Tenho andado tão apartado de tudo que já não sei onde deva dizer sinto ou pressinto. Se penso nisso, logo afasto da ideia o sentir. E pressinto que penso. Se não penso, é como se pensasse. Porque em cada segundo que não penso, em cada segundo que não penso concentradamente, passam-me pelo corpo samples de pensamento. E é como se pensasse. Concentro-me na trompete de Nils Petter Molvaer e pressinto que não muito me faltará para que pise essa terra, não muito me faltará para que sinta nas mãos o peso do que agora pressinto, não muito para cheirar essa terra que em pensamento me chega e em pensamento parte. Tal como eu, quando em pensamento fujo para as terras que agora pressinto e escrevo, para as terras que trago à página como se a página pudesse ser o solo nunca pisado onde as palavras substituem pegadas de pensamento. Sem ter saído de onde vou estando, sinto-me mais perto desse lugar que pressinto. Nenhuma ansiedade toma conta de mim, apenas uma maior sensibilidade para a fala do coração. Ele bate, acelera, cresce da planta dos pés até à boca, é um coração em fuga que nos quer saltar do corpo para fora. Sento-me a escrever e vejo-o saltar para a página, salta-me da boca para fora, prende-me os dedos com as suas inexoráveis teias e arrasta-me pela página como se eu fosse a sua sombra, uma sombra puxada por um coração como um atrelado puxado por cavalos. O coração salta-me da boca para a página, puxa-me, puxa-me, arrasta-me pelas dunas do deserto, pressinto novamente as miragens que um dia pude sentir e não mais esquecer, para agora novamente senti-las pensando, as miragens, enquanto o coração me arrasta pelas dunas do deserto. Ao longe um camelo, ali uma palmeira, à sombra da palmeira uma serpente dança ao som dos encantadores. O sopro dos encantadores é o canto das sereias neste mar de secura e abandono, um mar atravessado por povos sombrios, misteriosas gentes. Tenho andado tão apartado de tudo que é como se fosse um anacoreta do deserto, o eremita que um dia vi a moldar o barro do seu próprio cachimbo, fumando cachimbo, bebendo chá embebido na água que lhe escorria do rosto. Sinto-me cada vez mais perto desse lugar que pressinto. Um lugar de visões que atravessam oceanos, que te levam dos desertos no norte de África aos espíritos nos vales do Grand Canyon, do Império Khmer aos aborígenes da Oceânia. Vou armar o meu tipi sob o sol desse lugar, aí momentaneamente parado novamente partirei quando as nuvens voltarem a cobrir o rosto que se avizinha. Porque, mentalmente falando, em casos como o meu está diagnosticada a inquietação do espaço, esse estar bem apenas num estar constantemente em trânsito. Para já, deixo-me arrastar pela página, puxado pelo coração, enquanto pronuncio uma palavra que, de ora em diante, ouvirás com mais frequência: wovoka. Convoco os espíritos das estações para esta dança, convoco-os com o meu canto arrastado na página, convoco-os enquanto o sol se põe para lá de todos os faróis, convoco-os nas ondas que se levantam à altura de um sonho, no horizonte que desaparece atrás da neblina, em cada pegada que a areia reserva e o vento afasta, convoco-os como fonte onde a secura traga a vida que irromperá já não apenas na página, mas no corpo de onde o coração quis saltar.
3 comentários:
:0)
Qué fantástico delirio!
:o)
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