Tenho um espelho alto no corredor.
Pronto, lá me encaro eu uma vez mais
E o monstro que vejo em horas tais
Faz-me -─ está escrito ─ sempre igual pavor.
É um homem horroroso. Há que abatê-lo,
Esmagado com uma rija martelada.
Não passa de gordura encarquilhada.
Um estranho, é o que é. Eu penso, ai, ai!
Mais um cliché com espelhos que me sai.
É só vidro, vidro morto o que tenho diante ─
Mal penso assim, eis que um esqueleto hiante
Surge do espelho e salta-me ao pêlo.
Gerrit Komrij (n. 30 de Março de 1944), in Contrabando – uma antologia poética, trad. Fernando Venâncio, Assírio & Alvim, Setembro de 2005, p. 77.
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