quarta-feira, 29 de setembro de 2010

PARA QUÊ SER FELIZ?

Nunca tive um trabalho que fosse tão mal pago. Até tenho vergonha de dizer o quanto trabalho e o quanto recebo pelo trabalho que tenho. Chega a ser ridículo. Às vezes penso que não tenho necessidade de me sujeitar a uma situação destas. Outras vezes penso que os tempos estão difíceis, melhores dias virão. Já ponderei voltar ao ensino, emigrar, fazer como o MV. O MV foi um dos muitos formandos que me passaram pela frente. Iniciou o curso em idade avançada, no limite. Tinha 22 ou 23 anos. Fora pai muito novo e tinha problemas com o álcool. Frequentava um curso profissional de 3 anos e aquela era a última oportunidade para ficar com o 12.º ano. Ao 3.º ano, sucumbiu. Ali mesmo à beira do rio, o MV foi morrer de sede. Há dias vi-o. Mudou-se para o Alentejo. Diz que não consegue arranjar trabalho, mas não se queixa. Até Abril garantiram-lhe 300€ por mês de subsídio de desemprego. Como não tem rendas para pagar, julga-se um afortunado. Não o invejo e só lhe desejo bem. No entanto, a sua história pôs-me a pensar. E se eu fizesse o mesmo? Também não tenho rendas para pagar. E tenho duas filhas. Acho que conseguia arrancar uns trocos valentes ao Estado. Encararia o subsídio de desemprego como uma espécie de Bolsa de Criação Literária. Escreveria um romance parvo, um livro de auto-ajuda, uma dessas porcarias que vendem milhares de exemplares. Ficaria rico num ápice, iniciaria uma promissora e pródiga carreira. Tenho a certeza de que seria capaz. Por outro lado, acho que não seria feliz. Assim também não sou. Para quê mudar quando nos sentimos condenados à infelicidade? E na verdade eu não sou infeliz, sou só pouco feliz, mais ou menos feliz, um feliz assim-assim, de vez em quando, tem dias, isso, tipo agora, neste momento, sinto-me feliz. Como ontem, quando ouvi esta canção enquanto estava a trabalhar:


9 comentários:

ln disse...

Tens a certeza de que escrever um romance parvo tornar-te-ia rico?
É preciso sorte, até para a Margarida Rebelo Pinto.

hmbf disse...

Tenho a certeza absoluta de que não o escrevendo tenho menos possibilidades de vir a ser rico. Mas essa questão é acessória. Também posso investir no negócio dos caracóis. O que não falta para aí é ranhosos.

O Homem Que Sabia Demasiado disse...

Sim, para quê a felicidade quando a melancolia a pode substituir? - http://ohomemquesabiademasiado.blogspot.com/2009/05/felicidade-todo-o-custo.html

ln disse...

E não te pesava, um licenciado em filosofia, na consciência fazer merdinhas, altamente passíveis de serem objecto do ridículo, com o único objectivo de enriquecer fácil?

Anónimo disse...

E atenção que eu vou ser o próximo Lobo Antunes desta terrinha. Agora que o gajo vai encostar. Como se pode ver: http://ozoo.tumblr.com/

Tenho tipo 1 ou 2 concorrentes, só.

hmbf disse...

Homem demasiado, nem mais.

ln, essa é que é a questão. E nem é preciso ser licenciado em filosofia para chegar a ela. :-)

Anónimo, o Lobo Antunes vende muito pouco. É uma ilusão pensar que vende muito. Em Portugal há meia dúzia de autores que vendem muito (estou a ser um mãos largas) e o Antunes não é, definitivamente, um deles.

ln disse...

o anónimo sou eu, que assina como ln, foi por lapso.

não vende nada: o Cus de Judas já vai na 3gésima edição, e tantos outros, é só lamber prémios, vendas no estrangeiro, traduzidissimo. cada livro que lança é logo uma ramada de edições.

claro que não vende como saramago, nobel e talz.

hmbf disse...

ln, eu não disse que o Antunes não vende nada. Disse que vende muito pouco, comparativamente, como é óbvio, aos verdadeiros "bestsellers" nacionais: José Rodrigues dos Santos, Margarida Rebelo Pinto, Miguel Sousa Tavares (sobretudo o "Equador"), José Saramago (óbvio), entre outros fenómenos mais ou menos situados.

O José Luís Peixoto, por exemplo, vende muito bem. Dos mais novos, sinto que é o mais procurado. Inclusivé livros mais antigos. Bem, isto tudo para esclarecer que os livros mais recentes do Antunes são, tendo em conta as expectativas que criam, autênticos desastres de vendas (também o são literários, mas isso é outra história).

Claro que depois há os prémios, há toda uma máquina promocional por trás bastante poderosa, há as traduções, etc. Alguns livros mais antigos não vendem mal, mas os mais recentes, tendo em conta as expectativas, não vendem tanto quanto as pessoas julgam.

Outra coisa: nada de ilusões relativamente a tops de grandes cadeias comerciais. Não é preciso vender assim tanto para ir parar a um Top e estar por lá uma ou duas semanas. É preciso vender muito para se ir mantendo num Top. Enfim, isto dava pano para mangas. E é uma conversa chata. Vender muito não é importante. E este post, se o leitor reparar bem, não é sobre nada disso.

Este post é sobre poder ser momentâneamente feliz com coisas tão simples quanto ouvir a música certa no sítio certo em tempo certo. :-)

ln disse...

Se dá (panos)... são questões muito filosóficas, movimentos sociais, de pensamento, políticos, do «contemporâneo» e do hereditário civilizacional, antropologia e talz. não será, porventura, tanto, mas é um quase.

...fenómenos, rara, muito raramente, correspondem a algo de superlativo. e, em Portugal, cada vez mais se é «escritor» porque se quer ser «escritor». é chique pró «currículo» do mortal. tipo coisas como o Sousa Tavares, o Santos, etc.

Quanto ao resto: verdade é tudo, e estaremos fadados à indiferença.