Sábado, 27 de Fevereiro de 2010

BREVE PROGRAMA PARA UMA INICIAÇÃO AO CANTO


Ao escrever, e independentemente do valor do que escrevo, tenho às vezes a vaga consciência de que contribuo, embora modestamente, para o aperfeiçoamento desta terra onde um dia nasci para nela morrer um dia para sempre. Dou palavras um pouco como as árvores dão frutos, embora de uma forma pouco natural e até anti-natural porquanto, sendo como o é a poesia uma forma de cultura, representa uma alteração, um desvio e até uma violência exercidos sobre a natureza. Mas, ao escrever, dou à terra, que para mim é tudo, um pouco do que é da terra. Nesse sentido, escrever é para mim morrer um pouco, antecipar um regresso definitivo à terra.
Escrevo como vivo, como amo, destruindo-me. Suicidando-me nas palavras. Violento-me. Altero uma ordem, uma harmonia, uma paz que, mais do que a paz invocada como instrumento de opressão, mais do que a paz dos cemitérios, é a paz, a harmonia das repartições públicas, dos desfiles militares, da concórdia doméstica, das instituições de benemerência. Ao escrever, mato-me e mato. A poesia é um acto de insubordinação a todos os níveis, desde o nível da linguagem como instrumento de comunicação, até ao nível do conformismo, da conivência com a ordem, qualquer ordem estabelecida.
O poeta deve surpreender-se e surpreender, recusar-se como instituição, fugir da integração, da reforma que até mesmo pessoas e grupos aparentemente progressivos lhe começam subtilmente a tentar impor o mais tardar aos trinta anos. Abaixo o oportunismo, a demagogia, seja a que pretexto for. O poeta deve desconfiar dos aplausos, do êxito e até passar a abominar o que escreveu logo depois de o ter escrito. Numa sociedade onde quase todos, pertencentes a quase todos os sectores, procuram afinal instalar-se o mais cedo possível, permanecer fiéis à imagem que de si próprios criaram pessoalmente ou por interpostas pessoas, o poeta denuncia-se e denuncia, introduz a intranquilidade nas consciências, nas correntes literárias ou ideológicas, na ordem pública, nas organizações patrióticas ou nas patrióticas organizações.
Escrever é desconcertar, perturbar e, em certa medida, agredir. Alguém se encarregará de institucionalizar o escritor, desde os amigos, os conterrâneos, os companheiros de luta, até todas aquelas pessoas ou coisas que abominou e combateu. Acabarão por lhe encontrar coerência, evolução harmoniosa, enquadramento numa tradição. Servir-se-ão dele, utilizá-lo-ão, homenageá-lo-ão. Sabem que assim o conseguirão calar, amordaçar, reduzir.
É claro que falo do poeta e não do poetastro, do industrial e comerciante de poemas, do promotor da venda das palavras que proferiu. Falo do homem que nunca repousou sobre o que escreveu, que se recusou a servir-se a si e a servir, que constantemente se sublevou.
Falo do homem que, ombro a ombro com os oprimidos, empunhando a palavra como uma enxada ou uma arma, encontrou ou pelo menos procurou na linguagem um contorno para o silêncio que há no vento, no mar, nos campos.
O poeta, sensível e até mais sensível porventura que os outros homens, imolou o coração à palavra, fugiu da auto-biografia, tentou evitar a todo o custo a vida privada. Ai dele se não desceu à rua, se não sujou as mãos nos problemas do seu tempo, mas ai dele também se, sem esperar por uma imortalidade rotundamente incompatível com a sua condição mortal, não teve sempre os olhos postos no futuro, no dia de amanhã, quando houver mais justiça, mais beleza sobre esta terra sob a qual jazerá, finalmente tranquilo, finalmente pacífico, finalmente adormecido, finalmente senhor e súbdito do silêncio que em vão tentou apreender com palavras, finalmente disponível não já tanto para o som dos sinos como para o som dos guizos e chocalhos dos animais que comem a erva que afinal pôde crescer no solo que ele, apodrecendo, adubou com o seu corpo merecidamente morto e sepultado.


Ruy Belo, de Transporte no Tempo, in Obra Poética de Ruy Belo, vol. 2, Editorial Presença, 2.ª edição, 1990.

4 comentários:

paulo da ponte disse...

Olá Henrique,
Ontem, no lançamento da Antologia Poiesis XVIII(2010), onde participei com quatro poemas, tive de iniciar as hostilidades evocativas do nascimento do poeta Ruy Belo e confesso que senti uma ténue reacção de surpresa na plateia:

"HOJE É O DIA DE SER HOJE

Hoje é dia 27 e estás aqui,
Os dedos pousados nas palavras como frestas
Acompanhas-me no olhar vasto oceânico
das vagas rolando monótonas sobre a praia

Olhei-te como sempre de perfil
Os olhos misturados na distância,
na errância da palavra repetida
como linhas na terra desenhadas

Existe um grande rio que em mim desagua
e transporta sedimentos de palavras
podia ser um campo fecundo, agricultado
ainda hoje nasces nos campos de Portugal.

Hoje é o dia de seres hoje,
O tal futuro de que falavas, cumpriu-se:
mas o solo é pobre, feito de lodo espesso,
os pássaros azuis debicando a luz...

(em dedicatória ao poeta Ruy Belo na data do seu nascimento)"-27-02-2010
Paulo da Ponte

Abraço,
Paulo

hmbf disse...

Olá Paulo. Há tempos deixei umas coisas para ti no "armário", mas como não tens passado pelo tasco lá têm ficado à espera. Durante a próxima semna não estarei por lá. Saúde,

paulo da ponte disse...

Obrigado Henrique. Passarei a levantá-las. É verdade que ultimamente tenho andado um pouco ocupado com outras coisas além da literatura. Mas prometo regressar.
Abraço.

maria manuel disse...

gostei imenso de ler este texto (obrigada!) e nele encontro motivos para reflexão sobre a natureza e a função da poesia:

"escrever é para mim morrer um pouco, antecipar um regresso definitivo à terra"
"A poesia é um acto de insubordinação a todos os níveis, desde o nível da linguagem como instrumento de comunicação, até ao nível do conformismo, da conivência com a ordem, qualquer ordem estabelecida."
"Escrever é desconcertar, perturbar e, em certa medida, agredir."
"O poeta, sensível e até mais sensível porventura que os outros homens, imolou o coração à palavra, fugiu da auto-biografia, tentou evitar a todo o custo a vida privada. Ai dele se não desceu à rua, se não sujou as mãos nos problemas do seu tempo, mas ai dele também se, sem esperar por uma imortalidade rotundamente incompatível com a sua condição mortal, não teve sempre os olhos postos no futuro, no dia de amanhã, quando houver mais justiça, mais beleza sobre esta terra"

creio que a poesia, para ser poesia, não tem de ser necessariamente interventiva, mas é importante que também o seja e, em qualquer dos casos, deve causar algum tipo de comoção ou perturbação, pela linguagem estética. não entendi bem a ideia de ter "os olhos postos no futuro"...