti-las, o programa hoje é outro: não é preciso esconder que o desassossego e a insónia se tornaram bastante apelativos com os anos, não é preciso confessar que nesta música há o plágio disfarçado de cut-up com que camuflaremos a nova roupagem das tribos. Ponto assente: se alguma coisa posso dizer ao som dos Animal Collecive é que há muito sei o peso da rotina. Ando encafuado no tráfego e nem a rádio sintonizada numa cassete meticulosa me salva, ando sem esperança a passar os dias, a enchê-los de um pouco, vá lá, de conforto possível, ando, isso mesmo, num andar por andar até que se formem calos na base dos pés e a dor se torne insuportável, ando, isso mesmo, a certificar-me de que os parques públicos respeitam as regras de segurança necessárias para que os filhos possam continuar a sorrir. Agora diz-me, que vida é menos vida do que esta vida consciente de si? Uma rotina que já nem deprimente é. Por isso, para o próximo Natal peço uma Pipilotti Rist a desfazer-me as paredes do corpo interno. Mas deixa lá o Chris Isaak sossegado no deserto. Mete as tulipas a dançar ao som de um leão em coma. Sem pressas, por favor. Sem pressas. Com o andar vagaroso dos aborígenes.

1 comentários:

candida disse...

um xicuracao . belo texto