terça-feira, 12 de outubro de 2010

UMA LENTE METAFÍSICA


Obviamente pagamos um preço. Está dito e assumido, com gosto. Mas ainda que saiba bem, ainda que desse preço nos possamos orgulhar, há sempre o cansaço que a dor imprime. A verticalidade com que aceitamos a porrada não nos exime da mais terrível das constatações: de nada servirá o nosso esforço se nele não estiver implícito o ajustamento de uma visão do mundo. E, mesmo assim, não seremos nós a usufruir dessa visão, mas tão-somente aqueles que, depois de nós, pretendam fazer dela uma espécie de lente metafísica. Encontramos um exemplo de rara clareza em East Coker, o segundo dos Four Quartets de T. S. Eliot. In my beginning is my end. A primeira estrofe abre-nos a porta da casa do tempo. Tudo muda, houses live and die, a essência do mundo está neste processo de saturação que leva à ruína tudo o que nasce, mas que também faz nascer da ruína algo de novo. A saturação não esgota o tempo, o qual não é descontínuo mas prossegue continuamente renovando as estações. Para lá dos ponteiros do relógio, para lá das fundações que sustentam os edifícios, para lá dos próprios edifícios, as nuvens continuarão a atravessar a Terra lavrada por aqueles que nela semeiam as visões do mundo. No primeiro movimento do poema, a postura daquele que observa a paisagem, ora idílica, ora ruinosa, do alegre casal que é já alimento do trigo, estrume, sintetiza-nos um duelo com o vazio que está na origem de toda a arte poética. Homem e mulher dançam matrimonialmente the time of the seasons, o tempo das sementeiras e o tempo das queimadas, mas também o tempo das colheitas. O amor dança a morte. É preciso entender que esta inevitável (e por vezes fatal) constatação de "uma morte que cresce dentro de nós" já no momento da concepção não retira à vida o mais fundamental dos seus estribos: para consumá-la é preciso vivê-la. Nenhuma ingenuidade pode pois ser-nos acusada quando renegamos esse repisar enfadonho de uma condenação óbvia. Sendo tema, a morte não pode continuar a ser o tema. Tudo o que a envolve e aparece no segundo andamento de East Coker, da infinitude do espaço à incomensurabilidade do Tempo, impele-nos para um combate with words and meanings do qual a mais evidente das constatações é: The poetry dos not matter. Mas por que não importa a poesia? Desde logo, porque não nos salva, nem nos recupera, nem sequer nos devolve o tempo perdido. A sua desimportância não é um desvalor, mas antes o sublinhado de um desengano, de uma ilusão desfeita, de uma (des)ilusão: a de que o conhecimento falsifica a realidade. We are only undeceived / Of that which, deceiving, could no longer harm. Pessoa não dirá melhor na sua Autopsicografia. É inútil insistir na morte que o tempo torna evidente, nenhuma inquietude se resolve espreitando a treva, procurando escutar a voz dos mortos, nenhuma sabedoria poderá livrar-nos dessa angustiada constatação que é a de saber debaixo da terra todos os que dançaram, que é a de nos vermos espelhados nas ossadas de Mantova. Para quê insistir nessa treva que a todos engole? Se a meta é o esquecimento, façamos da memória a pista. Se outra coisa não nos resta do que aguardar (to wait), que aguardemos dançando sobre as vozes dos mortos, que aguardemos em trânsito, nunca aquietados pelo desespero, que riamos agonicamente do destino, que mandemos o tempo (a espera) às favas e façamos das casas em ruínas (do desespero) o salão do êxtase, que deixemos Deus em paz com a sua amada morte, tanto quando ele nos deixe a nós em guerra com a vida, que nos deixemos embalar pelas vagas como o poema pelas palavras e que não façamos delas ferramentas disciplinadas, mas sim instrumentos de desobediência. A poesia não interessa, pois claro. Mas a quem interessa que a poesia não interessa?

Ao alto: o momento em que Kerchak ataca Greystoke, in Tarzan dos Macacos, de Edgar Rice Burroughs, com desenhos de Harold R. Foster.

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