segunda-feira, 30 de agosto de 2010

BOA SORTE AOS CRÁPULAS


A fundamentação de um Estado de Direito, por mínimo que seja, assenta em princípios de justiça. Em nome de uma ideia de equidade, os cidadãos preferem hipotecar parte da sua autonomia, penhorar um pouco da sua liberdade, pagando ao Estado a gestão dessa ideia. Julgam, deste modo, estar menos à mercê das arbitrariedades dos mais poderosos. No fundo, o Estado serve para criar nos mais fracos a ilusão de que também podem ser fortes. Para tal, criam-se leis, cobram-se impostos, geram-se cargos administrativos. Há um erro de princípio neste processo. Nenhum Estado se organiza a pensar no direito à felicidade que todas as pessoas têm. Os estados organizam-se a partir do dever à bondade. Isto é, parte-se do princípio (errado) de que a bondade garantirá a felicidade. A bondade não garante a felicidade. O mundo do trabalho oferece-nos exemplos eloquentes desta realidade. Sem querer exagerar, eu diria mesmo que, no mundo do trabalho, quanto mais perverso mais feliz. No contexto laboral a felicidade advém de nos sentirmos devidamente recompensados pelas nossas tarefas. Ora, hoje em dia, poucos se sentirão devidamente recompensados pelo seu desempenho. A generalidade das pessoas é mal paga, os empregadores parecem preferir, muitas vezes, a rotatividade à especialização. Contratam um tipo por 6 meses, ele anda para ali numa ânsia danada a pensar se depois daqueles 6 meses ainda pretenderão os seus serviços ou como poderá desenrascar-se posteriormente. Passados esses fatídicos 6 meses, é posto na rua, dão-lhe um chuto no traseiro como quem chuta um cão tinhoso. Este indivíduo pode vir a passar por esta experiencia várias vezes. É um tipo aplicado, e nalguns casos com resultados excelentes, mas os interesses de quem o emprega sobrepor-se-ão às qualidades por si demonstradas. Em situações normais, tenderíamos a pensar que nenhum patrão se livra de um empregado com um desempenho excelente. Todavia, não vivemos em situações normais. O que acontece hoje é que um empregado com um desempenho excelente vê o seu trabalho recompensado exactamente na mesma medida de um trabalhador com um desempenho médio, um desempenho fraco ou um desempenho muito fraco. Isto quando vê. Os salários não se ajustam à qualidade dos desempenhos porque, na realidade, não existe uma avaliação criteriosa e consequente desses desempenhos. Logo, nivela-se por baixo. Paga-se pouco para, na iminência de algo se perder, não ser muita a perda. Esta realidade gera um sentimento de injustiça nas pessoas. Neste caso, esse sentimento não provém da constatação das desigualdades, mas do facto de essas desigualdades não serem reconhecidas e devidamente interpretadas com uma readaptação das recompensas. Será justo que um tipo que trabalha mais e melhor ganhe exactamente o mesmo que aquele que trabalha menos e pior? As respostas a este problema tendem sempre a encontrar uma solução na ilusão de uma recompensa futura. Mais tarde ou mais cedo, dizem, esse empenho será devidamente reconhecido e recompensado com uma promoção. Mas e se não for? E, sendo, não irá o indivíduo deparar-se sempre com estas discrepâncias? Estas dúvidas, legítimas e dolorosas, tenderão a perdurar na mente do injustiçado. A inclinação será, muito naturalmente, para uma desmotivação logo interpretada como baixa de rendimento/produtividade. Portanto, se Deus ainda fosse vivo, seria tudo mais fácil: as pessoas acreditariam no paraíso e atacariam o seu lugar paradisíaco post-mortem, seriam muito boazinhas em vida, ainda que pudessem ser muito mal tratadinhas, graças a Deus, à espera que o Senhor viesse a recompensá-las em devida altura. Tendo Deus morrido, e constatando-se a inexistência de paraísos na terra, aquilo que um cidadão comum pode esperar é que o seu esforço seja devidamente reconhecido e proporcionalmente recompensado. Não sendo, que podemos esperar desse cidadão? Que se transforme num crápula. Muito legítima, justificável e compreensivelmente. Boa sorte, então, aos crápulas deste mundo cuja origem do seu mal se fundamenta na injustiça de que foram alvo. Que a morte lhes seja leve.
Ao alto: arte de José Vilhena.

2 comentários:

teardakitess disse...

A Humanidade (os problemas que criam e depois têm que enfrentar)é a mesma em todos os quadrantes!
Que maçada, não?

hmbf disse...

De facto, é uma maçada. :-)