Quinta-feira, 30 de Setembro de 2010

VOLTA AO MUNDO EM POESIA: GRÉCIA

Eis que esta viagem motiva uma questão: «não terá havido, no caso português com a igreja, a inquisição e o salazarismo, uma impossibilidade de extrema grandeza de acesso à dimensão poética, uma impossibilidade de conhecimento de si, do seu "interior", de procurar dizer a experiência?» Por e-mail, o autor da mesma esclareceu o seguinte: «depois de ter escrito a pergunta ocorreu-me que a condição que descrevo como opressora em Portugal deverá ter ocorrido igualmente em Itália, negando por completo a minha questão». Seja como for, e ainda que pouco me seja dado afirmar sobre uma dúvida cuja formulação me parece demasiado complexa para aqui ser abordada, julgo pertinente apanharmos o barco em Brindisi e partirmos para a Grécia. Esse convencionado berço civilizacional, independentemente dos pilares engessados que hoje ostenta, foi sempre lugar de grandiosas experiências poéticas. Em termos comparativos, diria que a índole periférica do território português, fatidicamente imposta por uma muralha oceânica, apenas transposta em tempos de gloriosa memória (‘da-se, que os 5 a secos inspiraram-me o estro!), intimidou-nos a inventividade. Somos um povo assumidamente sereno e acomodado. É genético. Tais características revelam-se com indubitável clareza. Metade de um século governados por uma ditadura de espírito mesquinhamente introvertido é prova mais do que suficiente da nossa acomodação. Ainda agora, perante a crise e os pacotes de austeridade, pouco mais nos é dado agir do que encolher os ombros e enfiar as mãos nos bolsos. O espírito fundador dos gregos foi épico. As consequências são explícitas. Desse espírito retivemos apenas histórias para contar às crianças. Substituímos a eloquência das divindades clássicas pelo simbolismo sacrificial de um homem que se entregou aos seus inimigos, preferimos um corpo espetado na cruz a um calcanhar, ainda que traiçoeiro, heróico e valente. Cesare Pavese, no seu O Ofício de Viver, aconselhava um regresso a Homero. Já ele dizia, provavelmente embaraçado pela melancolia que o açoitava, que «os grandes poetas são raros como os grandes amantes. Não bastam as veleidades, as fúrias e os sonhos; é preciso melhor: ter colhões». A educação para o conforto, inseparável do aburguesamento da sociedade, castrou-nos. Camões e Bocage ainda os tiveram, mas Pessoa foi já um castrado. É por isso que Pessoa é o herói da actualidade, o génio da modernidade, é ele quem melhor representa todas as nossas debilidades, ele é o presente e o futuro, é a ruptura com o passado. É o rei dos castrados. No fundo, é essa degenerescência que está na origem de uma espécie de subsituação do épico pelo lírico (Pavese também escreveu umas coisas curiosas a este respeito). A domesticidade do ser é, por excelência, a matéria do lirismo. Andamos há muito enrolados numa poesia da tadinhice, pelo que agora talvez não seja má ideia começarmos a extrair dessa domesticidade as suas irónicas contradições. Disto tudo, como é óbvio, não se fazem regras sem excepções. Mas o que fica claro é que, ainda hoje, vigora o eu entediado consigo próprio, chateadíssimo com o mundo e tristonho, um eu submerso na consciência da inutilidade existencial, um pessimismo como que envergonhado de si próprio, um eu deveras carente de estimulantes. A força da natureza e os corajosos actos humanos foram sendo ocupados por uma resignação amorfa e desistente. É tudo morte, morte, morte, morte, morte, e de tanta morte ser dita já mortos parecem estar os sedentários zombies. Pois bem, desconheço a actualidade poética grega. Mas sei que por lá a gente ainda pode reencontra-se com Giórgos Seféris (Esmirna, 1900), Yiannis Ritsos (Monemvasia, 1909), Odysséas Elytis (Iráklio, 1911) e Konstandinos Kavafis (Alexandria, 1863):

UM VELHO


No café no lugar de dentro na zoeira turva
senta-se um velho na mesa se curva;
com um jornal diante dele, sem companhia.

E no desdém da velhice miserável
pensa como usou tão pouco o tempo deleitável
em que força, e eloquência, e beleza possuía.

Sabe que envelheceu muito; sente-o, é visível.
E contudo o tempo em que era novo ao mesmo nível
do de ontem. Que espaço apressado, que espaço apressado.

E considera como burlava dele a Prudência;
e como nela tinha confiança sempre ─ que demência! ─
a perjura que dizia: «Amanhã. O tempo é demorado».

Lembra-se de impulsos a que punha freio; e sem medida
a alegria que sacrificava. Cada história perdida
agora troça da sua desmiolada sageza.

. . . .Mas do muito que foi pensando e não esquece
o velho atordoou-se. E adormece
no café apoiado sobre a mesa.


Konstandinos Kavafis, in Poemas e Prosas, trad. Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratsinis, Relógio D’Água, 1994, p. 73.

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