Quarta-feira, 26 de Maio de 2010

O DEDO NA SOPA

Na sequência da série que o manuel a. domingos dedicou aos 30 anos sobre o fim dos Joy Division, Paulo da Costa Domingos, co-tradutor, com Pedro S. Costa, do livro Ian Curtis – Joy Division (n.º 4 da colecção Rei Lagarto, Assírio & Alvim, Abril de 1989 – é esta a edição que mora cá em casa), tornou públicas duas cartas da sua autoria com afirmações que inspiraram os ecos da reacção (salvo seja). Venho agora meter o dedo na sopa, por me parecer estimulante o tema. Antes de mais, ao contrário do que afirma Paulo da Costa Domingos na primeira das cartas reveladas, devo dizer que não considero Ian Curtis um grande poeta. Na verdade, como não sei bem o que possa ser um grande poeta, embora por vezes o pressinta, sinto-me tentado a dizer que nem grande, nem pequeno. Terá antes sido autor de um punhado de letras onde conseguimos encontrar, a espaços, alguns bons momentos de poesia (elegíaca). Momentos desses são muito mais frequentes, por exemplo, no legado de James Douglas Morrison. E se este, que viveu mais quatro anos que o outro, teve ainda tempo para meter em livro alguma da sua poesia, a Ian Curtis sobrou ser canonizado pelos que ficaram depois de ele ter decidido ir desta para melhor.
Mas este jamais será assunto tão interessante quanto aquele que veio à baila na segunda carta revelada pelo Paulo, ou seja, a ideia de que Ian Curtis «deu notório contributo para o ressurgimento de ideias nazis e rácicas». Desconheço como é que o “grande poeta” Ian Curtis possa ter contribuído para tamanha empresa, assim como nunca percebi em que é que se pode inculcar a Nietzsche a responsabilidade do dogma Nazi, ou como nalgumas cabeças se torna claro ter sido a música de Marilyn Manson a grande inspiradora do massacre de Columbine. Estas relações de causa e efeito sempre me provocaram muita desconfiança, ainda que há muito me tenha convencido de que a leitura da Bíblia pode ser mais perniciosa do que a leitura de Mein Kampf. O efeito nocivo das obras estará mais em quem as lê do que nas obras elas mesmas. E, relendo as canções de Ian Curtis que o Paulo da Costa Domingos traduziu, mesmo tendo em conta que no livro supracitado não se encontra a totalidade dos versos saídos da pena do “grande poeta” Curtis, o mais que consegui encontrar com resquícios nazis foi um verso no texto intitulado Auto-Convicção: «opiniões só criam lixo» (nazismo este que já vem de Platão, o qual, advogando a democracia, conseguiu ser mais Nazi que muitos nazis). De rácico, absolutamente nada.
É um facto histórico as acusações de racismo que perseguiram os Joy Division. Vêm do tempo em que ainda se chamavam Warsaw, um tempo em que, convém lembrar, «Manchester era um viveiro de bandas-que-queriam-ser e vivia-se uma atmosfera em que eram mais os que tocavam do que os que ouviam» (Miguel Esteves Cardoso). Foi neste clima de "competitividade Punk" que os Joy Division se conseguiram impor através de uma estética provocatória com ecos supostamente nazis a pontuarem-lhes o discurso e as capas dos primeiros discos. Na biografia An Ideal For Living, Mark Johnson lembra alguns desses momentos:

«The cut chosen for the 10’’ release has, unfortunately, become known less for its music than for an often-misquoted and more-often-misunderstood introduction in wich Bernard yells to the audience, “You all forgot Rudolf Hess”. Hess, a Nazi leader who flew solo to England in an attempt to stop British participation in World War II, was at that time an 83-year-old prisoner rotting away at the insistence of the Russians in Berlin’s Spandau Prison. Hess had recently had a heart attack, and his plight had received considerable sympathetic press coverage, and Bernard was making more of a comment on man’s inhumanity to his fellows than appealing to a Nazi sentiment. This appears to be about the beginning to a Nazi rumours surrounding Warsaw and following the group like a plague almost to the present day. No swastikas were ever seen at their gigs (unlike other punk groups of the period), the band made neither racialist statements (as did early Sham 69) nor political statements (or, for that matter, said much of anything at all), and none of their lyrics show the slightest sympathy for Nazism».

Mais à frente, no mesmo livro, o assunto volta a ser abordado a propósito da capa do EP An Ideal For Living. Desenhado por Bernard, ostentava a capa um rapazinho que parecia saído da juventude hitleriana, podendo ainda ver-se numa outra parte do poster a reprodução de uma famosa fotografia de um jovem judeu no gueto de Warsaw. Nunca me pareceu haver ali o mínimo de fascínio nazi, pelo menos não tanto quanto noto nestas imagens uma representação pertinente do sentimento de ruína e de desolação que desde sempre contaminou a música dos Joy Division. Se na indumentária sempre estiveram a milhas da estética Punk, num certo sentido provocatório conseguiram aproximar-se. Mas mais que tudo isso, o que perpassa na música e nas letras é o sentimento de uma juventude estropiada por um mundo traumatizante (do qual fazem parte campos de concentração, gulagues e outras máquinas de morte que tais). Uma visão negra do mundo, é certo, com muita fúria contida num corpo em queda que resolveu antecipar a aterragem: «Cry like a child though these years make me older / With children my time is so wastefully spent».

