As pessoas andam abatidas, parecem ter chegado a um estado de completa ausência de perspectivas. O abismo é o panorama que lhes resta. Tudo porque sentem que estão a perder conforto e autonomia, porque se vêem cada vez mais sujeitas aos critérios feudais do grande capital. O futuro, neste momento, é-lhes como o mar para os nossos antepassados; aqui chegados, tiveram uma de duas hipóteses: montar a tenda ou voltar para trás. Muitos séculos passaram até que fosse possível atravessar o oceano. Uma voz ecoa sai de casa, faz-te à estrada, segue o exemplo. O Omar diz-me: enxotem a crise, vão trabalhar, emigrem.
7 comentários:
Ó hmbf, eu também ando abatido mas explique-me lá essa dos "critérios feudais do grande capital" e, especialmente, como é que se aplicam à situação actual. Ao modo como cá chegámos, até posso estar de acordo que existe relação, atendendo à união de políticos, banqueiros e empresas de sectores ligados a obras públicas num alegre regabofe de despesa sem controlo, «obra feita» e lucro fácil. Mas agora? Nós queremos que nos emprestem dinheiro. Quem tem o dinheiro receia emprestar-nos porque acha (com razão) que não vamos pagar. Onde é que estão os "critérios feudais"? No facto de nos dizerem, como o meu pai muitas vezes me disse quando eu queria comprar qualquer coisa (ah, aquele Lancia Fulvia vermelho à escala 1:18 que acabei por perder sabe-se lá onde...), «não podes ter tudo; faz escolhas e poupa pelo menos parte do dinheiro»?
«Ao modo como cá chegámos, até posso estar de acordo que existe relação, atendendo à união de políticos, banqueiros e empresas de sectores ligados a obras públicas num alegre regabofe de despesa sem controlo, «obra feita» e lucro fácil».
Mas isto acabou?
Touché. Pensei que estava a referir-se ao «grande capital» internacional (os terríveis «mercados») que nos obriga à contenção. De qualquer modo, durante muitos anos gostámos do modelo seguido e ignorámos os avisos (lembra-se como ficámos todos ofendidos com o «país de tanga» de Durão Barroso?). Agora, infelizmente, pagamos a factura. E, mais infelizmente ainda, por muito que se possa - e deva - cortar em privilégios e exageros, os graficozinhos do Medina Carreira (filho da mãe exasperante) não enganam: não vai chegar. Precisamos de crescimento económico forte e não é com este Estado obeso e sem rumo que o vamos conseguir.
(Não existia verdadeira alternativa? Talvez. Mas também nunca a exigimos. Muito pelo contrário até, como ainda no ano passado se verificou.)
O país de tanga do Barroso era tanga política. No fundo, somos um país de tanga desde a fundação. O Medina não ajudou nada quando podia ajudar, agora ajuda ainda menos. Aliás, essa coisa do "despesismo" era diferente no tempo do Medina? O Estado não é obeso, precisa de uma dieta, está claro, mas sobretudo para controlar o peso. Basicamente, precisa de ser criteriosamente governado, coisa que não tem sido. Começámos a perder quando o cavaquistão e nunca mais recuperámos.
Não sou advogado dele mas o Medina é anterior ao «cavaquistão» (o que é que você tem contra Viseu? ;-) ) e sim, era um bocado diferente: havia menos dinheiro a circular e o Estado tinha muito menos para distribuir. Quanto ao país do Barroso (e eu não simpatizo com o homem), podia - e devia, porque ele tinha maioria absoluta - ter sido diferente mas a verdade é que nunca lhe foi dado o benefício da dúvida. A Guterres e a Sócrates - que também dispôs de uma maioria absoluta e de mais anos para corrigir as contas - foi.
E lamento discordar mas o Estado precisa de uma dieta. Nós não devíamos estar sequer perto da média de impostos da UE. Uma conta simplista: um português ganha em média menos de mil euros; um alemão ganha em média mais de dois mil e quinhentos. Depois de tirar trinta e tal por cento a mil fica com muito menos do que depois de tirar cinquenta por cento a dois mil e quinhentos. Mesmo considerando a diferença no custo de vida, a discrepância é enorme. Eu não gosto da ideia de um Estado grande porque acho que gera quase sempre mais corrupção. Mas nem é o tamanho que me interessa tanto. É garantir que o tamanho não aumenta antes da economia poder suportar-lhe os custos.
Caro JAA, eu disse: o Estado não é obeso, precisa de uma dieta, está claro, mas sobretudo para controlar o peso.
V. contrapõe: «e lamento discordar mas o Estado precisa de uma dieta.»
Bem vistas as coisas, não há assim tanta discordância. Ambos estamos convencidos de que o Estado precisa de uma dieta, mas por razões diversas. Deixo o resto para o meu camarada Van Zeller.
Ok, ok, touché outra vez (tenho de ver se durmo mais horas). O que eu queria dizer é que ele precisa de perder peso e não apenas controlá-lo. Mas talvez tenha razão no facto de não termos assim tantas discordâncias. O que pode ser uma chatice, não? :-)
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