Sexta-feira, 30 de Julho de 2010

REFÚGIOS



Foi o poeta catalão Joan Margarit quem mais recentemente recuperou para a poesia a propriedade do refúgio. Casa da Misericórdia, o poema, diz assim: «Os orfanatos e hospícios eram duros, / mas ainda mais dura a intempérie. / A verdadeira caridade dá medo. / É como a poesia: um bom poema, / por mais belo que seja, tem de ser cruel. / Não há mais nada. A poesia é agora / a última casa da misericórdia». No epílogo ao livro homónimo, publicado pela OVNI em Outubro de 2009, o poeta não resistiu à tentação de se explicar: «As Casas da Misericórdia foram instituições de uma grande severidade, às vezes à beira da maldade, pensava eu, recordando aqueles anos do pós-guerra, quando eram referentes familiares na nossa vida quotidiana. E, neste ponto, vinham-me à cabeça as solicitações das mães, e a conclusão era clara: a intempérie era muito mais assustadora. Por isso, esforçavam-se por fazer entrar os seus filhos naquele lugar. E, neste sentido, a mente dava um salto para a poesia, para o pouco que um poema talvez sirva para ajudar a suportar a dor e as ausências». Esta comparação da poesia com uma Casa da Misericórdia, sendo feliz poeticamente, não deixa de ser triste existencialmente. Estamos ainda nos domínios da catarse aristotélica, de uma concepção da arte enquanto refúgio, numa tentativa de conferir àquilo que se cria (para Margarit, aquilo que se descobre) alguma utilidade. A pouca utilidade do poema será, então, «ajudar a suportar a dor e as ausências».

Não obstante, o poema «tem de ser cruel». A sua utilidade determina-se pela sua finalidade, ou seja, sendo um refúgio, ele recorda-nos a sua parca condição, a sua insuficiente natureza, a sua ínfima força perante as ameaças da intempérie. Debaixo de um temporal, por vezes nenhum toldo aguenta. As grutas podem proteger-nos das feras, mas mais tarde ou mais cedo seremos obrigados a enfrentá-las nos caminhos da vida. Fora das grutas pensadas, imaginadas, erigidas por cada um à sua maneira, somos todos débeis. A crueldade do poema reside na sua capacidade de sintetizar a insignificância. O discurso é atraente, o argumento impõe-se pela lógica irrefutável das premissas; mas como em todo o raciocínio, é a proposição maior que determina a cópula e a conclusão. Por que parte o poeta desse princípio de uma realidade ameaçadora? O que o leva a determinar a catástrofe? Dir-me-ão que os olhos abertos são o que chega para de uma forma muito clara e cartesiana podermos formular o nosso indubitável princípio primeiro: o mundo é uma ameaça constante. Logo, enquanto parte integrante do mundo, o homem é um ameaçado permanente. Contudo, num outro poema, o poeta acrescenta: «Mas o monstro sou eu, e não outro alguém / a quem, para me salvar, posso matar» (Prozac). Pode alguém escapar a esta monstruosidade? Pode o texto restituir-nos a forma perdida, a geometria das proporcionalidades? Poderá a poesia reconstruir-nos o rosto deformado pelo tempo?