8 comentários:

benjamim machado disse...

eu próprio fiquei a pensar na questão das letras, dos poemas, da escrita colocada por paulo da costa domingos, fazendo a mesma ligação a nietzsche. e depois lembrei-me que a frenesi editou "a viagem" de céline, um muito bom romancista, que caiu na tentação de escrever três panfletos anti-semítas aproximando-se do nazismo, tal como ele dá a entender no "mea culpa" editado na antígona como única hipótese contra o comunismo no seu tempo. concordo contigo, não creio que haja qualquer pensamento nazi ou anti-semítico em ian curtis.

hmbf disse...

Desconheço essa edição da Frenesi, mas a existir faz todo o sentido: é um excelente livro. A questão Ian Curtis será um pouco diferente, pois a haver no seu trabalho algum resquício nazi seria encapotado e não declarado, mas creio que essa dissimulação não existe. Saúde,

Anónimo disse...

sempre ouvi mais Joy Divison que The Doors e acho que o Ian Curtis escrevia nem mais nem menos poesia do que era preciso para dizer o que queria, o que me bastou. quanto ao resto, tens toda a razão, seu sensato.inté, Rui Costa

hmbf disse...

tás fixe?

L. disse...

sem tirar nem por

hmbf disse...

o dedo na sopa :-)

Anónimo disse...

sim, mas realmente "o brasil não é para principiantes"...abraço, Rui Costa

Paulo da Costa Domingos disse...

Henrique, sem pretender refutar o que quer que seja das afirmações do teu texto, venho acrescentar ao que digo no meu alguns elementos que, mal ponderados no ano (1983) em que aceitei traduzir as líricas do Curtis, vieram posteriormente a exercer grande influência nas respostas que dei à fã em 1989 e ao Hermínio em 1995. E para não irmos pelo caminho mais fácil, que seria voltar a ouvir com atenção o que os Clash uivam no «London Calling», convido à audição atenta do «Armed Forces» de Elvis Costello (principalmente o tema «Oliver's Army»), mas também ouvir com atenção os dois temas de fecho do álbum anterior (no «This Year's Model»): «Night Rally» e «Radio, Radio».
Ao mesmo tempo que a consciência do que verdadeiramente estava a passar-se na Inglaterra tatcheriana se sobrepunha aqui ao frio niilismo dos Joy Division e quejandos, Linton Kwesi Johnson de uma ponta a outra no seu álbum «Dread Beat an' Blood» assumia a fala dos negros jamaicanos que na noite anterior havia sido espancados pelos escuteiros brancos do neo-nazismo. Estou a falar precisamente dos anos ingleses de 1978-1979-1980.
Quando eu peguei no Curtis (cuja voz apresentava até ressonâncias de um Jim - ou James Douglas - Morrison que cantasse lá do fundo dos abrigos antiaéreos londrinos) este exercício de confronto entre as várias vozes a gritar no meio da multidão ainda não tinha sequer sido posto ao trabalho dentro de mim. Digamos que peguei na besta pelo fascínio. E também só muitos anos mais tarde tomei conhecimento do violentíssimo álbum que John Cale gravara em 1979, o «Sabotage (Live)».
Todas as referências que aqui tenho estado a fazer exigem ser escutadas, não apenas como peças artísticas de entretenimento juvenil, mas principalmente como textos-armas de denúncia da ordem estabelecida: a hipocrisia de Tatcher, medalha governativa que teve como reverso os promotores do niilismo e da indiferença. E é neste contexto que eu pus de lado o assunto: o meu interesse por Curtis passou a ser meramente residual... e pelos outros, então... nem isso! Porque, mesmo não exortando explicitamente ao racismo, etc., etc., o símbolo - logo a começar pelos indicadores marciais da própria composição musical - é perigoso.
Aquela época foi plena de vitalidade criativa, os Joy Division ou os New Order que lhes sucederam terão sido, apesar de tudo o menor dos meus interesses. Fui, por exemplo, buscar em Tarkovski um muito mais interessante sentido das sombras. E para "controvérsia", sim, até editei com conhecimento de causa, na Frenesi em 1997, a «Viagem ao Fim da Noite» do anti-semita Céline... E não porque os judeus já tivessem provado à larga que agora são eles quem pretende o genocídio dos palestinianos. No ano anterior havia editado «Reflexões Sobre a Mentira» do judeu Alexandre Koyré e, em 2000, seria a vez de «Diálogos de Amor» de Iehudah Abrabanel, outro judeu.
Dá que pensar, não dá?...
Um abraço do
Paulo da Costa Domingos