Quarta-feira, 29 de Setembro de 2010

29 DE SETEMBRO.

Tenho de deixar de orgulhar-me da minha incapacidade de sentimentos normais (o prazer de estar numa festa, a alegria da multidão, os afectos familiares, etc.). Pelo contrário, sou incapaz de sentimentos excepcionais (a solidão e o autodomínio), e se não me saio bem nos sentimentos normais é porque uma pretensão ingénua, em relação aos outros, me corroeu o sistema de reflexos, que era normalíssimo.
Em geral, contentamo-nos em ser incapazes dos sentimentos normais, e julgamos que isso significa «ser capaz dos outros».
Analogamente, pode ser-se incapaz de escrever uma idiotice e, também, uma coisa genial. Uma incapacidade não postula a outra capacidade e vice-versa.
Odeia-se o que se teme, isto é, aquilo que se pode ser, que se pode ser, que se sente que se é um pouco. Odiamo-nos a nós próprios. As qualidades mais interessantes e férteis de uma pessoa são as que essa pessoa mais odeia em si e nos outros. Porque no «ódio» encontra-se de tudo: amor, inveja, ignorância, mistério, ânsia de conhecer e possuir. O ódio faz sofrer. Vencer o ódio é dar um passo no sentido do autoconhecimento e do autodomínio, é «justificarmo-nos» e, portanto, deixar de sofrer.
Sofrer é sempre culpa nossa.


Cesare Pavese, in O Ofício de Viver - Diário (1935-1950), trad. Alfredo Amorim, Relógio D'Água, Fevereiro de 2004, pp. 121-122.

4 comentários:

bluesy traveler disse...

Posso ficar aqui a reler isto vezes sem conta?

hmbf disse...

Podes. É bom saber-te por aqui. :-)

fallorca disse...

Ganda data, meu amigo... há 39 anos que a comemoro, e tive a suspresa do Clube Naval de Portimão estar a festejas o 50º aniversário... On the road, again ;)

hmbf disse...

E eu aqui parado, paradinho, paradão. :-)