Traz-nos aqui a ilusão de uma inocência perdida, a suposição de uma degenerescência irremediável. No fundo, estamos a falar da consciência dos males que contaminam o mundo. E, no imo dessa consciência, de uma náusea que nos impede a reacção. Deixamo-nos inebriar pelo espanto que o terror inspira, ficamos boquiabertos perante as impensáveis, imponderáveis, inimagináveis atrocidades humanas. A guerra, a intempérie. O próprio mundo revela-se-nos catastrófico, na medida em que nos desperta este triângulo no centro do qual passaremos a andar à deriva: maldade, insignificância, morte. Curiosamente, sobrevivemos. Talvez o mal não seja assim tão mau, ou talvez haja quem invista algum do seu tempo na construção dos refúgios. A poesia, a música, a pintura, o cinema, a dança, as artes, as artes serão esses refúgios. E o artista o super-herói da Marvel, qual spider-man, que das suas mãos verte a teia onde nos protegeremos dos reis do mal. Isto não faz sentido algum, impele-nos para as populares parangonas que pretendem disfarçar a insignificância do artista ele mesmo. O problema está em assustarmo-nos perante esta insignificância, o problema está em olharmos para o mundo com apenas um dos olhos, não conseguirmos perceber que na sua aparente hecatombe, no seio da intempérie, há todo um processo de renovação em marcha. Lemos os fragmentos de Empédocles, achamos piada ao mago, às duas grandes forças que, no mundo, orientam esse ser exilado e errante que é o homem: o Amor e a Discórdia (Ódio). Achamos piada, mas não fazemos disso lei. Preferimos embriagar-nos de discórdia, é muito mais fácil dizer que o mundo é uma merda a assumir que com a merda se estruma a beleza que atapeta os prados.

Vem-me à memória esse diálogo seminal saído da pena de Vergílio Ferreira (Para Sempre):

─ Que problema de merda é esse do absoluto e da morte?
─ Fala baixo que as tias podem ouvir.
─ Que problema de caca é esse de desocupados? Os teus problemas são um insulto para quem não tem que comer. Eu estou-me nas tintas para todo esse mistifório de meninos mimamos pela sorte. Quero lá saber do depois do depois. Quero é saber do agora, aqui, quero saber de problemas concretos, daqueles que se resolvem com as mãos, com os pés, no estômago. Toda essa metafísica de merda
─ Fala baixo
mas ele não parou.

E fez muito bem, agradeço-lhe. Duvido que possamos ilustrar melhor o estado actual da pátria do que chamando a atenção para o vazio discursivo desses «meninos mimados pela sorte» que, independentemente das subjectivas e individuais profissões de fé, nos parecem sempre mais papistas que o papa, esperando dos outros não o que eles são, mas o que a sua consciência preconceituosa concebe lá nos desígnios imponderáveis da preguiça de pensamento. Dar-se-ão bem com padres, tão acólitos e beija-mão se apresentam. Açaimados pela gravata do uniforme, prescindem de pensar por cabeça própria. E dizem: morte, morte, morte, morte, morte, criando em nós uma vontade imensa de responder: diz-me algo que eu não saiba já. Que vamos todos morrer, é dado adquirido. Há muito nos intoxicámos desse inevitável destino. Até lá, estamos vivos e até rimos e brindamos e sobrevivemos e fazemos coisas; mais do que construir refúgios, limitamo-nos a fazer coisas que não nos refugiam de nada senão de nós próprios, porque o que aqui está em causa não é a inadequação do mundo, pelo menos não tanto quanto a nossa inadaptabildiade. Se conseguirmos evitar os vicíos que reconhecemos aos outros, já não é mau. O melhor poema será sempre o da velhice, até lá andaremos na guerra:

SER VELHO

Entre as sombras daqueles galos e cães
dos quintais e currais de Sanaüja,
há um buraco de tempo perdido e chuva suja
que vê os meninos ir contra a morte.
Ser velho é uma espécie de pós-guerra.
Sentados à mesa da cozinha
em noites de braseiro a escolher lentilhas
vejo os que me amavam.
Tão pobres que no fim daquela guerra
tiveram de vender a miserável
porção de vinha e o casarão gélido.
Ser velho é a guerra já ter acabado.
Saber onde estão os refúgios, agora inúteis.



Ao alto: ilustração de Filipe Abranches, in Massive, VV.AA., vol. 8 da colecção CCC, Associação Chili Com Carne, Dezembro de 2009. O poema final é de Joan Margarit, in Casa da Misericórdia, trad. Rita Custódio e Àlex Tarradellas, OVNI, Outubro de 2009.

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