quinta-feira, 21 de outubro de 2010

CÃOSIBETRO


Talvez interesse ao poeta, mas duvido que interesse ao leitor. Ainda que muitas vezes se confundam, e cada vez menos se distingam, poeta e leitor de poesia mantêm uma relação desequilibrada com o poema. Tenho dúvidas que para o primeiro o poema possa ser mais do que um testemunho perturbado da conexão que o seu pensamento estabelece com a linguagem. Daí que seja tão difícil, até contraproducente, traduzir um poema: perde-se música, ritmo, adultera-se, eventualmente, o sentido e até o significado do poema enquanto um todo singular. Podemos, no entanto, distinguir aqueles poetas para quem o poema é uma composição guiada pela vontade de outros para quem o poema resulta de uma vontade que se deixou guiar pela força das palavras ou por outras forças mais duvidosas, como a chamada inspiração.

Num dos seus manifestos, Vicente Huidobro insurgia-se contra os improvisadores, negando a possibilidade de um automatismo psíquico puro e classificando de banal e demasiado fácil a escrita automática advogada por um surrealismo primevo: «Todos los improvisadores actúan conforme a vuestros principios. No son los amos sino los esclavos de su imaginería mental». E acrescentava que a poesia é algo muito mais sério e formidável que surge da nossa superconsciência. Outro poeta chileno, Nicanor Parra, dizia que o poeta é um caçador de palavras que compõe poesia, não a produz: «Él no es más que un oído atento que colecciona su poesía de las bocas de sus hablantes». Portanto, o trabalho do poeta consistiria, numa primeira fase, em coleccionar palavras, frases, situações e, numa segunda fase, em elaborar esses dados provenientes da experiência oferecendo-lhes uma maquilhagem nova ─ mas fiel ao rosto original. Como é óbvio, este rosto original é de uma subjectividade ilimitada. Ninguém vê da mesma forma o mesmo objecto, a poesia não é um teste de Rorschach e mal de nós, leitores de poesia, quando os poetas pretenderem transformar-se em agrimensores da realidade ou numa espécie de sociólogos informais com pretensões científicas.

Apesar de tudo, a relação que o leitor de poesia (desinteressado) mantém com o poema é sempre mais honesta. Ele pode afirmar, como Fernando Assis Pacheco em Desversos (1990), «não tenho nada contra a poesia / mas é mais útil a limpeza a seco». Isto implica uma consciência, certamente irónica, da relevância da poesia, aqui enquanto embaixadora de toda a arte, num mundo avesso à existência dessa mesma poesia. Note-se que aqueles dois versos são os últimos de uma quadra que começa elencando «as artes nobres: varrer sachar empar / e outras: bordar coser fazer renda». Na boa tradição de Parra, esta quadra mais não faz do que coleccionar os estereótipos de um pensamento oficial, banal, vulgar, afirmando algo que, bem vistas as coisas, pretende ressalvar exactamente o contrário daquilo que está a ser dito. A ironia, aqui, reside precisamente nessa capacidade de insinuar algo afirmando o seu oposto.

Um leitor desprevenido, ao ler num poema que a limpeza a seco é mais útil do que a poesia, só pode fechar imediatamente o livro que está a ler e lançar-se na realização das tarefas domésticas. Mas um leitor mais acautelado suspenderá naquele momento a sua relação com o mundo, ficará por instantes a pensar no que possa querer dizer o que acabou de ser lido, e regressará à sua vida de todos os dias com uma nova imagem a rolar nos interstícios da consciência. Para ele aquele poema terá uma incomensurável e indefinível utilidade, nomeadamente a utilidade de lhe fazer repensar os preconceitos e os estereótipos que ainda hoje vigoram num mundo que há muito expulsou os poetas da cidade ideal para continuar a alimentar a ilusão de uma verdade universal e amestrar os indivíduos nos alienantes ofícios da sobrevivência material. A vida de um homem não pode ser reduzida ao trabalho. O trabalho dos poetas também é lembrarem-nos disso, isto é, lembrarem-nos de que não somos escravos.



Ao alto: uma das composições zoológicas do Animalário Universal do Professor Revillod, publicado em Setembro de 2009 por Orfeu Mini. Aconselha-se vivamente o livro em causa a todos os poetas ou seres deste e de outros mundos com pretensões a.

1 comentário:

ln disse...

http://ozoo.tumblr.com/

Será que sou poeta?!?!