Quarta-feira, 28 de Julho de 2010

PLANO B


Portanto, a questão é esta: «If we are here not to do / What you and I wanna do / And go forever crazy with it / Why the hell we are even here?» Faz bricolage do peito, recolhe de cada um dos teus poros os vermes de Dylan Thomas, prime o botão para que se dê início ao Plano B. Perante ultimatos, como os recentemente aprovados pela comunidade cigana da qual és parte integrante, retém-te nos vibradores domésticos, corta o cordão umbilical, cresce um pouco, que é como quem diz ─ deixa de olhar só para o teu umbigo e toma a barriga pelo todo. Lá dentro estão filhos que te obrigam a pensar para lá do umbigo, um cão doente, presidentes, bilionários, generais, amantes estrangeiras e uma grande dor. Toma: a Faixa de Gaza preocupa-te, os poetas não; a fome em África preocupa-te, frangos depenados não; a prostituição infantil preocupa-te, assim como o aumento do IVA ou o Programa de Estabilidade e Crescimento que têm vindo a fomentar a prostituição adolescente, adulta e da terceira idade. Os bordéis onde avistas a identidade do demónio, passeando de saltos altos, desnudado, numa passarela atapetada de vermelho, com câmaras digitais em vez de espingardas apontadas ao luxuoso modelo, enquanto lá fora os profetas declamam excertos bíblicos de cor, como se carecessem de salvação, como se a salvação não fosse apenas mais um momento encenado desta grande festa, tudo isso te preocupa. Os poetas não. Os poetas preocupam-te apenas enquanto espécie em vias de extinção, uma espécie, infelizmente, autofágica, maníaca e obsessiva. Portanto, a questão é esta: tal como o tio Sandro, também tens experienciado um absoluto sentimento de desorientação. Mas não tens o seu engenho, por aqui não te esperam haréns como os da Toscânia. Como sobreviver neste desperdício de oportunidades? Como dar corda aos relógios? Como viver sem fazer da estupidez, da ignorância e da prepotência um abismo à beira do qual nos sentimos tentados a dar um passo fatal? «Give me a vision when I got none». Dando asas ao subconsciente, guardando-te numa caixinha depositada no lado esquerdo do peito, fazendo de cada um dos pulmões frequências do amor, apelando à compreensão dos violinos, sendo, talvez, um pouco mais exigente com o cântico dos pássaros e ansiando pela generosidade dos grilos, rezando para que a pesca seja pródiga, caminhando com uma mão no bolso e a outra no assobio, assobiando para o ar a esperança de uma vontade reprimida e aguardando que o vento nos baptize com o bafo dessa esperança há muito renegada. Os homens são uma fonte de contradições, mas as contradições são um caudal de ideias onde largamos à deriva a nossa voz. Tiveste um pai e uma mãe para desconhecê-los. Hoje, são apenas estranhos que se cruzam nos subterrâneos da família. Tens batidas de plástico no coração. Em termos de laços, calha-te sempre que de quem gostas não goste de ti e quem gosta de ti ou te é indiferente ou simplesmente insuportável. Portanto, dança, dorme, bebe, fuma. «What da hell can you do, my friend?» Há-de haver sítios onde ninguém te multará o excesso de inspiração, há-de haver pelo menos um lugar onde ninguém te censurará a respiração tribal, sem método nem razão, onde ninguém se atreverá sequer a supor conspiração onde apenas existe vontade de cantar, livremente, espontaneamente, sem outro sentimento que o da pura improvisação. Ahhhhhhhhhhhhhhhhhh!!!!!!! «Spread good music and good poetry». Dissemina o álcool do desejo, semeia os incêndios da paixão, cospe o fogo das palavras, não brinques com coisas sérias, não faças da sobrevivência um espectáculo, não caias na vulgar ratoeira das greis, sem que dês por isso terás a cara maquilhada e não passarás de um palhaço, e os palhaços podem entreter as crianças, mas estão longe, muito longe, de serem crianças, transforma-te tu numa delas, recupera o sorriso que o tempo te usurpou, apaixona-te pelas bruxas e pelos magos, pelas sereias e pelas fadas, reinventa os mitos no fundo de uma garrafa, distribui talhadas de melão fresco pelos amigos, pensa que amanhã nenhum país te cuidará dos ossos como podes tu agora fazê-lo. Reúne todos os vermes de Dylan Thomas e mete-os a dançar ao som de Gogol Bordello. Verás que, por momentos, resulta. Mais que uma sucessão de breves e fugazes momentos não é a vida.

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