Sábado, 28 de Agosto de 2010

UM DIA COMO OS OUTROS

Depois de ter vomitado os biscoitos que Bianca lhe fizera, Baltazar concluiu que não podia deitar-se de estômago vazio. Cozinhou uma omeleta com linguiça, degustou-a e estendeu-se na cama. Passou muito mal durante a noite. Ou porque a linguiça não era das melhores, ou porque os ovos estavam estragados, sofreu uma crise de azia que apenas teve solução com mais uma ida à casa de banho para deitar fora tudo o que havia posto dentro. A azia não o deixou dormir, mal o deixando adormecer. O pouco que se pode dizer ter Baltazar dormido, dormiu-o delirando com cenas de sexo sob o corpo de uma orca ao som de pombos correio em desinquieta algaraviada. No entanto, acordou cheio de energia. Neste caso, acordar cheio de energia significa acordar disposto a esticar as pernas, erguer o corpo, meter-se em posição vertical e pôr um pé à frente do outro. Ao lavar os dentes, cravou um pêlo da escova entre os molares. Só conseguiu sacar o pêlo com um palito, não sem antes ferir a gengiva, fazer sangue e deixar a boca num inchaço tremendo. Parece que lhe cresciam azeitonas nos maxilares. Depois, queimou a língua num café escaldado. Já antes, tinha entornado uma considerável poção de leite ao tentar abrir um pacote. Esbarrou no leite, bateu de cu nos azulejos da cozinha e ficou todo dorido. Sentou-se a enrolar um charro de hidroerva. Queria, pelo menos, um momento de descanso absoluto, de silêncio, de paz, de calmaria. Mas a ansiedade com que enrolou o charro não o permitiu. Depressa e bem, não há quem. O charro ficou mal enrolado. Enquanto o fumava, caía-lhe sobre os dedos uma chuva de pepitas de cinza em brasa. Ficou com a mão toda marcada por bolhas de queimaduras, abriu um buraco numa perna das calças, ficou com o sofá transformado num queijo suíço. Pensou então que podia ver um dos 57 episódios de Tarzan que guardava gravados em cassetes de vídeo. Como não encontrou o episódio que pretendia rever, resolveu sentar-se no sofá a olhar para a televisão apagada. Ao sentar-se, ouviu qualquer coisa a estalar. Era a cassete com o episódio que ele queria ver. Estava danificada. Pôs-se então a matutar no azar que tinha. Se Baltazar fosse Bianca, encontraria em tanto azar razões para se orgulhar. Dificilmente haveria no mundo alguém com mais azar na vida. Em termos de azar, ele era o melhor que havia. Podiam inscrever o seu nome no livro dos recordes e oferecer-lhe uma medalha: Baltazar, o homem mais azarento do mundo. Mas Baltazar não era Bianca. Os dois tinham níveis de auto-estima radicalmente antagónicos. Limitou-se a pensar que aquele era apenas mais um dia como outro qualquer. Por mais difícil que possa parecer, aquele era, de facto, um dia como todos os outros na vida de Baltazar.

Escrito para O Indesmentível.

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